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Fevereiro de 2008

Criatividade não é exceção:
é regra.

O Artista, o Engenheiro, o Investidor e o Líder Comunitário têm algo em comum: todos são criativos.

Há uma certa ingenuidade – e imaturidade – entre os profissionais ligados às áreas criativas no que diz respeito à natureza de sua moeda de trabalho. Muitos acreditam que a Criatividade (assim mesmo, com “c” maiúsculo) seja um dom divino, tatuado no DNA. Como altura, obesidade ou cor dos olhos, há quem creia que ela seja uma característica exclusiva daqueles tipos explosivos, desfocados, de personalidade assertiva e multifacetada que conhecemos bem.

A imagem popular do “criativo” é, muitas vezes, preconceituosa e incompleta. A capacidade de se criar coisas novas e melhores é uma das principais características da inteligência humana, que pode ser vista todos os dias, em qualquer lugar. Em uma simples conversa, a escolha das palavras e conceitos para se formar uma frase e expressar uma idéia é extremamente criativa, mesmo que seja para se comentar o último sucesso da Ivete Sangalo, o último programa do Luciano Huck ou a última edição de “Mulheres Quenianas não engordam quando correm a São Silvestre”.

Apesar de não ser biólogo nem sociólogo, acredito que a capacidade de renovação e reciclagem de idéias seja uma característica da evolução, presente em qualquer homo sapiens. Se ela é evidente naqueles indivíduos inteligentes, otimistas, entusiasmados, rápidos, expressivos, apaixonados, generalistas, visionários sonhadores que pensam em grandes revoluções – e que, no caminho da execução de suas idéias são descuidados, inseguros, superficiais, desconectados da realidade, descomprometidos, empolgados e arrogantes – talvez seja porque sua personalidade seja mais difícil de ignorar. Mesmo que a biografia de muitos mostre um final pouco inspirador. Gutemberg, por exemplo, morreu pobre.

Muitas das principais inovações passam bem longe da invenção de algo novo. Um dos melhores exemplos está na Apple. Do ponto de vista da invenção de novos produtos, ela é muito menos criativa que a Sony, a Nokia ou mesmo a Motorola. Ela não inventou o microcomputador, o tocador de MP3 nem o telefone. Sua contribuição está na melhoria de coisas que já existem. Várias empresas creditam seu sucesso a mudanças na forma de se encarar um processo, um pensar criativo muito comum entre engenheiros e administradores. Pessoas pragmáticas, organizadas, metódicas, detalhadas, precisas, certinhas, objetivas, persistentes e disciplinadas. Apesar de serem muitas vezes burocráticas, rígidas, teimosas e pouco inspiradoras, não se pode negar seu valor.

Outro profissional que o “artista” normalmente detesta é aquele tipo agressivo, impaciente, competitivo, workaholic, estressado e furioso. O capitalista selvagem, jogador egoísta que parece só pensar em dinheiro, e que no entanto arrisca tudo o que tem e que nunca se cansa de buscar altos riscos, nunca se satisfazendo com os grandes ganhos – nem aprendendo com perdas catastróficas. Esse tipo é rápido e quer chegar primeiro. Sua busca por performance chega a ser doentia. E, ironicamente, é parecidíssimo com aquele criativo desfocado por quem nutre um desprezo mútuo.

Jogado no meio dessas pessoas de personalidade tão forte existe um tipo admirável, que, apesar de parecer quietinho e até tímido, é lembrado por todos. Aquele sujeito amigável, sensível, dedicado, confiável, o grande ouvinte que sempre vê um potencial nas pessoas e encoraja sua participação. Ele é muito mais importante do que parece. Ele é quem cria comunidades sustentáveis, baseadas em colaboração, palavras inovadoras tão na moda em tempos de Web 2.0. Pois são justamente eles, com seu perfil sossegado, que tornam os grandes cenários uma realidade. Sua capacidade de aglutinar as diferentes personalidades faz com que sejam a argamassa das torres de grandes idéias. Justamente eles, tão avessos ao palco e aos aplausos é que deveriam ser os diretores de criação.

Pois é, a criatividade  é um processo mais complexo e multifacetado do que aqueles que se classificam como “geniais” gostariam de admitir. Se você viu características suas nos quatro perfis mas não conseguiu se identificar com nenhum deles – pelo menos não o tempo todo – provavelmente é porque tem um pouco de cada. E, portanto, é o mais evoluído dos cinco. Por mais que você tente acreditar que não seja criativo, provavelmente é exatamente o contrário.

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