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Março de 1999

Sobre tempos e irrealidades

Tempo real é o que nós, humanos, usamos

“Pela onda luminosa leva o tempo de um raio, tempo que levava Rosa pra arrumar o balaio quando via que o balaio ia escorregar” — a música é manjada e o próprio autor já escreveu coisa mais moderna, falando da internet e dos websites, mas o tema não podia surgir em tempo melhor. Um tempo em que se vive a cultura do rapidinho, da rapidinha, em que tudo é para ontem e que os fins de semana são feitos para se trabalhar. O melhor termo para definir essa cultura estressada e impaciente, é o tal “tempo real”, que simboliza o instantâneo, o tudo-ao-mesmo-tempo-agora.

Só que não há nada verdadeiramente real em tempo real, e certamente nada humano nele. Tempo real é tempo imediato, sem pausas nem espera, em que tudo acontece num estalar de dedos. Ou antes. Mas espere aí: é assim que as coisas acontecem no mundo real?

Ou será que a demora e a espera é o que nos dá contato com o mundo de verdade? Esperar por um prato pode ser um bom motivo para papear, como esperar pela conta ou por um cafezinho. Ou esperar o sol se pôr, o dia raiar, o chuveiro esquentar. Uma mulher esperando um bebê parece tão serena. Do mesmo jeito que aquele sujeito distraído que olha pela janela vendo a paisagem enquanto o ônibus não chega a seu destino. Crianças esperando pelo Natal são tão radiantes etc. Não vou radicalizar dizendo que os melhores tempos da nossa vida nos são proporcionados pela espera, mas que ela nos dá pausa em uma correria, estimula a reflexão e nos faz aproveitar melhor as coisas é incontestável. Ou existe coisa pior que viver comendo “fast food”?

O contato entre as pessoas toma tempo, e nesse tempo não é só informação pura e simples que se troca. Ele é tremendamente valioso, não perdido. Os papos de boteco, as festas, conversas pelo telefone, livros lidos, todo o processo educativo, tudo isso é muito rico. Quantas vezes você não viveu um momento que queria que não acabasse nunca? Deitado debaixo de uma árvore, com alguém, olhando o céu… As demoras e as pausas são imprevisíveis no mundo de troca de informação. São o tempo no qual a vida acontece, e, através do qual, se trocam outras experiências — sensoriais, afetivas, sinestésicas — muito mais prazeirosas, intangíveis e enriquecedoras. Essas pausas deveriam até ser comemoradas.

Cada cultura tem sua própria percepção do tempo e seu significado. Para os chineses — especialmente para os velhos chineses — o tempo presente tem uma dimensão ridícula, desimportante, que só um país com mais de cinco mil anos de história pode oferecer. Talvez isso faça dos americanos povos mais histéricos e ansiosos que os europeus. Talvez não. O que importa é que nossas vidas são marcadas tanto pela velocidade quanto pela lentidão.

No dia-a-dia das grandes cidades vemos barbaridades cometidas no trânsito em nome de uma ansiedade, o desespero das pessoas com os telefones celulares que não funcionam, a irritação que surge quando não se consegue atingir um padrão ideal — de beleza, de físico, de inteligência, de eficiência. Ao igualar o real ao eficiente, perpetuamos uma idéia positivista em que a aceleração (progresso) é o principal objetivo da vida como um todo (ordem) e, assim, minimizamos o valor do contato humano.

O tempo humano — que talvez seja irreal, se o “outro” é o real — é mais devagar, bem mais devagar. Essa falsa idéia de velocidade para redução dos erros caracteriza as conquistas tecnológicas do século XX, em que a lentidão dos processos era seu principal inimigo. É só lembrar que um anúncio de revista feito por uma grande agência de propaganda nos anos 80 levava pelo menos uma semana para ficar pronto.

É engraçado que as mesmas pessoas que cultivam essa “eficiência” do tempo real — como viciados até, os workaholics — se apaixonam por cidades pequenas e reclamam por uma melhor qualidade de vida. Ora, por que esse tempo não-instantâneo não é percebido como tempo para a reflexão? Ou tempo criativo? Ou como uma característica da própria qualidade de vida? Um tempo necessário para ver crianças crescendo, aprendendo a falar, brincar, andar. Considero odiosos aqueles monstrinhos que se comportam e se vestem como adultos, tratando mãe e pai pelos primeiros nomes e sem ilusões, brincadeiras ou fantasias. São mais perigosos e assustadores que as crianças erotizadas, pois essas só estão imitando um comportamento que consideram bonito e divertido.

Plantas para crescer levam tempo. Flores são bonitas porque são efêmeras e demandam cuidado. O pôr-do-sol dura poucos minutos e só aparece uma vez por dia. E é muito mais bonito que o céu inteiro cor de laranja, como acontece algumas vezes em Cubatão. A novela Pantanal fez um enorme sucesso ao escapar da estética frenética dos noticiários e desenhos animados, mostrando longas seqüências com tempos enormes. O filme Central do Brasil também. Alguns comerciais estão descobrindo o mesmo segredo. Citando outro trecho da mesma música do Gilberto Gil: “de jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação, de avião é o tempo de uma saudade…”

Um dos melhores sinais dessa ansiedade que nos cerca está nos videogames. Os jogos costumam refletir as ações sociais e o maior deles, o Xadrez, historicamente tem muito mais a ver com os conflitos e a velocidade humana que um porco-espinho supersônico. O mesmo vale para os jogos de cartas. Talvez isso explique a popularidade de esportes como o Golfe, em que o tempo e a caminhada têm um papel verdadeiramente importante e não se busca o tempo real.

Hoje, ao passearmos nas paisagens informativas digitais, temos a impressão que nossa cultura se enriquece, quando o que acontece é exatamente o contrário: nos tornamos depósitos de dados e citações impensadas, não refletidas. O tempo é inquestionavelmente nosso mais rico recurso, e o que mais sofre risco de extinção, sustentando tudo o que vemos e sentimos. Ao entrarmos em uma corrida frenética em busca de informação abandonamos o tempo e nos distanciamos cada vez mais da experiência. Não me parece muito lógico.

Isso dá o que pensar. Pois no fundo, nada do que vemos ao nosso redor é real, a não ser a nossa disposição a aceitá-lo: tudo é derivado da percepção, inclusive as interfaces, os computadores, todas as três dimensões, o amor, a beleza. Há quase quinhentos anos um sujeito já previra que, como o tecido imaterial dessa visão, as torres arranha-céus, os palácios maravilhosos, os templos solenes, o grande globo em si e tudo a que ele pertence, se dissolve e não deixa rastros. Nostradamus? Não, Shakespeare. Também está na moda.

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