Inovação, Textos

Sobre mídia e fetiches

TENDÊNCIA Nº 18: FÍSICO.

 

Lembrou um strip-tease? Sua mente é menos suja do que você imagina.

Por motivos que não vêm ao caso para o conteúdo editorial deste blog, me caiu na mão um iPad. Deu pra testar um bocado, ainda mais quando por coincidência (ou olho gordo, vai saber ;-) meu lépitópi começou a fazer um barulho pior do que ventoinha de Scania e tive que levá-lo para a manutenção. Como peças de reposição de produtos Apple costumam ser um pouco mais raras que cabeça de bacalhau e enterro de anão – e como eu, feito qualquer um, não tenho um desquitópi – o aipodão teve que quebrar o galho geral. Não foi fácil, nem mesmo com um teclato brutúfe emprestado (OK, OK, vou parar de ser mala com esses termos aportuguesados, não tenho paciência para ser purista).

HagridA minha primeira impressão sobre o iPod Touch do Hagrid, confesso, não era lá muito lisonjeira. Para mim ele não era muito mais do que um Aipodão. Pesado demais, brilhante demais, frágil demais, limitado quando comparado a um netbook, desconfortável e pesado perto de um Kindle, aquilo para mim estava mais para um potencial do que para uma evolução.

Depois de duas semanas com ele, minha opinião mudou bastante. Ainda não acredito que seja uma máquina pronta ou perfeita – e ainda acho que é cara demais. Mas confesso que fiquei espantado com algumas de suas funcionalidades. Não vou torrar o seu tempo com elogios ao (enorme) tempo de bateria, à qualidade dos vídeos (que ainda é uma porcaria em 3G, mas é bem boa em wi-fi, ainda mais se você andar com um sachê de Vidrex e um paninho no bolso), nem mesmo dos efeitos de uma tela que emite luz na leitura de e-books (por mais que se possa reduzir drasticamente o brilho, ela ainda é bastante incômoda, sem contar que o próprio brilho do vidro e o peso do bichinho não ajudam).

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Design, Textos

Se o Twitter fosse feito por uma agência

Chega na criação mais uma demanda em cima da hora. O cliente, daqueles executivos de startups, havia pedido o projeto fazia mais de um mês, mas o trabalho tinha encrencado em praticamente todos os departamentos a caminho da cozinha. Os executivos de conta, por exemplo, questionaram a verba, finalidade, público-alvo, ROI, nicho de mercado, adequação e adaptabilidade, cenários e modelos de co-branding associativo para ampliar o mindshare, embora nem mesmo eles soubessem definir com precisão o que esse último termo significava.

O pessoal de planejamento e pesquisa não foi lá muito diferente. Logo de cara eles fritaram uma bela verba para “amadurecer a idéia”, formando grupos de pesquisa e foco com várias divisões atitudinais,  etárias e sociodemográficas em todo tipo de mercado-teste possível. Em brainstorms que pareciam intermináveis, eles debateram muito se “o SMS da Internet” seria um melhor conceito que “o SMS da WWW”.

Estratégias e powerpoints se perdiam em um acumulado de reuniões internas, externas, com fornecedores, mídia, clientes e adolescentes que, afinal de contas, deveriam saber de tudo que dissesse respeito ao digital. No meio dessa confusão, alguém teve a feliz idéia de pedir um layout, mesmo sem saber ao certo o que queria nele. Pelo menos assim teriam algo para mostrar ao cliente.

Mas não seria tão fácil. O novo Vice-Presidente Executivo de Criação Sênior para o Cone Sul, apelidado de “vice” em homenagem à sua competência inversamente proporcional a seu sentimento de auto-importância e recém-chegado de uma experiência internacional em Londres (que as más línguas dizem que se resumiu a dois meses de muito papo, até que os chefes de verdade arranjassem um jeito de mandá-lo de volta sem chamar a atenção das más línguas) sentenciou que a idéia estava muito “bubbly” e deveria ser mais “frizzy”. Antes que alguém perguntasse o que raios ele queria dizer com isso, ele pediu desculpas para se ausentar porque tinha um encontro com o personal trainer do seu poodle.

