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Um sapinho maluco…

…uma banda inglesa, um ringtone, um imitador de mobilete e que eles podem ensinar sobre o processo de inovação.

Setembro de 2005 – Revista Webdesign nº 21

Fala-se muito em inovação por aí – como é importante estar atento às novas tendências, como o mundo novo multifacetado e megaconectado pode criar muitas oportunidades e assim por diante, só que a maior parte dos exemplos diz respeito a grandes empresas e processos milionários. Pois a história que conto neste artigo mostra como algumas habilidades aparentemente inúteis, desenvolvidas sem intenção marqueteira de se “atingir o target”, podem dar certo em um mundo cada dia menor e mais esquisito.

O ambiente da história envolve uma nova forma de entretenimento. Nada de videoclipes ou videogames – que já são coisa velha – o negócio aqui é ringtone, aquele toque personalizado de telefone celular, uma indústria bastante desenvolvida em países europeus. Se para você ter um toque diferente pode parecer uma mania estranha, devo lembrá-lo que SMS, MSN ou até mesmo a web já foram consideradas coisas de nerd.

O ambiente é diferente, os personagens são, inusitados. Comecemos pela banda inglesa: depois de um trabalho dedicado de pesquisa que levou alguns anos sem gravar, o grupo Coldplay finalizou um álbum para deleite de seus fãs no mundo inteiro, que o aguardavam ansiosamente. Lançado o single, a música subiu vertiginosamente as paradas na Grã-Bretanha e estacionou no segundo lugar. As coisas prometiam. Na semana seguinte, ao acompanhar a lista, viram que a música que ocupava o topo da parada havia caído para terceiro. “É a nossa vez”, deve ter pensado muito fã da banda. Só para perceber que eles continuavam em segundo. Tinham sido atropelados por uma música desconhecida, que nunca esteve nas paradas e atingiu direto o primeiro lugar.

A música vinha de uma banda alemã de quem ninguém tinha ouvido falar e, para piorar, era evidente que tinha sido feita em minutos por alguém com um sampler e uma música dance dos anos 80. Ela era a trilha sonora de um comercial de um ringtone, em que um sapinho que imita o motor de uma moto é perseguido por ser “a coisa mais irritante do mundo”. Gosto não se discute.

Mais interessante que o efeito do sapinho é a sua história, que começa lá pelos idos de 1997. Nesse ano, um sueco de 17 anos chamado Daniel Malmedahl divertia seus amigos com a imitação do som de um motor de dois tempos, feita de um jeito que parecia um sapo. Alguém tratou de gravar a performance e colocá-la em um website. A página se tornou popular e lá foi o Daniel para a TV e seu sapo correu a internet, mas ninguém, naquela época, ganhou nada com isso – os anos loucos da bolha das pontocoms não eram assim tão loucos. De site em site, chegou a hora em que ninguém mais sabia quem era o autor e a gravação era creditada como anônima. Sua presença mais famosa foi um tal “teste de insanidade”: uma página que desafiava o visitante a permanecer sério ao ver uma foto de um carro de F1 com essa trilha sonora, tarefa impossível.

Cada vez mais famosa, a trilha foi incorporada a várias animações em flash (sempre creditada como anônima) e distribuída viralmente pela internet. Seis anos depois, outro sueco chamado Erik Wernquist encontrou o som e resolveu criar uma animação 3D chamada “A Coisa Irritante”, em que o sapinho tinha a cabeça a prêmio e fugia de um caçador de recompensas.
Parece familiar? Pois é – é exatamente a mesma animação que, dois anos mais tarde, se tornaria a coisa mais irritante do mundo, pelo menos para pessoas ligadas ao Coldplay.

Mas o ano ainda é 2003 e a animação ainda não rendia nada a não ser visitantes ao site do Erik. Um deles foi o Daniel – que, ao perceber que não levava crédito por seu talento, entrou em contato e fez uma demonstração ao vivo, convincente o suficiente para garantir a ele um lugar nos créditos. Até aí, nada de dinheiro. Mas isso não parecia incomodar a dupla, que se divertia com a notoriedade instantânea.

No ano seguinte, a empresa Jamba! entrou em contato, licenciou a animação e o som para a distribuição como ringtone. Com uma campanha publicitária abrangente – em que o som original foi mixado com a música-tema de “Um Tira da Pesada”, o sapo engraçado se tornou o som para celular mais famoso do reino Unido (entre os disponíveis comercialmente). Acredita-se que o faturamento da empresa tenha sido algo em torno de 20 milhões de dólares. Felicíssima, a dupla prepara novas atividades, além de licenciar camisetas, vender CDs etc.

Em outras palavras, ao contrário do muito que se prega em propaganda e marketing, algumas atividades ingênuas, desapegadas e sem nenhuma intenção além de se divertir e divertir o próximo podem ser muito mais lucrativas e duradouras que os mais elaborados planejamentos de mercado. Muitas vezes, o consumo é uma relação regida pela emoção. E não há lei científica capaz de prevê-la.

Eu bem o sei – quando tinha vinte e poucos anos, morava em uma república com alguns amigos. Enquanto eu fazia de tudo para meu estúdio vingar, outros estavam empenhados em arranjar um emprego e todos se preocupavam com o Marquinho, que ficava na frente da TV imitando comentaristas de futebol. Antes que nos déssemos conta, ele virou o Marco Bianchi da MTV e até hoje ganha um bom dinheiro fazendo o que sempre gostou.

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