Caos e design.
O mundo lá fora é uma grande confusão.
Isso não é necessariamente má notícia.
Muitas das novas palavras que surgiram com o ambiente digital não traduzem, necessariamente, novas idéias. O termo multimídia, por exemplo, trouxe tão pouca mudança que mal teve tempo para ficar em evidência. Na época em que surgiu, ele até poderia fazer algum sentido, embora qualquer televisão básica tivesse recursos audiovisuais melhores que muitos dos computadores mais modernos ainda hoje. Com o tempo, as pessoas passaram a se acostumar às máquinas falantes, a ponto do simples fato de transmitir uma mensagem colorida e animada não ter nada de especial e o adjetivo cair em desuso.
Hoje fala-se bastante em comunidade, do mesmo jeito que já se encheu a paciência do público com a interatividade. Novamente ficamos impressionados com a capacidade que um computador em rede tem de conectar as pessoas, mas com o tempo isso se tornará banal. O que não significa inútil, mas transparente e corriqueiro. O ambiente digital é naturalmente colaborativo, portanto forma grupos que trocam idéias entre si. Um website estático tenderá a ser, daqui a algum tempo, uma relíquia feito um filme em preto e branco ou um terminal de cartões perfurados. Como eles, precisará de um bom motivo para não usar técnicas mais novas.
Em breve poucos falarão de comunidade, interatividade ou multimídia, da mesma forma que praticamente ninguém fala hoje em “som em estéreo” ou “TV a cores”. Não há dúvida que a famosa “alta definição” das novas TVs “widescreen” deverá seguir o mesmo caminho.
Algumas palavras, no entanto, são verdadeiramente novas. Mesmo que não tragam idéias novas, não há dúvida que vieram para ficar. E-mail, Website e Viral são algumas delas. Uma mensagem de texto eletrônico é só uma evolução de uma tecnologia milenar. A apresentação de uma empresa precisa seguir determinadas regras, pouco importa o meio de comunicação. Uma coisa divertida é transmitida no boca-a-boca, e isso se faz desde que o mundo é mundo. O novo título costuma mostrar que o processo sofreu uma evolução grande o suficiente para mudar de nome. O telégrafo que transmitia voz virou telefone, o rádio com imagens virou TV. Alguns acreditam que a web comunitária merece ser 2.0, outros acham que ela não fez mais que sua obrigação. Me incluo no segundo grupo.
Existem descobertas, entretanto, que são tão novas, representam mudanças tão radicais, que trazem consigo um nome e uma idéia nova. Wiki, MMORPG e ARG são algumas delas. Imagine tentar explicar o que elas significam sem exemplos. Pense como seria difícil defini-las para alguém que despertou de um coma de 10 anos, mesmo que, em 1998, ele tenha sido o maior dos nerds. Como contar, de uma forma que ele acreditasse, que ele está na moda hoje?
Blog é outro bom exemplo de uma palavra totalmente nova que define uma idéia inédita. Diários existem desde sempre, mas blogs não são simples diários. Mesmo os que o forem, podem facilmente abrigar textos coletivos, de tamanhos variados, com referências interconectadas? Cujas páginas podem ser comentadas, lidas em um Blackberry ou em um Wii e assinadas via RSS? Pois.
De todos os conceitos, novos ou recauchutados, que surgiram no mundinho digital, um dos que eu mais gosto é ainda bem pouco usado: caos. A palavra surgiu com os gregos, como sinônimo de bagunça. Se levarmos em conta que os conterrâneos do Aristóteles achavam qualquer música com mais de um instrumento tão barulhenta e ridícula quanto um discurso com duas ou mais pessoas a falar ao mesmo tempo, vale a pena reconsiderar o termo. Até porque o ritmo das mudanças transformou guerrilha em elogio.
Na minha opinião, caos é lindo. Em um mundo cheio de regras e métricas, ele representa um sopro de liberdade. O que é caótico é imprevisível, inesperado, não-linear e foge a todas as regras que teimam em usar para determinar o cotidiano. Em um mundo cada vez mais plástico e artificial, ele é orgânico. Não precisaria muito mais do que isso para ser atraente.
Ao desafiar as estruturas, o caos propõe um novo tipo de ordem que desafia a Gestalt: o todo, aqui, não pode ser explicado pela soma das partes, nem mesmo se pode prever sua interação. Ele não é aleatório nem bagunçado, só segue padrões que, como em um filme do David Lynch, no comportamento da moda ou no dos mercados financeiros, não podem ser determinados facilmente. Não sem uma bela dose de talento.
O caos está em toda a parte. Ele faz parte da natureza global de tudo que vivenciamos e observamos. Como o tempo ou a Economia mundial no ano que vem, não pode ser previsto. Mas pode ser administrado. Para isso é preciso, mais do que nunca, observar. Antes de usar qualquer referência ou ditar meia dúzia de regras que você ouviu falar mas nunca parou para pensar se faziam sentido, é preciso lembrar da velha máxima circular que dizia que cada caso é um caso. A partir daí, considerar todas as variáveis possíveis e colocá-las no liquidificador.
Quando bem administrado, o caos parece mágica. Mas é ciência. Quer coisa mais mágica?
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