Setembro de 2008 – Revista Webdesign nº 57
Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.
Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?
Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?
A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.
Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.
Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, e mesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?
Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.
A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.
Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.
A vida não é fácil. Quem diz que é mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui a uns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.
Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.
É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.
Belo texto.
Oferece um pouco de tranquilidade num mar de idéias e padrões de vida fast-food de hoje. Antídoto do imediatismo, da efemeridade. Concordo plenamente.
A correria com que as coisas acontecem acabam contagiando todos nós, inclusive em nossas realizações profissionais. Após ler seu texto, parei e pensei a respeito… E você tem toda razão… Aqui, com meus 24 anos, vez e outra já me sinto atrasado, mesmo com a frenética rotina do dia-a-dia.
Nossa carreira será longa, então, devemos construir este inicio com calma e inteligência.
Nossa, não poderia discodar mais de você.
Como vc termina esse post – bem escrito – com a frase “ninguem está de olho em vc”??
Jovens hoje entendem de ferramentas indispensáveis que os de 40 desconhecem… eu tenho 25 e tenho que explicar para os meus pais de 50 o que é um link. O_o (e não pense que meus pais são pessoas arcaicas, pq eles não são)
Se o computador (de mesa, mobile, portable, que seja) é o presente e o futuro… temos que concordar que a grande maioria dos mais velhos (com exceçao dos geeks) foram atropelados e nao anotaram a placa do caminhão.
A comunicação hoje deixou de se basear nas teorias dos grandes autores e foi para a prática, atravéz de ferramentas que ninguem botava fé, e que foram desenvolvidas por jovens talentos.
Eu foco em comunicação pq está mais do que provado que esse é o caminho para “a vida longa” das empresas.
O jovem hoje tem que correr siiiim… se quiser curtir sua vida adulta com conforto e tranquilidade, pq trabalhar… ele vai trabalhar sempre, rico ou pobre.
Lembra daquela frase: o jovem tem disposição mas nao tem grana, e o velho tem grana mas nao tem disposição.
Nao digo que quando eu tiver 40 ou 50 vou estar cansaada, mas com certeza até meus 30 (ou seja, tenho 5 anos) eu tenho muito mais disposição de passar “perrengues” do que mais tarde.
Acredito que a experiencia tenha dado espaço para a espontaneidade hoje (aquele livro Blink, do Gladwell reforça esse ponto de vista)
… Minha humilde e inexperiente opinião
Oi Luli, tudo bem? gosto bastante do seu trabalho, trabalho e estudo design, gostaria de compartilhar com você experiências, fiz uma revista online para dicutir design e diversos assuntos, gostaria de colocar alguma matéria sua no meu blog, abraços.
Yuri Venancio Tamasauskas
Diretor da Revista Virtus
Luli, você não poderia estar mais correto. A pressa só atrapalha o processo.
Já o comentário da mabrugnolo mostra que a maioria dos jovens com pressa também tem a tendência de deixar a voz da experiência entrar por um ouvido e sair pelo outro.
O que ela pode ter interpretado de forma errada é a idéia de que não ter pressa significa ficar parado. É bem diferente.
E não consigo entender o que tem a ver o fato de que “Jovens hoje entendem de ferramentas indispensáveis que os de 40 desconhecem”. Jovens de 50 anos atrás também entendiam de ferramentas indispensáveis que os de 40 anos na época desconheciam.
Outro mal do jovem de hoje em dia é achar que o que é indispensável para ele deve ser indispensável para o mundo. Não é bem assim… Agora se um executivo de 40 anos desconhece qualquer ferramenta REALMENTE indispensável (não estou falando de Twitters e afins) para o seu trabalho, então algo está errado.
Não discordo do comentário de que a comunicação saiu da teoria dos grandes autores para a prática dos jovens talentosos. Mas isso não muda o fato de que a experiência DEVE ser levada em consideração.
Hoje de manha vi uma entrevista do Peter Saville bem apropriada para este tema do post.
Ele foi perguntado sobre a opinião dele em relação á educação em design.
Ele comentou que ele ve problemas nos estudantes que estudam em grande insituições de ensino de artes como o Saint Martins, em Londres.
Segundo ele, estes estudantes criam a ideia que , por serem admitidos em uma escola de grande renome, se julgam gênios e que já chegaram lá. Esquecem que só estão ocomeçando uma longa jornada.
Aqui no Brasil, eu vejo este tipo de pensamento nos estagiários das grandes agências..
Como se tirasse um peso das minhas costas… Como!
Show de artigo Luli!!
Luli, isso era tudo o que eu precisava ler nesse exato momento. Obrigado.
Opa Luli,
Que baita artigo! Muito bom, realmente a pressa não leva a nada (eu que o diga!). Sempre tive esse problema de querer fazer tudo logo, contudo de uns tempos para cá percebi esse ponto e procurei me dedicar a melhorar cada dia, para todo o resto vir com o tempo.
Abraços.
Artigo fantástico.
Evidentemente auto-referencial, o que o torna ainda mais bacana e exemplar, posto que aquele Luli de 20 e qualquer coisa não escreveria com tanta propriedade como esse Luli atual de 20 e tantos.
