Acredite:
é bom jogar videogames.
Atormentam você por gostar de videogames?
Pois azar deles.
Então você gosta de jogar. Mas não aquele jogo físico, suarento e cansativo que as pessoas chamam de “esporte”. Nem aquele tipo previsível, de tabuleiro ou cartas, com pretensões intelectuais ou financeiras. Nada disso. O jogo que você gosta é digital, de preferência on-line, se possível multiplayer. A sua disputa é de imersão. Ela tira o sono, a fome, a vontade de sair. É tão envolvente que prende toda a sua atenção e faz com que o tempo voe lá fora. Você passa dias e noites jogando, uma verdadeira mania. Um fim de semana a jogar é, para você, um programão.
Não é preciso nem dizer que essa sua predileção não é compartilhada por muitos. A maioria, aliás, acha esse hábito esquisito. Seja lá por que motivos, as pessoas adoram compará-lo a uma coisa besta como TV. Os mais radicais chegam a classificá-lo como “doentio” e se queixam que você se isola do mundo, que não vê os amigos, nhenhenhenhenhé. Indiferente a essas bobagens, você continua a jogar. Até porque seus amigos também estão conectados. Por que você joga? Porque sim, pronto. Pena que os que compreendem você sejam normalmente companheiros na atividade, falem em termos técnicos e tenham atitudes tão exageradas que a defesa deles não ajuda.
Não é preciso examinar os argumentos de quem não gosta desse tipo de jogo, de tão óbvios e repetitivos que eles são. É divertido, no entanto, compará-los ao que diziam do mundo digital há uns cinco ou dez anos. Naquela época, quem passasse o tempo todo na frente do computador seria chamado de nerd, ouviria bobagens a respeito de sua vida social, de sua visão, seu cérebro. Não tardariam a levantar preocupações quanto a desenvolver um raquitismo ou apatia típicos de presidiário sem atividade física, ou, pior, virar um dependente psíquico. Ser chamado de “usuário”, sob o ponto de vista que as pessoas poderiam ser “viciadas em internet” (seja lá o que isso significasse), era, nesses termos, bastante apropriado.
Acredito que quem combata videogames provavelmente o faça por não ter visto nada muito mais novo que um Pac Man ou um Tetris, certamente nada feito nos últimos dez anos. Nessa caso, sou forçado a concordar com muitos de seus argumentos. Até há pouco tempo eram poucos os jogos verdadeiramente novos. Pouca gente fala, mas da mesma forma que a web 2.0 deu aos sites sua verdadeira razão de ser, os jogos de computador também sofreram uma revolução recente. Pena que, como todas as outras, ela tenha ficado restrita ao nicho.
Prefiro atacar, neste artigo, aqueles que defendem os games. Minha bronca real é com eles. Seja qual forem suas intenções ou o título que ostentem em suas pesquisas, seus argumentos são muito, muito fracos. Ao fazerem uma defesa ruim, a maioria acaba fazendo mais mal do que bem. Um de seus principais argumentos é uma suposta contribuição para a melhoria da coordenação visual e motora. Não é errado, mas é pouco. E, mesmo assim, não há certeza. A única melhoria efetivamente comprovada é que a prática de jogar aumenta a capacidade de jogar.
Defender um benefício fisiológico desses é como defender a dança por ser uma atividade cardiovascular. Ou a leitura dos grandes romances porque eles podem aumentar seu vocabulário. Existem vantagens bem mais claras e úteis. Uma das mais evidentes, apesar de pouco comentada, é que jogos demandam paciência. Em um mundo cada vez mais estressado e conectado, essa virtude ancestral é muitas vezes esquecida. No entanto, por mais que um jogador de Grand Theft Auto pareça nervoso, seu caminho certamente envolveu um grande número de horas em que, pacientemente, aprendeu as regras e a forma de locomoção em seu mundo.
A propósito, não é estranho que a maioria dos games mais pareça tortura que diversão? Um jogador experiente certamente passou muito, muito tempo realizando tarefas monótonas e repetitivas. Sem contar o tempo que, para aprender a fazê-las, ficou frustrado ou desorientado. É impressionante o quanto se passa sem se divertir por ali. Se é assim, por que raios um indivíduo comum, que não tem grandes emoções em seu cotidiano, se empolga a levar uma vida ainda mais besta em um ambiente digital?
É quase inevitável a comparação entre o ato de jogar videogames e o de aprender a utilizar novas tecnologias. Como em Flash ou Photoshop, os manuais só são consultados em último caso. Antes deles, fóruns de discussão e dicas de amigos são bem mais populares. Como na vida real e profissional, as leis implícitas do mundo dos aplicativos digitais são determinadas à medida que se progride na interface. As regras são apenas linhas gerais, cada um é forçado a descobrir o que deve fazer para se dar bem.
Se para você isso parece um desperdício de energia, saiba que há um processo bastante parecido na vida real. Ele se chama metodologia científica. Não que jogador de Halo ou Warcraft (ou Counter Strike ou Ultima) seja equivalente a um pesquisador, longe disso, ele está mais para o freqüentador de um clube de strip-tease. Mas tem, como o cientista, um enorme desejo de ver o que há na próxima etapa. Até a indústria dos games chegar à sua maturidade, não havia forma de entretenimento que fosse capaz de proporcionar um ambiente desses, não há como explorar filmes, música ou TV.
