Limitações e possibilidades
O criativo é o defensor da idéia. Se um dia abrir mão da luta, sua função perde o sentido
Praticamente qualquer pessoa que trabalhe com comunicação já deparou com o estereótipo do “criativo”. Aquele sujeito com uma personalidade marcante, temperamento instável e reações que muitas vezes parecem infantis. Costumam ser tipos bem característicos, que falam alto demais, reclamam demais, acreditam que suas idéias são boas demais e, principalmente, praguejam demais contra o resto do mundo que “não os compreende”. Se você nunca viu um desses, imagine uma mistura da editora do filme “O Diabo Veste Prada” com a estilista da animação “Os Incríveis”. Tem gente bem menos tímida que elas.
Há quem os chame de egocêntricos, há quem diga que sejam insensíveis para o outro (ao mesmo tempo que sensíveis demais para seus próprios problemas), ou que acreditem ser o centro do mundo. Sob esse aspecto, eles não seriam muito diferentes de uma criança mimada, estragada, que só faz o que quer – e que se revolta se é contrariada. Para muita gente, esse tipo de personalidade é um claro sinal que seu portador é um “gênio”, e que, portanto, jamais deve ser contrariado.
Ou, pelo menos, é isso que o Psiquiatra deles diz.
Sempre desconfiei de absolutos, imperativos ou rótulos, mas mesmo que esse tipo de comportamento configurasse uma forte tendência entre os profissionais que vivem de ter idéias, existem duas falhas de lógica nessa atitude que chamam a atenção. A primeira delas é que a relação com o outro não melhora com o tempo, muito pelo contrário. Se crianças mimadas acabam por aprender a interagir com o mundo e ficam cada vez menos estragadas à medida que crescem, por que esses profissionais só pioram ao envelhecer? Outra coisa que me chama a atenção é que o temperamento “difícil” não é uma característica obrigatória a todos os criativos. Ao contrário, ele é mais comum entre aqueles que são os menos brilhantes, como se fosse uma “máscara” para disfarçar a falta de habilidade.
Como é impossível medir talento, e como há profissionais brilhantes que são seres humanos desprezíveis, acredito que uma atitude dessas se deva mais a um erro de metodologia que a um desvio de personalidade. Gente que trabalha com publicidade, gastronomia, moda e outras áreas criativas gosta de testar possibilidades e morre de medo ou raiva de qualquer elemento que lhes limite os horizontes. Comportam-se, assim, como crianças que só querem jantar batatas fritas ou, pior, como animais de estimação mal-acostumados.
Independente de questões de temperamento, esta não me parece uma metodologia muito eficiente. Se para cada serviço, ou pelo menos para os mais importantes, o indivíduo tiver que pensar em um infinito de possibilidades e brigar por suas idéias, o resultado que me parece óbvio é que ele tenderá a ficar esgotado (de tanto criar opções), frustrado (de tanto ouvir negativas) e antipatizado (de tanto debater). Não é à toa que vejo muitos designers, depois de um punhado de anos de profissão, se isolarem do mundo, reclamarem dos outros ou repetirem fórmulas. Eles se cansaram, ninguém é de ferro.
Antes que você me entenda mal, adianto que não defendo, em hipótese alguma, a padronização de atitudes e comportamentos. O criativo é o defensor da idéia. Se um dia abrir mão da luta, sua função perde o sentido. Mas há outras formas de se proteger sua invenção.
A primeira delas é ver se a solução pensada é mesmo boa e se faz algum sentido. Elas não são sagradas, e sua função é tê-las aos montes. Só quem nunca participou de um ensaio, brainstorm ou conversa de boteco pode acreditar no mito vazio e perigoso que as idéias nascem prontas. Pelo contrário, seu parto é sujo e difícil, e o resultado, muitas vezes, frustrante.
A partir daí, deve-se descobrir quais são as limitações que o cliente e seu público enfrentam: falta de verba, de conhecimento, de referências… Só se admira o que se conhece e é preciso um mínimo de familiaridade para que se possa apreciar uma novidade. Antes de reagir com preconceito, pense em café, vinho, uísque, chá: pode até ser que gosto não se discuta, mas certamente se desenvolve.
As limitações não restringem a criatividade, a norteiam. Como um suporte de planta, evitam que se desperdice energia na reinvenção de rodas ou em murros em ponta de faca.