Parabéns, meu velho! Abraços
Muito obrigado a todos. Já fazia muito tempo que vinha pensando nesse artigo, principalmente por perceber que boa parte da correria em que me empenhei quando tinha meus vinte e x foi inútil. Claro que isso fica muito mais evidente quando você percebe que convive com pessoas diferentes de 20 anos de idade há quase vinte anos (ahem, Mabrugnolo, tenho 42 e acredito entender uma coisinha ou outra dessas tecnologias que estão a nos cercar). O Murilo, que também não é mais exatamente um adolescente, percebeu bem que este texto não é o lamento de quem tem seus 40, mas a percepção que bebês levam nove meses para nascer, e que forçá-los a prazos menores não os tornará mais fortes.
Enfim, entendo que muitos pensem como a Mabrugnolo, até porque eu não pensava diferente dela na época em que se ouvia Rick Astley a sério. Para estes, recomendo que releiam o texto e pensem se realmente devem tantas satisfações para o mundo lá fora. Boa parte das pessoas de maior sucesso que conheço hoje o são simplesmente por pararem de dar ouvidos às cobranças que todos fazem, todos os dias, o dia todo. Sucesso é como sexo: excelente, se não for obrigatório. Bem-vindo, mas não compulsório.
Luli, muito bom o artigo.
Perfeito e muito bem apropriado para o momento de correria que vivemos. Atolado em reuniões, projetos e afins, muitas vezes esquecemos de curtir a viagem, ficamos focados somente no destino final.
Namastê
Alexandre Viveiros
Uma vez fui à Espanha pela Iberia, e surpreendi-me com as/os aeromoças/os atendendo a bordo: todos “senhores”, com certeza passados dos 40, alguns até mesmo com cabelos brancos. Chegando em Barcelona, comentei o fato com um amigo brasileiro que mora lá, ao que ele, bem no espírito nacional, replicou que na Iberia não há aeromoças, mas “aerovelhas”, e que a própria Iberia é conhecida como “Ivelha”.
Brincadeiras à parte, mostra bem o preconceito contra os profissionais com mais idade. Para o mercado, se vc tem mais de 40, está fora.
Concordo em gênero e grau com seu post, Luli, mas resta a sociedade fundada no preceito Juventude começar a concordar também…
Complementando meu comentário anterior…
Eu estava me referindo à sociedade brasileira, bem entendido… em outras sociedades, as empresas já demonstram mais abertura e respeito aos profissionais de mais de 40 anos… a exemplo (louvável) da Iberia.
Excelente, pensei que estivesse sozinho nessa correria, criar, criar, criar… chegando a 11 anos de carreira, me vejo substituindo o processo de criação pelo de aparecimento das coisas, um pouco por culpa do mercado e um pouco por minha culpa principalmente. Quanto ao comentário do “mabrugnolo” existem casos e caso, meu pai também um jovem de 50 e poucos anos foi e é em parceria com minha mãe o principal incentivador da tecnologia, utilizam a internet constantemente e se viram bem com gadgets. Lembro do sorriso de canto do meu pai ao me ver “consertando” o videocassete da casa aos 12 anos… e o melhor de tudo é que ainda usamos por muito tempo. Abraços até breve.
Ótimo Texto! Valeu!
Essa semana estava me mudando e analisando uma porção de coisas, devo dizer que seu texto foi demasiadamente tranquilizador. Não definitivo, mas agora apenas uma perna tentará correr enquanto a outra caminha!
Velew Luli!
Excelente. O pior é quando a pessoa quer aprender rápido, resultado 100% e muito $$$$.
Devemos vivenciar cada etapa no seu tempo e pelo simples prazer de viver.
Ufa! acho que hoje vou dormir mais tranquilo.
Outro dia ouvi do meu pai – que como você sabe projetou o Engenhão depois dos 60 – a mesma referência em relação a arquitetura – eu sei que você citou o Niemeyer, mas ele não é regra, assim como o Millôr e o Ziraldo – e gostei da previsão de 1/3 para quem está chegando aos 40. Significa que ainda tenho jeito.
E o Rick Never Gonna Give Never Gonna Give Astley é crasse!
Sino-abraço!
Esse artigo me agrada muito porque fala bem o que estou precisando ouvir: Que eu não estou velho e acabado no alto dos meus 25 anos!
Eu tambêm acho que o trabalho é inevitável.
Ótimo texto. Vou divulga-lo a todos da faculdade.
Divertidíssimo: “ninguém está de olho em vc”!
KKKKKkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkKKKKKKKKKKKKKKK!!
;]
Vc é genial Luli!!!
Thanks For the 10%!!! U change mylife!RIGHT NOW:D
Obrigado meu caro. Esse texto veio dar uma luz aos meus pensamentos. Ainda que, postado originalmente em 2008, acredito que tudo tem seu tempo de “colher” aqui na terra. Ou seja, antes, se eu tivesse visto esse texto, talvez não tivesse nem parado para lê-lo.
Tenho 29 anos e ouço muito, direta e indiretamente que estou velho.
Lembro que qdo criança tinha altas idéias, idéias originais, únicas que mtas vezes faziam sorrir num primeiro momento (talvez de desconsideração do que tinha ouvido) e para alguns momentos depois ouvir um “é…essa idéia é legal” quase sempre acompanhado de um “mas quem vai fazer? Você???”
Quase sempre isso me retraia a não mostrar mto outras idéias novas que tivesse e… com o tempo, acho que esse lado de não mostrar as idéias prevalece. Sinto que era mto mais criativo, expansivo e confiante qdo criança/adolescente. Quero mudar isso!
Copiei este texto para fazer uso dele, pra minha (não tão alta) auto-estima. Valeu!
OBRIGADO!