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A montanha tem
que ir até Maomé

AGOSTO de 2009 – Revista Webdesign nº 68

Nunca fui exatamente religioso ou folclórico. Nessas condições, a expressão “Se Maomé não vai à Montanha, a Montanha vai a Maomé” nunca fez muito sentido para mim. Na verdade sempre achei que tinha entendido errado e que o provérbio era o contrário, mas considerados os poderes de um profeta desse calibre, minha ignorância me fez ignorar o assunto mesmo em tempos de conhecimento wikipédico. Outro dia percebi que, apesar de muitos de seus avanços, a comunicação e diversos serviços digitais ainda se baseiam em princípios egocêntricos, arcaicos e primários.

Não duvido que os websites promocionais tenham se tornado cada vez mais específicos, interessantes, direcionados e mensuráveis. Alguns deles chegam a ter uma sofisticação de detalhes digna de produção cinematográfica. Mesmo assim, a grande maioria ainda se comporta como as velhas mídias ao acreditar que basta construir uma estrutura que as pessoas naturalmente a visitarão.

“Construa, eles virão”, do inglês build it an they will come (in)felizmente não funciona no pragmático mundinho digital. Se você tem alguma dúvida, pense em sites de montadoras de automóveis – de preferência naqueles bonitos, coloridos, über-premiados, cheios de paradinhas, nhenhenhéns e borogodós que tanto babamos quando alguém nos tuíta o link ou os apresenta em congressos, palestras ou seminários. Você conhece alguém que tenha tomado a decisão de compra baseado neles? Pior ainda: você visita regularmente um site da Volkswagen, Fiat, Renault, Citroën? Conhece alguém que o faz?

Montadoras são só um exemplo. Pense em qualquer outra categoria de produto – qualquer, qualquer outra categoria – e você verá que “visitar um site” está se tornando uma prática velha. Quantas vezes você usa o Google para entrar no YouTube, no Flickr, no twitter, nos blogs que conhece e freqüenta, nos sites que se deu ao trabalho de guardar em bookmarks? Pois é.

Desde que engrenou, em 1994, a Internet vem mudando rapidamente e silenciosamente. Visite archive.org e se surpreenda ao ver como os portais, CNN, Wired, Amazon, Nike, Apple e tantos outros sites de que a gente gosta eram toscos há alguns poucos anos. Se para quem é usuário as vantagens são inegáveis, para quem constrói a web essa transformação indica que é preciso cautela. Raramente se bate um carro quando se está aprendendo a dirigir. É na hora em que se ganha confiança e se acredita que sabe guiar que as grandes trombadas acontecem.

O mesmo vale para a web, fato que acredito que a maior parte dos bons designers e estrategistas digitais já está cansado de saber. Tanto que os novos browsers e tecnologias que fazem sentido são assimilados rapidamente por seus usuários mais assíduos. As que não fazem muito sentido – de SecondLife a SilverLight – são rapidamente descartadas. Palavra de quem já achou o máximo usar Mosaic em linha discada e se preocupou com a possibilidade do governo controlar o acesso à rede (isso sem falar de Bug do Milênio, estouro da bolha, Iloveyou e outras paranóias).

O grande problema de quem vence a curva de aprendizado e consegue se entender bem com a nova tecnologia é criar barriga. Por mais que tanto o design quanto a tecnologia usados sejam modernos e relevantes, um hot-site ainda é um hot-site, e o público vai ter que chegar lá de alguma forma.

O que se cria, então, é uma aberração, já que uma estrutura completa de comunicação e publicidade é montada para fazer o sujeito digitar um http cada vez mais complicado, como http://thedarkknight.warnerbros.com/dvdsite/ ou http://www.hedidnotseethatcoming.com/ e “ir” ao site. De gambiarra em gambiarra, a inversão de valores é completa.

Esse é um bom exemplo das maravilhas (e ameaças) da web e suas transformações silenciosas. Pense nos sites que você acessa: eles são cada vez menores em número e maiores em socialização. Hoje é bem possível passar uma semana ou mais conectado a um portal, dois ou três blogs, Wikipédia, YouTube, Twitter, Flickr, uma rede social como o Orkut FaceBook e LinkedIn e algum serviço Google e não se dar conta que se “navegou” por menos de dez sites. Se somarmos feeds de RSS, Skype, e MSN ou equivalentes à lista, pode-se passar um mês ou ano inteiro sem se visitar uma dúzia deles. A montanha vai literalmente até o 1,5 bilhão de Maomés espalhados pelo mundo.

Aqueles que se apressam em condenar as “mídias velhas” como a TV e os jornais, usando todas as palavras de ordem do dicionário para proclamar o seu fim precisam perceber que o cenário é mais complexo do que podem ter percebido. Não duvido que as mídias de massa como as conhecemos estão praticamente mortas e só não caíram por serem árvores grandes demais. Mas talvez a lista das lápides inclua muitos sites de empresas que não são visitados por ninguém. Em bancos ou companhias aéreas, por exemplo, você visita algo além daquilo que esteja diretamente relacionado à sua transação? Conhece alguém que visite? Sabe o que tem lá? Qualquer home banking é lotado de links e páginas de texto (alguns, como o do Banco do Brasil, chegam a ter mais de 10.000 páginas) que parecem só estar lá para confundir.

É por isso que as empresas querem estar no Twitter, criar aplicativos sociais, estar nas redes de relacionamento. Milton Nascimento já disse há um bom tempo que é preciso ir aonde o povo está. Parece que finalmente estão aprendendo a ouvir. Estar nessas redes, ao contrário de fazer o “blog da empresa” (na minha opinião, o extremo da arrogância umbigocêntrica) é se curvar às necessidades e vontades de seus consumidores que, em última instância, são quem paga a conta.

Ainda falta muito, mas já é um bom começo.

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