Nesse meio-tempo o redator, solícito, salpica o slogan “Você. Online. Agora. Mesmo.” e o defende com argumentos inquestionáveis sobre a semiótica da semântica de cada termo, suas variações e combinação. Se ele não tivesse usado o mesmo slogan na semana passada para defender um serviço de disk-natchos, talvez até soasse convincente.

O Diretor de Criação Sênior rapidamente escolhe os pobres coitados cujas mesas estavam mais lotadas e passa o fardo, realçando que ” aquela interface só não poderia ser composta em Verdana, qualquer outra coisa para ele estaria ótimo”.

Com 15 minutos para terminar o serviço antes que os advogados do cliente recolhessem o material e lacrassem os servidores como evidências em um processo por quebra de sigilo e negligência, fundamentado pela matéria que tinha saído naquele jornal de fofocas, os designers voltaram à idéia original do SMS e nem piscaram: deram uma rápida consultadela no FWA para determinar as cores, formatos, plug-ins e grafismos que aquele layout “inspirado” em uma ilustração do DeviantART mostraria em torno daquela que seria a inovação definitiva em interfaces: uma réplica 3D de um celular de monitor verde, cujas teclas poderiam ser clicadas uma, duas, três ou quatro vezes para reproduzir os caracteres da mensagem a se enviar (e que seriam 190, não 140 – ai, se os geeks daqui não corrigissem os briefings).

Descrentes de sua própria genialidade, os designers passaram a preparar o discurso de premiação, realçando que sua interface trazia um mundo mobile vintage para a web e estava pronta para marcar tendências. Se cuida, iPhone!

Enquanto isso, na tecnologia, a maior parte do tempo estipulado para o desenvolvimento estava sendo gasto com resmungos sobre a inutilidade de um serviço destes, de como o tempo poderia ser usado para desenvolver bibliotecas de funções para software livre, de como o algoritmo era “ridículo” de ser feito e de variações sobre estes temas e outros derivados da saga O Senhor dos Anéis. Quando finalmente chega a hora da execução, o debate é acalorado com facções Java vs. Rails, PC vs. Mac e todo tipo de tecnologia e servidor imaginável até não haver mais tempo de se discutir mais nada e o projeto ser terceirizado para algum fornecedor externo que conseguiria restaurar a paz na equipe ao concentrar todo o desprezo e ódio a seu código sujo e falta de processos.

Essa história, naturalmente, é ficção. O Twitter, todos sabemos, não é em Flash (muito menos naquela cópia semvergs do Flash, o Silverlight) nem tem firulas. Sua interface, pelo contrário, é elegante e extremamente simples, e reflete um código eficiente e compacto, portável para várias plataformas e, por sua extrema simplicidade, rapidamente compreendido e admirado.

A pergunta: “o que você está fazendo?” e a limitação de 140 caracteres para respondê-la é tão simples quanto abrangente. Como os melhores produtos digitais, inspira muitos por seu despojamento, não pelo excesso de funções e acessórios que tantos ainda teimam em popular os produtos. Em um mundo tecnológico de excesso de ofertas de mashups, o fato de uma funcionalidade, efeito ou plug-in estar disponível não significa nem implica que deva ser usado.

Um Fusca é um clássico. Um Porsche também. Um que tente ser o outro é só ridículo.

Dezembro de 2009 – Revista Webdesign nº 71

Design, Textos

Criação em três dimensões

Este não é um artigo sobre modelagem de objetos, esculturas ou ilustrações para videogames. As dimensões a que me refiro no título não são os velhos e manjados eixos geométricos. Reconheço que há um enorme talento em se projetar ambientes e personagens tridimensionais – com ou sem computadores – mas ele pode ser facilmente incluído no que conhecemos por design. As três dimensões que eu proponho aqui são outras: criatividade, técnica e planejamento.

Já houve um tempo (acredite, eu vivi nele) em que a idéia bastava. Quanto mais inesperada e diferente ela fosse, melhor seria. Quem trabalhava com criação em design, arquitetura, comunicação ou moda era considerado uma espécie de artista. E artistas, como doentes psiquiátricos, não podem jamais ser contestados. Aqueles eram tempos muito confortáveis.