A grande vantagem dos novos jogos, enfim, não está no que se pensa, mas na forma como pensa. Ao jogar, o indivíduo é forçado a tomar decisões o tempo todo. Elas envolvem áreas tão complexas quanto análise de sistemas, teoria de probabilidades e reconhecimento de padrões. O resultado de tudo isso é uma bela musculação mental. Eu não me espantaria se, em pouco tempo, videogames virassem pré-requisitos para um vestibular ou currículo.
E o mais legal disso tudo é que eu não jogo. Ainda.
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Coloco no meu perfil do LinkedIn que jogo Neverwinter Nights desde 1999 ou que sou um Undead Warrior de nível 70º em warcraft???
Eu sempre vi uma semelhança de discurso entre as pessoas que reclamam dos vídeogames e os moralistas que tentavam proibir o rock nos anos 50. Pareciam os mesmos argumentos.
Não sei onde foi que li, mas a frase é pertinente: toda batalha entre gerações é ganha pela geração mais jovem.
Vejo você fazendo essa crítica a muito tempo (como no improviso da Intercon do ano passado) e dou toda a razão. Também li o livro do Johnson e a comparação da dança e dos grandes romances para melhorar a condição cardiovascular e a ortografia se faz verdadeira.
Em meu TCC falei do porquê jogar e do sistemas de recompensas e conversando com meu colega de trabalho (também jogador de World of Warcraft) ele também usou essas razões ao invés dessas capacidades bobas de coordenação por apertar 3 botões de uma vez só. Fica claro pra quem joga WoW por exemplo o gerenciamento de tarefas que ocorrer durante o jogo e é só preciso juntar A e B pra ver que jogos são mais que estímulo visual e questão de coordenação.
Nos vemos na Intercon!
Hey eu usei primeiro esse tema :)
Abs
Ah, a paciência! Quem já jogou algum MMORPG sabe que existe um penoso caminho de treino, as vezes “macro” (quando o computador joga sozinho para o usuário poupar seu tempo e paciência. haha), e muito clique de mouse até chegar nos finalmentes e poder se divertir.
E quanto ao “isolamento social”, argumento de não gamers, o social é muito relativo, e existe muito bem no virtual (desde que não fique preso somente a ele).
Qualquer geek hoje marca um barzinho pelo twitter, isso já acontecia quando eu jogava Ultima Online…
Ótimo post, como sempre. :)
Olá Luli,
Fiz uma monografia sobre o desenvolvimento das inteligências múltiplas (teoria de Gardner) no ambiente hipermídia, e nessa pesquisa acabei encontrando vários artigos e pesquisas sobre a aplicação de atividades lúdicas na educação, foi legal ver o professor Lúcio Abbondat comentando o tema e seus post sobre o assunto agora.
Dois pontos que considero interessantes são: a relação dos games com o desenvolvimento do raciocínio lógico (curioso que a maioria dos programadores que conheço são fãs de games) e sobre o desenvolvimento da inteligência interpessoal em jogos de interpretação de papéis multiplayers (RPG).
Eu defendo o uso de games na educação desde que elaborados e pensados para essa finalidade, nada de Carmageddon obvio!
Abraços!
Gostei de sua análise, um tanto quanto diferente do que vejo, sobre videogames. Nada deturpada, apenas lógica.
Se você não costuma jogar videogame, sugiro que experimente o Nintendo Wii, console que me fez voltar a esse mundo =)
Alex Luna, por mais que eu adoraria ver esse tipo de habilidade expressa em um currículo, acredito que ainda não é adequado colocá-las em seu perfil do LinkedIn. Enquanto a batalha de gerações não é ganha, na cabeça arcaica e retrógrada de administradores formados no século passado isso pode ter um viés macoñêro.
Guilhermes, o comentário de vocês é preciso, não há nada a acrescentar. Renan, se puder mande uma cópia da sua monografia para meu email. Carlos Eduardo, uso o joystick do Wii para jogar Google Earth, versão de simulador de vôo.
É, já existem várias pesquisas mais recentes sobre o assunto q confirmam sua matéria. Mas se comparado com o passado, atualmente os video games são sim mais aceitos, até pq as crianças q jogavam antigamente estão virando os adultos de hoje, a média de idade dos games está crescendo (e pesquisas dizem q a quantidade de mulheres jogando também está).
Eu não sei se tem problema colocar aqui, mas teve um “Roda Viva” na TV Cultura sobre isso, muito bom: http://www.youtube.com/watch?v=QX3MUHe5gZY&eurl (essa é a primeira parte, vai até a sexta..)
Heheheheh, obrigado, Marcus, mas a entrevista com o Steven Johnson eu vi ali, ao vivo, no Roda Viva. Até anotei umas coisas no meu Twitter e essas anotações acabaram virando este post no blog.
Que os vídeo games estimulam o uma ginástica mental, isso, é evidente. O problema é que o usuário fica muito restrito a um só tipo de mundo.