dezembro de 2008 – Revista Webdesign nº 60
Quando você começa a fazer um website – ou um blog, mashup, sistema, serviço, campanha, qualquer nome que se dê para essas coisinhas digitais que fazemos – como você começa? Por onde começa? Pela tela principal, a tal “home page”? Pela navegação? Pelo CSS? O que você leva em conta na hora de arregaçar as mangas, ligar o som, pegar um pacote de bolachinhas, uma coca-cola, vestir a luva anti-tendinite e começar? Nunca pensou nisso? Pois deveria.
Por falta de um pensar adequado, a maioria dos sites começa como a maioria dos sites é: desenha-se o wireframe de uma tela principal, imagina-se uma estrutura básica, colocam-se botões que ninguém vai clicar em uma barra que fica no lado esquerdo ou na parte superior da tela e inventa-se um grafismo qualquer – tomando o cuidado de, no interior, reproduzir o mesmo grafismo ou pequenas variações, não se esquecendo da mesma inútil barra de navegação. O resto vai se resolvendo à medida que o produto é desenvolvido… voilá! Aí está você, bonitão no computador ou no celular dos outros.
E é exatamente aonde eu quero chegar: na máquina dos outros. Dos outros. Outros, entendeu? O suporte não é seu, seu serviço se apropria de máquinas alheias. Mas por que tanta obsessão com o outro? Ora, por um mínimo de educação: estamos entrando na casa dele, ocupando seu tempo, seu equipamento, sua atenção. Não é ele quem visita nosso site. Nós é que somos os visitantes. Como tais, precisamos ter um mínimo de boa educação e escutá-lo, ajudá-lo, atendê-lo. Isso não significa que você deva bajular o usuário ou entupi-lo de belas metáforas, games ou brindes, mas que precisa, cada vez mais, de respeito.
É triste pensar, mas a maior parte dos sites é egoísta e oportunista. Mesmo que não seja essa a intenção, eles são feitos de fora para dentro, seguindo uma fórmula e reciclando formatos eternamente, pouco importa o conteúdo. A maioria dos serviços online que vemos, sejam travestidos de “web 2.0” ou não, sofre desse mesmo vício. Qualquer que seja seu conteúdo, um site de receitas, uma confecção, um cartão de crédito, algum órgão do poder público e um blog têm mais semelhanças que a diferença de seus conteúdos sugeriria. Isso quando não têm exatamente a mesma cara.
O problema é antigo e não é só da web: na correria dos trabalhos, boas idéias são cada vez mais raras. Em um mundo de abundância de conteúdo e referências, o que falta é critério. E quem deve estabelecê-lo é seu usuário, não você. Mas tudo isso dá muito trabalho. Como ninguém tem tempo ou paciência – e como o atoleiro da mediocridade é um caminho muito mais fácil que a ladeira da militância; como a mediocridade é confortável e deixa os clientes tão felizes – muitas vezes fica mais fácil abrir mão.
É uma prática comum na indústria criativa sugerir um caminho alternativo, o de tentar partir para a descoberta: aventurar-se em trilhas desconhecidas, mares nunca dantes navegados, com o prazer de um explorador ou de um praticante de mountain bike. Mais do que se adequar às necessidades do seu público, o designer deve compreender o sujeito que está gastando um tempo para ver o site: ver o que ele quer, o que o move, comove, emociona. A base de uma boa idéia costuma estar sempre por aí.
Você não precisa concordar com seu público, mas compreender o que o move. Deve assumir os conceitos e preconceitos de seu público, compreendê-lo em suas besteiras e grandiosidades, tentando ver o que o produto para que você faz o design tem de maravilhoso para quem o consome. Meio brega, meio auto-ajuda? É porque você não se envolveu o suficiente. Conforme o clima, eu acho o mesmo Frank Sinatra cafona ou estupendo. Star Wars, então…
No fundo, toda essa história parece besta e simples, mas não é. É sutil e muito complicada: a compreensão é a base da comunicação. É o que faz com que umas palavras que rimam sejam chamadas de poema ou música, ou o que um mato colorido seja chamado de flor.
Pra concluir, um pouco de Fernando Pessoa, que não poderia sintetizar melhor: “Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra cousa ainda. Essa cousa é que é linda. Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!”
ótimo! fazer o design voltado para o publico-alvo!
parece um conceito tão óbvio e primário mas é sempre esquecido.
Isso porque em tempos de web 2.0 as pessoas e suas opiniões estão a um clique de distância..
eu faço das palavras do amigo Bruno as minhas!
Identificar qual a melhor abordagem ao público alvo é tarefa que pode se tornar muito complicada (ainda mais para quem, como eu, muitas vezes trabalha sozinho). Ao superarmos este desafio, são evitados muitos erros e perdas de tempo.
Ótimo post!
gostei do texto, luli
acho que nao existe erro pior para quem trabalha com comunicacao do que subestimar o receptor.
[]‘s