Naquela época, quem sugerisse qualquer tipo de planejamento ou alguma tecnicalidade a um “criativo” seria, no mínimo, considerado um chato sem imaginação ou refinamento (acho que em alguns segmentos do mundinho da moda e da falida indústria da publicidade isso ainda vale hoje). A idéia era tratada como soberana, grandiosa. Os outros departamentos – incluindo o consumidor/usuário – que se virassem para compreendê-la, aceitá-la e admirá-la. Em propaganda ela era tão venerada que tinha até um nome: BIG IDEA. Isso mesmo, assim, em inglês. Tá pensando que é pouca porcaria?

Esse tempo, ainda bem, acabou. Hoje uma idéia que não funcione perfeitamente nem esteja integrada a um planejamento é considerada tão descabida e ridícula quanto alguém, sem motivo aparente, ficar pelado em uma festa. Direta ou indiretamente, a Internet, com todos os seus desdobramentos em produtos, serviços, acessibilidade e mensuração, foi a principal responsável pela extinção do culto à criatividade. Hoje mesmo quem não entende nada de técnica sabe mais ou menos o que esperar de uma máquina, e quem tem que se virar é o autor do produto ou serviço, não mais quem o consome.

Quem trabalha com design digital sabe muito bem disso: a idéia criativa, que antes era só composta por texto e imagem, nem sempre juntos, agora precisa ter um belo apoio técnico. Se não funcionar, ninguém a levará a sério. Vai ser como aquelas casas, pessoas e pratos de comida muito bonitos… e só.

O problema dessa habilidades é que elas demandam partes completamente diferentes do cérebro, a tal ponto que quem é bom em uma delas costuma não ter um desempenho satisfatório na outra. Bons produtos são criados em equipes, em que cada parte contribui com o que tem de melhor. Mas isso ainda não é suficiente.

No início da web comercial, lá pela segunda metade da última década do século passado, criatividade e técnica perceberam que não podiam mais ficar separadas e, aos poucos e com muita relutância de ambos os lados, começaram a se aproximar. Foi quando surgiu a figura do webdesigner, um centauro profissional que não é designer nem técnico e que costuma ser explorado por seu chefe esperto, que o quer ver fazendo o trabalho de dois pelo salário de meio.

Criatividade e técnica conviveram sem se misturar por um bom tempo. Feito pessoas que dividem um apartamento para economizar despesas, cada uma tinha seu canto e podia, lá dentro, fazer o que quisesse sem que ninguém reclamasse, contanto que as áreas coletivas ficassem suficientemente arrumadas. O usuário, ao visitar a sala desse apartamento, tinha a impressão que estava tudo OK, mesmo que a base de dados, a programação, as cores e imagens estivessem completamente caóticas. Isso às vezes resultava em uma ou outra demora ou incompatibilidade, mas tudo era novo demais para que alguém reclamasse.

Mas, todos sabemos, o ser humano é um bicho mimado e insatisfeito, que tende a se acostumar rapidamente com as coisas que conquista. Na Internet não poderia ser diferente. Não demorou para que os novos profissionais percebessem que era possível integrar um produto ou serviço web a um planejamento maior, que envolvia ambientes nunca sonhados pela velha mídia: arquitetura de informação, usabilidade, otimização para mecanismos de busca e mídias sociais, métricas de todo o tipo e em tempo real passaram rapidamente de novidades para necessidades. O mundo da gambiarra digital começava a desmoronar.

Hoje não é possível se pensar em uma idéia efetivamente boa para um produto digital ou interativo (um não é sinônimo do outro, sempre vale a pena lembrar) sem se pensar em um bom planejamento. Pelo menos não fora de uma instalação artística ou escola politécnica.

Por mais que seja desconfortável para quem o produz, esse novo mundo é muito melhor para quem, como todos nós, o consome. A integração das três áreas dá mais trabalho, mas deixa a casa limpa, arrumada e sem surpresas. Pra você que trabalha com criação, fica uma dica: tente conhecer as outras áreas, principalmente os pontos em que elas afetam seu trabalho. E procure mostrar aos outros o que você faz e como as decisões deles afetam seu trabalho.

