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Vá estudar, menino!

Você chama website de “home page”? Se orgulha de ser autodidata? Tsk, tsk, tsk…

Junho de 2006 – Revista Webdesign nº 30

No país em que a auto-ajuda é o “gênero” literário mais vendido e cujo Presidente da República se orgulha de nunca ter lido um livro, não é de se admirar a popularidade de certas personalidades virtuais cuja maior façanha é a reclamação indiscriminada e a constatação ferrenha que tudo, absolutamente tudo é uma porcaria.

Você certamente conhece alguns deles: são aqueles que, de tão chatos e inconvenientes, não conseguem sustentar um emprego ou amigos por determinado tempo e de quem até a própria família suspira aliviada quando vão embora. Pois no grande armário da Internet, em que todos podem dar a opinião que quiserem sobre o que bem entendem, eles estão à vontade. E podem reunir em torno de si um grupo de macacos de auditório que, por falta de opinião ou cultura, concordam com tudo o que dizem, em uma câmara de eco infinita.

Pois é. O mesmo sistema de web 2.0 que permite uma grande liberdade de expressão também pode servir de palco para as declarações mais descabidas, preconceituosas e radicais. É o mesmo princípio que sustenta o fundamentalismo: fala-se o que vier à mente e manda-se para a fogueira quem ousar discordar.

Não há nada de errado em se discordar do sistema vigente, mas a crítica sem proposta nada mais é que uma panfletagem vazia. Levá-la a sério pode atacar as poucas iniciativas positivas. Se levarmos em consideração o baixo índice de leitura e conhecimento dos profissionais que trabalham com Internet, é surpreendente que haja tantas críticas. Na minha opinião, muitos destes se comportam como líderes sindicais (ou crianças mimadas, o que não é de todo diferente): como não têm competência, não se estabelecem. Como não conseguem criar, se empenham em destruir. Como não estudam, atacam qualquer forma de cultura. Ao propor a queima de livros, Mao e Hitler não eram tão diferentes assim.

Nesses tempos de comunicação colaborativa, as oportunidades de aprendizado estão por toda parte, em diversos formatos. Você é designer? Pois se preocupe em aprender um pouco mais sobre História da Arte, História do Design, Tipografia, Fotografia, Teoria das Cores… conheça os trabalhos dos melhores profissionais do mundo, não só na sua área (aliás, para ampliar seus horizontes, evite a sua área). Se você é programador, aprenda um pouco mais sobre Planejamento de Processos, Ciência da Informação, Teorias de Linguagem, Epistemologia e Aprendizado. É isso, e não uma nova manha de Flash ou um script diferente que fará de você um profissional respeitado. É sempre bom lembrar que técnica é só técnica e que, por melhor que seja, você sempre poderá ser ultrapassado por alguém com uma coleção melhor de bookmarks.

Isso ficou bem claro quando fui para Londres terminar meu doutorado. Apesar de ter na bagagem alguns cursos e uma boa coleção de livros técnicos, descobri que não tinha feito mais do que a minha obrigação, e que, para seguir adiante, teria de estudar muito, muito mais – a respeito de assuntos que, aparentemente, não tinham nada a ver com a minha área de atuação. Um pouco mais tarde ficou evidente que eram exatamente aqueles temas estranhos, desconexos e aparentemente arcaicos (Filosofia e Pós-Modernismo, por exemplo) que fizeram toda a diferença para “amarrar” os conceitos técnicos. Curiosamente, são os únicos que ainda são válidos.

Minha avó sempre me disse que aquele que tem telhado de vidro não deve jogar pedra no dos outros. Por isso, se você chama flyer de “flayer” e portfólio de “portifólio” (e ele se resume a um fotolog em Flash); se sua cultura gráfica é composta apenas dos websites que visita; se acha que design é arte (mas não estuda arte, pois acredita que tem um “dom” divino); se acredita que criatividade é incompatível com as ciências exatas; se desdenha de profissionais ou publicações nacionais (mas não faz melhor, pois é incapaz); se acredita que “nada se cria, tudo se copia” (e aplica essa máxima para as peças que desenvolve); se sua participação online mais relevante é mandar mensagens para listas criando regras e falando mal dos outros; se seu principal site é um blog que comenta assuntos sobre os quais você não tem domínio algum senão o palpite; se cria comunidades de ódio no Orkut; se as peças que você desenvolve têm cara de portal; se você está mais preocupado em CSS e XHTML, PHP, MySQL que em design ou que nas necessidades de seu usuário; se seu programa de ilustração é o CorelDraw; se você não sabe se quer ser músico ou trabalhar; se é definido como um “flasheiro” (ou jóquei de qualquer tecnologia); se é auto-intitulado “designer autodidata”; se que quer se profissionalizar sem fazer uma faculdade – ambiente em que você, no mínimo, será contrariado em suas mimadas “certezas”, processo que é a base da educação; se corre para comentar qualquer bobagem que lê, sem profundidade, em sites estrangeiros; se tem, enfim, a opinião formada sobre tudo – e acha tudo um lixo, uma sugestão:

“— Vá estudar, menino!”

Só assim você poderá se transformar naquela metamorfose ambulante tão importante nas equipes de criação de produtos digitais.

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