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Dezembro de 2007

Acredite:
é bom jogar videogames.

Atormentam você por gostar de videogames?
Pois azar deles.

Então você gosta de jogar. Mas não aquele jogo físico, suarento e cansativo que as pessoas chamam de “esporte”. Nem aquele tipo previsível, de tabuleiro ou cartas, com pretensões intelectuais ou financeiras. Nada disso. O jogo que você gosta é digital, de preferência on-line, se possível multiplayer. A sua disputa é de imersão. Ela tira o sono, a fome, a vontade de sair. É tão envolvente que prende toda a sua atenção e faz com que o tempo voe lá fora. Você passa dias e noites jogando, uma verdadeira mania. Um fim de semana a jogar é, para você, um programão.

Não é preciso nem dizer que essa sua predileção não é compartilhada por muitos. A maioria, aliás, acha esse hábito esquisito. Seja lá por que motivos, as pessoas adoram compará-lo a uma coisa besta como TV. Os mais radicais chegam a classificá-lo como “doentio” e se queixam que você se isola do mundo, que não vê os amigos, nhenhenhenhenhé. Indiferente a essas bobagens, você continua a jogar. Até porque seus amigos também estão conectados. Por que você joga? Porque sim, pronto. Pena que os que compreendem você sejam normalmente companheiros na atividade, falem em termos técnicos e tenham atitudes tão exageradas que a defesa deles não ajuda.

Não é preciso examinar os argumentos de quem não gosta desse tipo de jogo, de tão óbvios e repetitivos que eles são. É divertido, no entanto, compará-los ao que diziam do mundo digital há uns cinco ou dez anos. Naquela época, quem passasse o tempo todo na frente do computador seria chamado de nerd, ouviria bobagens a respeito de sua vida social, de sua visão, seu cérebro. Não tardariam a levantar preocupações quanto a desenvolver um raquitismo ou apatia típicos de presidiário sem atividade física, ou, pior, virar um dependente psíquico. Ser chamado de “usuário”, sob o ponto de vista que as pessoas poderiam ser “viciadas em internet” (seja lá o que isso significasse), era, nesses termos, bastante apropriado.

Acredito que quem combata videogames provavelmente o faça por não ter visto nada muito mais novo que um Pac Man ou um Tetris, certamente nada feito nos últimos dez anos. Nessa caso, sou forçado a concordar com muitos de seus argumentos. Até há pouco tempo eram poucos os jogos verdadeiramente novos. Pouca gente fala, mas da mesma forma que a web 2.0 deu aos sites sua verdadeira razão de ser, os jogos de computador também sofreram uma revolução recente. Pena que, como todas as outras, ela tenha ficado restrita ao nicho.

Prefiro atacar, neste artigo, aqueles que defendem os games. Minha bronca real é com eles. Seja qual forem suas intenções ou o título que ostentem em suas pesquisas, seus argumentos são muito, muito fracos. Ao fazerem uma defesa ruim, a maioria acaba fazendo mais mal do que bem. Um de seus principais argumentos é uma suposta contribuição para a melhoria da coordenação visual e motora. Não é errado, mas é pouco. E, mesmo assim, não há certeza. A única melhoria efetivamente comprovada é que a prática de jogar aumenta a capacidade de jogar.

Defender um benefício fisiológico desses é como defender a dança por ser uma atividade cardiovascular. Ou a leitura dos grandes romances porque eles podem aumentar seu vocabulário. Existem vantagens bem mais claras e úteis. Uma das mais evidentes, apesar de pouco comentada, é que jogos demandam paciência. Em um mundo cada vez mais estressado e conectado, essa virtude ancestral é muitas vezes esquecida. No entanto, por mais que um jogador de Grand Theft Auto pareça nervoso, seu caminho certamente envolveu um grande número de horas em que, pacientemente, aprendeu as regras e a forma de locomoção em seu mundo.

A propósito, não é estranho que a maioria dos games mais pareça tortura que diversão? Um jogador experiente certamente passou muito, muito tempo realizando tarefas monótonas e repetitivas. Sem contar o tempo que, para aprender a fazê-las, ficou frustrado ou desorientado. É impressionante o quanto se passa sem se divertir por ali. Se é assim, por que raios um indivíduo comum, que não tem grandes emoções em seu cotidiano, se empolga a levar uma vida ainda mais besta em um ambiente digital?

É quase inevitável a comparação entre o ato de jogar videogames e o de aprender a utilizar novas tecnologias. Como em Flash ou Photoshop, os manuais só são consultados em último caso. Antes deles, fóruns de discussão e dicas de amigos são bem mais populares. Como na vida real e profissional, as leis implícitas do mundo dos aplicativos digitais são determinadas à medida que se progride na interface. As regras são apenas linhas gerais, cada um é forçado a descobrir o que deve fazer para se dar bem.

Se para você isso parece um desperdício de energia, saiba que há um processo bastante parecido na vida real. Ele se chama metodologia científica. Não que jogador de Halo ou Warcraft (ou Counter Strike ou Ultima) seja equivalente a um pesquisador, longe disso, ele está mais para o freqüentador de um clube de strip-tease. Mas tem, como o cientista, um enorme desejo de ver o que há na próxima etapa. Até a indústria dos games chegar à sua maturidade, não havia forma de entretenimento que fosse capaz de proporcionar um ambiente desses, não há como explorar filmes, música ou TV.

A grande vantagem dos novos jogos, enfim, não está no que se pensa, mas na forma como pensa. Ao jogar, o indivíduo é forçado a tomar decisões o tempo todo. Elas envolvem áreas tão complexas quanto análise de sistemas, teoria de probabilidades e reconhecimento de padrões. O resultado de tudo isso é uma bela musculação mental. Eu não me espantaria se, em pouco tempo, videogames virassem pré-requisitos para um vestibular ou currículo.

E o mais legal disso tudo é que eu não jogo. Ainda.

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