Pages

Novembro de 2007

Depois de um longo dia, voar

Por mais que se pretenda ser ‘criativo’ no design,
é bom levar em conta que interfaces dependem de consenso.

Tinha sido um longo, longo dia. De uma semana interminável, aquelas em que não importa o que se faça e quanto se trabalhe, sempre deixa uma sobra que se emenda na outra semana, e na outra, e na outra… Enfim, um dia duro. Duro a ponto que chegou uma hora em que não adiantava mais insistir: era preciso parar para descansar, mesmo que fosse para retomar mais tarde. Tinha muitos livros fascinantes na prateleira, mas não me apetecia lê-los. TV, nem pensar. Uma cerveja só tornaria o trabalho restante ainda mais difícil. Talvez a melhor coisa a fazer fosse tirar uma soneca, mas o ambiente não era propício. Fazia alguns dias que eu tinha lido a história de um agricultor que passou 11 dias sem dormir, simplesmente alternando a atividade cerebral de um hemisfério para o outro, coisa que viria bem a calhar - se eu soubesse como fazê-la.

Por falta de opção melhor, resolvi voar. Como em um velho gibi do Tio Patinhas ou do Tintin, escolhi um ponto qualquer do globo e para lá me fui. As ilhas do Taiti estão muito distantes uma da outra, por isso resolvi passear aqui perto: Angra dos Reis, Ilha Grande e o litoral sul do Rio estavam de bom tamanho. “Longa é a praia, longa a restinga, da Marambaia à Joatinga…”, em um instante estava lá. Depois dela, o Rio, que de cima é sempre lindo, e um rasante sobre a Lagoa. Ao subir o Corcovado, nem dei pela falta do Redentor. Estava a caminho de outros lugares.

Em piloto automático, dei uma olhada em volta e larguei o comando para buscar uma Coca na geladeira. Quando voltei, estava quase no chão. Duas puxadinhas, um pedido de desculpas para os passageiros e percebi que o vôo ficaria melhor na companhia de Tom Jobim. Ao procurá-lo, acabei por achar um velho Sinatra que me convidava “come fly with me, let’s fly, let’s fly away…”. O tempo passou tão depressa no novo simulador de vôo do GoogleEarth que nem me dei ao trabalho de visitar as estrelas: já estava pronto para trabalhar de novo.

Chame você de pós-modernidade ou matrix, o fato indiscutível é que vivemos em um mundo intermediado por interfaces. Não só na web e nos sistemas digitais, mas por toda parte. Filosofia e semiótica à parte, não é muito difícil perceber que as imagens que nos chegam pelos meios de comunicação trazem um componente cada vez menor de realidade. Os paraísos artificiais são amigáveis, bonitinhos, seguros, limpos, confortáveis. Sob muitos aspectos, bem mais agradáveis que a pesada realidade. O mundo sem eles pode até ser mais “real”, mas para quem vive cercado de Botox e silicone, isso realmente importa?

Mais do que páginas, cores, letras e ícones, uma interface é qualquer ferramenta de acesso, monitoração, tradução e controle de um sistema. No ambiente digital, ela é o “intérprete” entre os impulsos elétricos de um aparelho e as necessidades de seu usuário, e, sem dúvida, um dos mais poderosos canais de comunicação que já foram inventados. É fascinante acompanhar o desenvolvimento dessa criança.

A interface gráfica, universo de trabalho de quase todos os designers hoje em dia, é só um dos sistemas possíveis. O sensor de movimento que tornou o Nintendo Wii tão popular é outro, como também o são o toque do telefone, o vibracall e o force feedback. Estamos tão cercados por elas que poucas vezes nos damos conta. O teclado do computador é um bom exemplo. Os atalhos que ele proporciona são indispensáveis até mesmo para quem não pretende escrever nem programar. Sob muitos aspectos, eles são ainda mais herméticos que os códigos de programação. Seu aprendizado pode ser lento e pouco intuitivo, mas é extremamente eficiente.

O teclado projetado na tela dos caixas eletrônicos, os ruídos e janelas de alerta do computador que avisam que algo não está certo, os programas que se desligam quando terminam um processo, os sistemas que se atualizam automaticamente, o movimento progressivo do cursor ao acompanhar a velocidade do mouse, o controle de sensibilidade, ajuste de branco e foco automático de uma câmara digital, a busca por sinal de um telefone celular, tudo isso é interface. E nem todas são boas, principalmente quando não funcionam direito. O reconhecimento de voz é a vítima predileta, mas os personagens “amiguinhos” da Microsoft (o cachorro, o hediondo clipe do Word) e o atendimento automático dos sistemas de telemarketing podem ser especialmente odiáveis.

Precisamos de interfaces porque a sofisticação dos aparelhos digitais demanda uma “tradução” cada vez maior de seus processos. Todos sabem como funciona uma porta, um livro, um automóvel. Isso faz com que só seja necessário aprender a usá-los uma vez. Quanto mais diferentes eles forem, mais difícil será usá-los. Se você não concorda, pense na sua pia e no sádico que inventou o registro redondo.

Por mais que se pretenda ser “criativo” no design, é bom levar em conta que interfaces dependem de consenso. No mundo eletrônico, ele é composto de símbolos e metáforas que se tornam cada vez mais complexas. Essa nova linguagem não é - nem poderiam ser - inventada por computadores. Ela surge, progressivamente, da relação que desenvolvemos com eles. Isso ajuda a entender porque as crianças aprendem tão rápido a usá-la - elas estão sendo alfabetizadas, ué - e explica a importância cada vez maior dos testes de usabilidade. O iPhone passou por eles, a Amazon também.

Como outros sistemas artificiais de linguagem (a comunicação escrita, por exemplo), as interfaces também podem ser combinadas, modificadas, revistas e ampliadas. É aí que entra o designer, que, nos ambientes digitais, está cada vez mais próximo de um arquiteto. Se ele não se preocupar em analisar o ambiente em que trafega, o máximo que conseguirá fazer será replicá-lo. Afinal de contas, quem cria mundos não pode se prender a eles.

Popularity: 1% [?]

2 comentários

desça a lenha:

Comente este post ou dê um link do seu site.

Acompanhe esses comentários.

Seja legal, não fuja do tópico.

Não faça nada que você não faria.

Se souber HTML, pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

*Campos obrigatórios