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Trabalhei nas grandes agencias. Visualizei os dois tipos de criativos que mencionou, apesar de nao gostar da dicotomia. Mas discordo profundamente de quem no final das contas se dá bem. Eu só vi os escrotos se dando bem. O bonzinho so se fode, como diz o ditado. Se fode tambem nao ne.. Ta la ganhando 30-40 pau por mes, nao tem paciencia pra brigar pelas suas ideias maravilhosas quando lembra que é assalariado, pois aprovando ou nao, no final, o salario é o mesmo. Infeliz, acaba por dar vazao a sua criacao nas artes puras e simples. Mas o dono da agencia é o escroto que tu pintou.
Baseado em fatos reais.
Acho q este tipo de situação não se restringe às agências. Em qualquer empresa é fácil enxergar perfis como os descritos.
Porém dois detalhes colaboram para agravar o problema dos publicitários: a resistência em medir resultados (falha grave das agências, já que propaganda não é arte, é ferramenta de vendas), e o próprio rótulo “criativo” (td q o “criativo” deve fazer é resolver problemas, como qualquer funcionário de outra empresa).
Parece q nós, publicitários, nos deixamos levar por aquele mito da criatividade, como se fosse um dom mágico recebido diretos dos deuses, que nos fizesse especiais, quando na verdade criatividade é apenas método + cara-de-pau.
Ah, sobre o comentário acima, (sem ataques e sem magoas, ok?) o “bonzinho” tem q se fuder mesmo. O profissional bocó, sem colhões para defender seu ponto de vista é pior que o profissional arrogante.
O esquema é conseguir um equilíbrio entre defender o que se pensa, e abrir mão da própria solução quando outra melhor se apresenta. Não q seja fácil, mas é necessário.
Equilíbrio sempre! só pra ressaltar no comentário anterior, acredito tbm que o “criativo” nada mais é que um “resolvedor de problemas” e isso tem em qualquer segmento e serviço, desenvolvedores, publiciários, vendedores, todos têm , obrigatoriamente, que ter um “quê” de criativos e aprender(como uma criança mimada mesmo…) a hora de lutar pelas idéias e a hora de abandoná-las, essa linha tênue é tão difícil de se acertar, mas possível em algumas vezes, ser arrogante denota, pra mim, uma profunda marca de insegurança, não que o profissional não tenha talento, muitas vezes é o próprio que se ‘bloqueia’ e pensa que não o têm, não penso em criatividade como um ‘dom’ e sim como um exercício, vai tentando, errando, acertando e um dia vc está bom, como diria meu professor de música “Você tenta até os 85 anos(de idade), se não conseguir, tenta mais 5 anos…”
Entao Lucas, por isso disse que nao gosto da dicotomia, do bonzinho e do mauzão. Estereótipos servem pra gente tentar não se encaixar em nenhum deles. O Mauzão, as vezes é escroto e as vezes é agressivo - de uma forma boa pra sua própria carreira. O Bonzinho as vezes é apático, mas geralmente tem muito mais pra mostrar. Qualquer um que se encaixar em qualquer estereótipo tem mais é que se F****!
Mas junte a porção boa de cada um, não só destes dois, mas de outros estereótipos facilmente identificaveis na sua agencia, e monte um frankstein utopico do ser perfeito. Tome as virtudes de cada um a seu favor, sem ser escroto com ninguem, sem acotovelar na cara o dupla pra chegar na frente, por exemplo.
Nao tem o bonzinho e o mauzao, há momentos em que voce tem que ser como eles, usando os defeitos ou virtudes - que tambem nao existe essa dicotomia, tudo depende do momento. Tem horas que ser agressivo é bom, outras nao. O estereotipo é sempre ele. Voce nao tem que se ofender com a generalizacao do estereotipo, tem que entender ele e tentar nao se encaixar.
Afinal, publicitario é tudo viado ne?
http://en.wikipedia.org/wiki/Dunning-Kruger_effect
Meu irmão costuma dizer que entre a moreninha discreta, inteligente e charmosa e a loira atirada e aparecida, os caras costumam ficar com a segunda.
Estou lendo o seguinte artigo que tem muito a ver com o que voce está falando, é sobre características emocionais e criatividade, fala de tipos de criatividade e tipos de personalidade relacionados, tipos de personalidade patológicos e criatividade e (bem, to na metade do artigo).
Maslow, A H (1958) Emotional Blocks to Creativity. Journal of Individual Psychology, 1958, 14, 51-56.
Nao sei se vc consegue acessar da USP, mas to lendo em um livro chamado “source book for creative problem solving”
Xong Lee, perfeito, o esquema é equilíbrio mesmo. As vezes o melhor é colocar o nariz de palhaço, outras vc tem q por o pau na mesa.
E sobre o final, concordo plenamente, com apenas algumas exceções, q só confirmam a regra, hehehe…