Problemas e mistérios
A caixa preta não é tão preta assim. E, pensando bem, nem é uma caixa
O linguista Noam Chomsky uma vez sugeriu que nossa ignorância – o desconhecimento que temos a respeito de um tema qualquer – pode ser dividida em duas categorias: problemas e mistérios. Quando encaramos um problema, podemos não conhecer sua solução exata, mas temos uma idéia razoável do que esperamos como resposta. Quando o que se tem pela frente é um mistério, só nos resta olhar para ele maravilhados e espantados, não tendo a menor idéia de suas causas ou estrutura.
Boa parte das religiões, crendices e mitologias surgiram para explicar mistérios do dia-a-dia. Todos os povos primitivos têm razões poéticas e ingênuas para fenômenos esquisitos, como a noite, a chuva, a morte. À medida que nós crescemos e vamos nos tornando adultos, velhos mistérios passam a ser simples problemas e acabamos ficando pragmáticos. Arrogantes com nosso conhecimento, criamos novos mitos para as coisas que não temos mais vontade ou paciência ou energia para pesquisar o funcionamento. E nos tornamos velhos caretas e ranhetas, com a cabeça cheia de mistérios aos quais, como não temos coragem de desvendar, resistimos o que pudermos.
Olhe para qualquer site na internet com os olhos de um leigo: todos são pequenos mistérios, caixas pretas que não fazemos a maior idéia de como desvendar. E o que é muito pior, não estamos nem aí. Como é que se clica em uma palavra e se lê outro texto? Como é possível estar ao mesmo tempo em Nova York visitando um site de universidade se estou em Pernambuco, de pijamas, na frente do meu computador? Como é possível ir tão rápido de um site a outro, da Dinamarca para a Nova Zelândia? Onde estou, se em uma janela vejo o UOL e em outra a Wired? Como pode uma janela ser maior que toda a tela do meu computador? Como um pequeno site pode abrigar dentro de si um grande site? Essas perguntas – óbvias, simplórias, patéticas até, são muito importantes para quem se preocupa em desenvolver um bom site, fundamentais para quem busca empatia com o visitante, portanto essenciais para o desenvolvimento de websites.
Olhe no espelho e você verá um excelente exemplo de inovação e resistência: quando aprendemos uma nova tecnologia ou forma de comunicação, estamos abertos a todas as novas informações disponíveis – formatos, tipos de programas, estruturas. Com nosso pouco conhecimento, fazemos verdadeiros milagres. Depois de alguns meses aprendendo e dominando a técnica, preguiçosamente nos adaptamos a uma ferramenta e preferimos fazê-la dar nó em pingo d’água a estudar formas alternativas. Isso acontece com qualquer um, mas é uma forma de auto-compensação bastante perigosa, pois se não estamos fascinados pelo meio, como podemos convencer os usuários dos pequenos milagres que criamos que eles são realmente fascinantes?
A propaganda é especialista em descobrir o essencial em uma comunicação: como os produtos e formatos não mudam muito, os profissionais de criação têm que buscar o que move as pessoas a comprá-los, e é isso que faz com qua surjam campanhas tão brilhantes como a dos mamíferos da Parmalat, já que leite e crianças existem desde sempre.
Diz-se por aí, em todos os cantos, que temos que aproveitar as características particulares da internet. Mais do que isso, é necessário descobrir o que leva uma pessoa a visitar um site, qual a vantagem que ela leva. E depois construir o site inteiro em torno dessa vantagem. Há muito tempo, a revista CN Traveler descobriu que um site na internet poderia conter um excelente banco de dados para ajudar as pessoas a planejar viagens. E fez um belo site que tem mais ilustrações que fotos, já que não havia verba para fotografar ilhas paradisíacas no mundo todo. O resultado é estimulante.
Antes de criar um site é necessário ver seu conteúdo com clareza e reinventar a roda: não importa o que a concorrência faz, não importa o que o usuário está acostumado a ver, não importa o que existe de mais novo em tecnologias. Importa o conteúdo. Como em um prato de comida, não adianta nada fazer receitas exuberantes se a matéria-prima está verde ou podre. Pense bem: você está interessado no número de visitantes que entraram em um site, você precisa de alguém que o diga onde clicar?
Veja um bom exemplo: videogames. No início da década de 80, quem acreditasse que coisas como um Telejogo Philco ou um Space Invaders iriam movimentar uma indústria de bilhões deveria com razão ser chamado de maluco. Mas foi exatamente porque o pessoal envolvido na criação desses produtos se preocupou em inovar e criar novas estruturas que surgiram coisas como um Mortal Kombat, Ultima, Sim City, Quake e muitos outros.
Precisamos de um choque de idéias, tecnologias para elas nós temos de montão. A web está tão obcecada em imitar os modelos tradicionais que esquece de sua verdadeira riqueza, o que faz com que a maioria dos sites tenha uma Home Page, ou a cara de um jornal ou de um banco de dados. Faltam boas idéias, produtos que façam a diferença, coisas bacanas e simples que deixem as pessoas – que são simples e gostam de coisas simples – felizes e satisfeitas. Como fazer isso? Com lápis e papel. Talvez umas cervejas ajudem. Para muitos, criar esse tipo de coisa é um mistério. Pois é hora de abrir a cabeça e transformar esses mistérios em problemas. Assim talvez será mais fácil solucioná-los.

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