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Outubro de 2007

O que é webdesign (hoje)?

É extremamente saudável questionar os rumos da sua profissão. Tanto que bons profissionais constantemente se perguntam como vieram parar no ponto em que estão e, mais importante, para onde podem ir a partir dali. Esse processo de auto-avaliação é razoavelmente fácil quando a área em que se trabalha tem histórico e parâmetros e a única coisa que muda nela são seus praticantes. Quando o meio está em transformação constante e rápida, o processo é mais difícil.

Você já era bem crescidinho quando a web ainda posava de novidade. Ter um site era chiquérrimo e o simples fato de “estar na internet” - ou receber um e-mail - era motivo de comemoração. Naquela época, a profissão de design digital tinha um certo glamour e uma aura de mistério. Para o usuário comum, travestido de “internauta” (odeio essa palavra - quase tanto quanto “blogosfera”), o ciberespaço era mágico, e o ato de construir páginas tinha algo de genial.

Hoje, as inovações chamam mais a atenção da comunidade profissional que das pessoas comuns, e não é difícil se entender o porquê. As mudanças têm sido tão intensas que ninguém mais se preocupa em saber como a coisa funciona. Tanto que a adoção de cada novo serviço - dos blogs ao Twitter, do Orkut à pirataria por torrents - é praticamente automática. Mesmo que seja para abandoná-los em poucos meses, mas isso é mudar de assunto.

Depois de muito investimento na catequese e educação do usuário leigo, ele finalmente parece ter se conscientizado da finalidade e função da web. E, ao ser informado do que pode conseguir, é natural que se torne mais decidido e não se contente nem se entusiasme com pouco. O tempo que bastava uma “animaçãozinha” em Flash se foi, levando com ele as malditas “introduções” aos sites, que todos adorávamos pular.

Um usuário mais esperto demanda uma resposta mais inteligente do sistema. Como as máquinas (ainda) não pensam sozinhas, alguém tem que projetar essa interação. No século passado, isso ficava por conta do designer que, bem ou mal, era responsável pela criação de uma atmosfera visual que estimulasse uma resposta em seus visitantes.

Hoje, essa função é dividida com programadores, profissionais de usabilidade e de arquitetura de informação, entre outros. Eles, apesar de não serem diretamente ligados ao design, têm forte influência sobre ele. Ora, uma criança com muitos pais é órfã. Se todos tiverem autoridade igual, ela certamente será mal-educada.

A multidão de técnicos envolvidos na geração de experiência(!) web poderia ser uma boa notícia, se ela tivesse alguma coordenação. Afinal de contas, músicos demandam um maestro. Mas, do jeito que a coisa está, com áreas diferentes disputando o poder de decisão, a especialização acaba virando superlativo de confusão.

Para piorar ainda mais o ambiente, os penetras começaram a entrar na festa. O usuário, sem convite nem conhecimento técnico, resolveu participar da brincadeira e compartilhar suas fotos, vídeos, textos e gostos pessoais em todos os canais disponíveis. Sem suspeitar, a comunidade profissional acolheu os amadores de braços abertos - até porque era politicamente incorretíssimo rejeitá-los - e ignorou solenemente a tsunami que se formava.

Alguns chamaram esse fenômeno de Web 2.0, outros de UGC (de User-Generated Content). O fato é que vários rótulos entraram recentemente na moda - wikinomia, folcsonomia, blogosfera, escolha uma nova tecnologia e a combine com uma palavra qualquer para criar sua própria buzzword (“twitendência”, por exemplo). Para a comunidade de design, acredito que o termo mais adequado seja “catastrofashion”.

Pois no melhor estilo filme-catástrofe, a avalanche de conteúdo arrasa e destrói o que estiver em seu caminho. Não sou contra a participação, mas acho que ela demanda uma estrutura. Se, por um lado, todos querem que as pessoas comuns participem da comunicação, por outro é preciso levar em conta que enquanto não houver regras não pode haver jogo. Mas regras são limitações, e no mundo pós-moderno dos mash-ups, elas são palavras obscenas e proibidas.

No início da web comercial, as limitações do design derivavam da natureza do meio. Tudo era muito novo, por isso as metáforas visuais precisavam ser claras: cursores tinham o formato de dedos, botões se assemelhavam a teclas. Com o tempo o usuário aprendeu a usar a interface gráfica e permitiu a era de ouro do webdesign, em que os desafios eram puramente técnicos. Por mais que um termo novo confundisse um pouco, alguns conceitos eram intocáveis. Uniformidade, harmonia de cores e tipografia, padrões de qualidade e tamanho de imagens, por exemplo, eram inquestionáveis.

Hoje, a situação é bem diferente. Para piorar, a dita “integração das mídias” obriga o profissional de comunicação visual a tomar uma decisão bem difícil: escolher entre refinamento gráfico e compatibilidade - ao optar por um abre-se mão do outro. Se isso não bastasse para tornar a vida mais ingrata, a concorrência com os templates de CSS disponíveis gratuitamente como temas para blogs ou sistemas de código aberto só piora as perspectivas.

Paulinho da Viola já dizia que “o velho marinheiro toca o barco devagar em dia de nevoeiro”. Acredito que esse seja um conselho bastante útil para a comunidade de design digital. É preciso parar para observar e pensar, ver no que, em sua essência, a internet se trata. O meio ainda está em mutação e não dá sinais de parar, a ponto que vale se perguntar se terá algum dia uma referência visual.

Mas isso não quer dizer que o futuro será caótico, muito pelo contrário. Está surgindo uma nova área que pode colocar um pouco de ordem na casa: o design de interação. Ele reúne projetistas da forma (designers gráficos e de produto) e conteúdo (redatores, fotógrafos, animadores, músicos e arquitetos de informação) para estruturar o comportamento do usuário perante certos estímulos. Em outras palavras, ela coordena os profissionais das outras áreas em busca de um conjunto de ações que levem a uma mesma resposta.

A internet está cada dia mais especializada e não há mais espaço para o homem-banda. Se isso diminui a abrangência da sua área, pelo menos permite que cada um se concentre no que sabe fazer melhor.

E isso é uma excelente notícia.

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