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Janeiro de 2002

É muito mais parecido do que pode parecer

O que aconteceu com as pontocom é uma prévia do que pode acontecer com outras categorias

Pense em uma categoria profissional de glamour, em que tudo é muito chic, da decoração das salas aos produtos oferecidos. A categoria é tão bacana que suas empresas parecem griffes no mundo corporativo. Para uma empresa, contratar seus serviços é um sinal de poder e ostentação, o equivalente a se guiar um Jaguar ou a se calçar um Fratelli Rossetti. Não que essas empresas não tenham seus méritos, muito pelo contrário. Elas, como o carro inglês ou o sapato italiano, são inquestionavelmente excelentes em suas áreas. É a forma com que esses méritos é encarada, entretanto, que se está colocando em questão neste artigo.

Como nas cultuadas boutiques de luxo francesas, nessa categoria de empresa ser megalomaníaco é pensar pequeno, muito pequeno. Ocupando endereços muito mais nobres que a maioria de seus clientes, elas são povoadas por uma pequena multidão de gente colorida, animada e cheia de idéias e de quem, circulando por sua decoração de transvanguarda, é muito difícil avaliar a função e eficiência. Muitos desses profissionais, aliás, parecem decoradores de interiores: falam bonito, citam o que há de mais moderno em, por exemplo, Amsterdam e estimulam seus clientes a gastar cada vez mais em sua roda de seletos fornecedores.

Aliás, neste ponto não se fala em gasto mas em investimento, afinal essas empresas podem operar “milagres” em seus clientes, fazendo com que, da noite para o dia, atraiam multidões de novos consumidores. Seriam elas parecidas com academias de ginástica, clínicas de cirurgia plástica ou salões de beleza? Os investimentos em arquitetura e equipamentos, pelo menos, são parecidos.

Modéstia à parte — aliás, muuuuuito à parte — economia é uma coisa que não se faz em um lugar desses: das cadeiras ergonômicas aos investimentos em mídia, elas sempre o surpreendem quando você acredita que já viu de tudo em autopromoção. E o mesmo vale para alguns de seus profissionais, de cujos a modéstia não está entre os doze milhões de qualidades que possuem. Como astros de cinema ou personalidades da política, muitos deles são eleitos à categoria de celebridade na área e, mesmo dentro de um público restrito, são aclamados em jornais, revistas e websites. É certo que toda cultura precisa de ídolos e que os nomes escolhidos para esse papel costumam dizer muito sobre seus hábitos, mas não acredito que definam a Sandy ou o Luciano Huck como “gênios” no que fazem.

Genialidade, aliás, é pré-requisito aqui. Oriundos das mais diversas áreas profissionais, suas equipes são habitadas por muitos profissionais mal saídos da escola (alguns, aliás, que nem escola frequentaram) mas que têm em comum o fato de serem “brilhantes”. Verdadeiros geninhos, eles se vestem de forma estranha, têm hábitos pra lá de excêntricos e ganham salários astronômicos.

Tudo isso seria normal se, como pilotos de helicóptero, personal trainers ou cabelereiros,  eles pudessem comprovar seus resultados. Mas como não há muitas ferramentas para se avaliar o retorno sobre o investimento (e também porque se prometem impossibilidades para os clientes) nunca se sabe se o dinheiro está sendo bem gasto nessa área e, em um momento de crise, aí é o primeiro lugar em que se corta.

Isso parece familiar? Pois é, o que aconteceu com as empresas de comunicação e serviços pontocom é uma prévia do que pode acontecer com outras categorias. Como tudo ligado à internet, seu ciclo de ignorância-fascínio-descoberta-exploração-angústia-decepção-hábito foi muito mais rápido que o de outras áreas (como a Televisão ou a Propaganda) atraindo profissionais com salários imensos, prometendo mais do que poderia cumprir, gastando acima de sua arrecadação e não entregando resultados mensuráveis. Como não era protegido por lei, o segmento rachou mais rápido.

Aos outros, fica a lição. Se assistirem a “quebradeira” de muitas empresas de internet brasileira como meros espectadores, correm o risco de serem encarados como indústrias de luxo supérfluo, terem seus investimentos drenados para áreas de comunicação mais mensuráveis e ficarem como os pobres e perplexos yuppies tardios que não aprenderam na escola que o produto vale muito mais que sua imagem e agora não sabem o que fazer com suas stock options.

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