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Setembro de 2001

Freada de arrumação

A internet não parou neste ano: só está se profissionalizando.

Aproveite a modorra desse começo de novo milênio para pensar um pouco em tudo que você já ouviu falar de internet desde que parou de confundir arrobas com wwws. Lembre-se de quantas maravilhas, quantas previsões catastróficas e, acima de tudo, em todas as besteiras que já ouviu e, por qualquer motivo, acreditou: que os livros iam acabar, que a segurança das empresas poderia ser quebrada por qualquer  moleque imberbe travestido de Hacker, que os pequenos e os grandes teriam o mesmo peso no ambiente virtual, que as corporações tradicionais estariam com seus dias contados e que o mesmo aconteceria com os veículos e as agências de propaganda.

Tsk, tsk, tsk… não faz muito tempo em que todos lemos vários veículos sérios dando uma importância excessiva à “nova” economia, como se ela não fosse uma simples evolução de alguns processos da economia tradicional. Garotos de 12 anos só estavam inventando idéias geniais de produtos inovadores porque identificaram um público-alvo que gente mais séria e preparada não estava perdendo tempo para perceber. Muitos caíram na história de que “qualquer um poderia fazer um website”, viraram webdesigners fazendo qualquer curso e o resultado é que muitos websites acabaram sendo feitos por qualquer um, de qualquer jeito, só para “estar lá”. É certo que novidades — sólidas, mas não necessariamente lucrativas — surgiram, mas para cada iG, Amelia e Internet Banking que alcançou o sucesso, quantos Submarinos não submergiram?

Pobre AmericaOnline – pode patrocinar mil Rockinrios e ainda não vai alterar o cenário. As empresas que têm  hoje o melhor conteúdo internet são também as mais promissoras: umas tais de Globo.com e Abril.com. Se não tivesse o Estadão, o Terra não teria do que se orgulhar, certamente não de seus cyber-âncoras. A AgênciaClick fez um enorme barulho, mas a maior agência de propaganda em internet no Brasil ainda é a Ogilvy, e se há alguma concorrência a temer, ela está mais para os lados da DM9DDB que de qualquer pontocom. E talvez alguém ainda se lembre de uma tal de iXL, que entrou no mercado anabolizada com componentes de consultoria e acabou esborrachada, sem fazer tremer a “modernidade” de empresas como KPMG, McKinsey e Andersen.

Se aprendermos algo com as histórias acima, tanto melhor. Para mim tudo isso indica que o maior obstáculo que enfrentamos é nossa própria ignorância, em parte nos acreditando capazes de dominar processos complicadíssimos, em parte acreditando em gênios ou que máquinas funcionam sozinhas. Um website precisa ser pensado e desenhado com todo o cuidado do mundo, pois é a chance que a empresa tem de se colocar face a face com cada um de seus consumidores. Isso envolve comunicação (tarefa de uma agência de propaganda) e serviços (tarefa de empresas de logística, informática, relações públicas e muitas outras que nada têm a ver com propaganda ou marketing).

Muito se fala que a internet “parou” em 2000, pois surgiram pouquíssimas novidades. Não é verdade. Se muitas empresas parecem estar mais relutantes em fazer ações digitais, não é porque tenham medo ou não acreditem na eficiência ou futuro da rede, mas porque pretendem fazê-lo de uma forma estudada, estruturada e consciente. Chame esse processo de profissionalismo ou maturidade, não importa. O fato é que virgindade é uma coisa séria, e não se pode perdê-la com qualquer um, só para dizer que se “tem experiência”, pois os resultados podem ser desastrosos. Só isso explica a demora da entrada de gigantes como a Unilever na rede.

O que aconteceu neste ano, na minha opinião, foi uma “freada de arrumação”: aquilo que o motorista de um ônibus lotado faz para acomodar mais pessoas e liberar espaço. É meio similar às quebras da NASDAQ: uma baita falta de educação, mas nada que possa provocar acidentes verdadeiramente sérios. Com mais espaço, começamos  o ano com melhores oportunidades na internet, desde que nos concentremos em nosso objetivo primordial — fazer comunicação, deixando as outras funções para os outros.

No fundo, é sempre bom seguir um ditado Zen de onze séculoa atrás: “Quando andar, apenas ande. Quando sentar, apenas sente-se.”

desça a lenha:

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