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A idéia que você procura não está nos anuários

Setembro de 2009 – Revista Webdesign nº 69

Uma das coisas mais cruéis das profissões criativas está na obrigatoriedade de se ter idéias o tempo todo. Pouco importa o seu humor, disposição, estresse ou inspiração para o tema, uma idéia genial (ou pelo menos acima da média) precisa surgir dentro de um prazo. Quanto mais perto se chega desse prazo, maior o estresse e menores as possibilidades de se produzir algo que preste.
Isso não é uma característica exclusiva de designers, pouco importa o meio em que trabalhem. Músicos, redatores, comediantes, caricaturistas, arquitetos e vários outros labutadores das profissões que os invejosos gostam de chamar de “fáceis” sofrem do mesmo problema: idéias são um recurso esgotável e de renovação bem lenta, e de vez em quando simplesmente acabam sem dar qualquer aviso.

Quando isso acontece – e não se engane, acontece com todo mundo, pouco importa a área ou o nível de experiência – a reação natural é buscar alguma coisa que ajude a “recarregar” o cérebro criativo e inspirar novas idéias. Meu método predileto é dar uma caminhada. Ele tem base científica: o trabalho sedentário demanda pouca atividade corporal, por isso demanda pouca respiração e um fluxo sangüíneo mais lento. Ao dar uma volta pelo quarteirão o cérebro é oxigenado e, como qualquer outro órgão, passa a funcionar melhor. É a velha história da Mensa Sana in Corpore Sano que se fala há tantos séculos.

Caminhar também me proporciona o contato com outras cores, formas, pessoas e, de vez em quando, até idéias. Esse contato costuma servir para “chacoalhar” os conceitos armazenados na cabeça e, nesse processo, questioná-los, validá-los, testá-los. Não há prova definitiva que boas idéias dependam do movimento do corpo, mas a quantidade delas que surgem quando o indivíduo está, de alguma forma, fora de sua mesa de trabalho, tende a reforçar o ponto. De qualquer forma, um pouco de atividade física nunca fez mal a ninguém, mesmo que a atividade seja algo tão besta quanto lavar louça ou arrumar gavetas.

Outra forma de se ter boas idéias é aprender coisas novas, mas coisas novas que ativem a mesma área do cérebro. Se você está sem inspiração para uma composição, não adianta nada fazer um curso de finanças. Já dançar pode ser uma boa, porque ao controlar os movimentos do corpo e harmonizá-los com a música as mesmas áreas de percepção espacial são ativadas, só que de uma forma diferente. Ler um livro de ficção ou ver imagens de artes plásticas costuma inspirar grandes sacadas, simplesmente por usar a paleta de cores de um Miró em um template de blog ou algumas estruturas imaginárias (como as escadas que se movem em um Harry Potter) em fotografias.

Essas práticas, é claro, variam de pessoa a pessoa. Ainda bem, senão correríamos o risco de ter academias de ginástica especializadas em formar idéias criativas ou outras picaretagens do gênero. Uma coisa é certa: se você está sem idéias, não adianta tentar “espremê-las”. Elas simplesmente não sairão. Mesmo que surja algo, o resultado tenderá a ser muito abaixo da sua média, e nenhuma desculpa o desviará da certeza que a pressa vai passar e o resultado ruim permanecerá.

Um dos maiores erros cometidos por designers e diretores de arte quando desprovidos de idéias novas e criativas é buscá-las justamente no lugar mais difícil de encontrá-las: os sites de anuários e prêmios. Não é à toa que todo mundo reclama da enorme mesmice das páginas web.

A lógica é simplesmente perversa: por mais que sejam bonitos os layouts mostrados nessas compilações, eles raramente trazem algo de novo. Qualquer premiação costuma ser feita sobre o que já se conhece, pois temos uma tendência natural a achar bonitas as composições familiares, em que cada coisa está em seu lugar e nada chama demais a atenção. Para inovar é preciso romper com o que se conhece, e tudo que contraria tende a provocar uma certa rejeição. A história está repleta de exemplos de quadros e músicas que hoje achamos bonitos e até “tradicionais”, mas que em sua época foram considerados feios, ultrajantes, barulhentos, incômodos.

Uma agência que tenha muitos prêmios em um site de portfólios sabe, sem dúvida, fazer coisas bonitas. Ela está completamente sintonizada com o seu tempo e não incomoda ninguém. Como todas as coisas que são simplesmente lindas mas não dizem mais nada, suas peças provavelmente não serão lembradas nem inspirarão muita gente. As pessoas se acostumam rapidamente com novas estéticas, estilos e formatos, por isso aquilo que é universalmente belo hoje tende a se tornar ultrapassado e datado muito rápido.

Procurar uma idéia em um site de portfólios, em resumo, não é uma boa idéia. O máximo que você vai encontrar por lá é um registro do que é bonitinho e arrumadinho, e isso só tende a aumentar a angústia de um layout não finalizado ainda mais. Talvez até o convença, em seu desespero por ter um prazo esgotado, que exatamente o que seu projeto tem de bom deva ser retirado. E tudo o que sobra é uma cópia vazia de uma expressão sem idéias.

A idéia que você procura não está nos anuários. Ela costuma estar longe deles. Pode estar em um videogame, em uma revista velha, nas cores de uma ilustração, nas formas de uma escultura, na luz e enquadramento de uma pintura, em um vídeo. Se, no desespero de um prazo estourado essa proposta possa parecer pra lá de absurda, busque qualquer referência, termine o projeto e o esqueça: ele não será memorável. Mas antes de começar o próximo, dê uma boa olhada (ou escutada) em algo que você tenha ouvido falar que é bom, mas que nunca tenha experimentado de perto.

O resultado tende a ser bem mais inspirador.

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