A rede de pessoas
São três da manhã. Você não consegue dormir direito. Precisa de alguém para conversar. Amenidades. Ou não. A quem vai recorrer? Na realidade, você brigou com a namorada e quer espairecer. Ou sacaneou alguém no trabalho e precisa abrir seu coração. Mas não quer ser identificado. Ou sua vida está meio sem graça e você procura por um pouco de emoção. Ou você é solitário e só quer ver pessoas conversando, imaginar suas histórias. Ou você mora em Joaçaba e quer discutir cinema iraniano. Ou está para se mudar para o Rio e não conhece nada por lá. Ou marcou viagem para Cabo Verde e só sabe que fica na África. Ou mora nos Estados Unidos e está com saudades de casa. Ou ainda quer saber as melhores trilhas para mountain biking na Serra da Bocaina. Ou tem um parente com Alzheimer e não sabe o que fazer. Ou precisa de um advogado. Ou só quer um pouco de sacanagem. Ou ouvir fofocas. Ou pegar conselhos. A quem você vai recorrer?
Fala-se por aí que a internet é uma rede de computadores interligados. Bobagem. A internet está mais para uma rede de pessoas conectadas, isso sim. Pessoas comuns, com qualidades e defeitos comuns, conhecidos e explorados pela publicidade tradicional. Pessoas que, no fundo, são tremendamente simples, gostam de coisas simples e se prendem a histórias pra lá de simples. Pessoas com experiências, anseios, sentimentos, idéias e, acima de tudo, uma inteligência que está muito longe de ser artificial. Pessoas que, se hoje estão usando computadores, amanhã usarão maquininhas de mão ou de pulso, TV a cabo, satélites ou Tamagochis, tanto faz. A máquina não importa, o que vale é a comunicação.
Ninguém — ou quase ninguém — gosta de usar computadores. São máquinas estranhas, frágeis, que nos deixam trancados em salas escuras e causam vários problemas à saúde. Em compensação, todo mundo gosta de ferramentas que ajudem a realizar um trabalho, de um óculos a uma pinça. Essa é a idéia que deve estar por trás das interfaces: se forem simples, diretas, agradáveis e divertidas, farão com que seu usuário esqueça que está usando a ferramenta e se concentre na tarefa. Se forem complicadas ou mal-feitas, darão muito mais trabalho ao usuário.
Imagine que você está com um parafuso solto e precisa apertá-lo. Solução? Uma chave de fenda. Não tem? Use uma faca. Não tem? Que tal um clipe de papel? Ou uma tesoura? Ou a unha do dedão? Cada uma dessas ferramentas é pior que a anterior e leva muito mais tempo para realizar a tarefa específica. Se você quebrar a unha no processo, vai se lembrar dele durante dias, e provavelmente continuará com o parafuso solto. Se, no momento que identificou o problema, você tivesse uma boa chave de fenda do tamanho certo, provavelmente já teria se esquecido dele.
Daí surge uma distorção: muitos gostam de avaliar um website pelo número de páginas visitadas ou pelo tempo gasto em cada visita. Se esquecem que, ao contrário da TV, rádio ou revistas, o processo de consulta às informações na Web é ativo e muitas vezes o usuário não está feliz por perder um tempão lá. Ou o contrário: em uma sala de chat, uma só página é consultada, e ela vale muito mais que todo o site. É o mesmo raciocínio do e-commerce.
Um endereço internet pode ser um mundo novo, uma invenção em que as leis que conhecemos não funcionam mais. Podemos estar em dois lugares no espaço ao mesmo tempo, chegar ao fim antes de conhecer as etapas, entrar em um quarto que é maior do que a casa inteira. E dá pra fazer tudo isso de pijama, mas e daí? Existe gente nesse mundo? Alguém que importe?
As salas de chat e os grupos de discussão da internet são as novas ruas, igrejas, partidos, padarias: praças públicas onde as pessoas apressadas, atarefadas e estressadas conseguem ser um pouco humanas. São espaços em que as pessoas podem colocar mensagens, trocar idéias, conviver, ser humanas enfim. O excesso de trabalho deixa todos cansados ou estressados demais para sair quando chegam em casa. E a tecnologia só atrapalha: do disk-paella ao arô-sushi, muitos são os bons motivos para não se sair de casa, enfrentar trânsito, flanelinhas, filas de espera, garçons mal-humorados, motoristas bêbados e assaltantes. Isso estimula o encasulamento: as pessoas ficam cada vez mais isoladas, fechadas, sozinhas.
Em um ambiente social mutável e imprevisível, cada vez mais as pessoas querem pertencer a um grupo. Muitos procuram mais do que informação quando entram em um sistema online, vendo-os como lugares em que podem compartilhar experiências com outras pessoas, mesmo que isso não ocorra em ambientes reais, com pessoas reais ou mesmo que não sejam experiências reais. O conteúdo não importa, o importante é pertencer.
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[...] área de Comunicação e Marketing digital já deve ter aprendido a repetir o chavão que a “Internet é uma rede de pessoas“. Mesmo entre os que ainda não têm tanto conhecimento já é comum a idéia que a mídia [...]