É melhor para todos, principalmente para quem usa o serviço que você faz.

Novembro de 2009 – Revista Webdesign nº 70

Cultura Digital, Textos

Sociogeolocalização: “quonde” está você?

TENDÊNCIA Nº 1: ACOMPANHAMENTO.

iPhone GPS

Não repare, mas acho que tem alguém te seguindo.

Terça-feira às 7:15 da manhã e estou perto do Conjunto Nacional tomando um café. Enquanto espero um amigo para uma reunião, checo no Foursquare se há algo interessante por perto. Dicas de estranhos me levam a um lugar bacana que não passaria pela minha cabeça. Meu primeiro check-in do dia em um local inédito me rende uns 6 pontos e me garante a 12ª posição no ranking dos meus amigos. Ao considerar que a classificação é semanal e começou ontem – e que o GPS do iPhone é bem coxinha e só funciona quando bem entende – não é nada mau.

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Design, Textos

A ideia que você procura não está nos anuários

Uma das coisas mais cruéis das profissões criativas está na obrigatoriedade de se ter idéias o tempo todo. Pouco importa o seu humor, disposição, estresse ou inspiração para o tema, uma idéia genial (ou pelo menos acima da média) precisa surgir dentro de um prazo. Quanto mais perto se chega desse prazo, maior o estresse e menores as possibilidades de se produzir algo que preste.
Isso não é uma característica exclusiva de designers, pouco importa o meio em que trabalhem. Músicos, redatores, comediantes, caricaturistas, arquitetos e vários outros labutadores das profissões que os invejosos gostam de chamar de “fáceis” sofrem do mesmo problema: idéias são um recurso esgotável e de renovação bem lenta, e de vez em quando simplesmente acabam sem dar qualquer aviso.

Quando isso acontece – e não se engane, acontece com todo mundo, pouco importa a área ou o nível de experiência – a reação natural é buscar alguma coisa que ajude a “recarregar” o cérebro criativo e inspirar novas idéias. Meu método predileto é dar uma caminhada. Ele tem base científica: o trabalho sedentário demanda pouca atividade corporal, por isso demanda pouca respiração e um fluxo sangüíneo mais lento. Ao dar uma volta pelo quarteirão o cérebro é oxigenado e, como qualquer outro órgão, passa a funcionar melhor. É a velha história da Mensa Sana in Corpore Sano que se fala há tantos séculos.

Caminhar também me proporciona o contato com outras cores, formas, pessoas e, de vez em quando, até idéias. Esse contato costuma servir para “chacoalhar” os conceitos armazenados na cabeça e, nesse processo, questioná-los, validá-los, testá-los. Não há prova definitiva que boas idéias dependam do movimento do corpo, mas a quantidade delas que surgem quando o indivíduo está, de alguma forma, fora de sua mesa de trabalho, tende a reforçar o ponto. De qualquer forma, um pouco de atividade física nunca fez mal a ninguém, mesmo que a atividade seja algo tão besta quanto lavar louça ou arrumar gavetas.

Outra forma de se ter boas idéias é aprender coisas novas, mas coisas novas que ativem a mesma área do cérebro. Se você está sem inspiração para uma composição, não adianta nada fazer um curso de finanças. Já dançar pode ser uma boa, porque ao controlar os movimentos do corpo e harmonizá-los com a música as mesmas áreas de percepção espacial são ativadas, só que de uma forma diferente. Ler um livro de ficção ou ver imagens de artes plásticas costuma inspirar grandes sacadas, simplesmente por usar a paleta de cores de um Miró em um template de blog ou algumas estruturas imaginárias (como as escadas que se movem em um Harry Potter) em fotografias.

Essas práticas, é claro, variam de pessoa a pessoa. Ainda bem, senão correríamos o risco de ter academias de ginástica especializadas em formar idéias criativas ou outras picaretagens do gênero. Uma coisa é certa: se você está sem idéias, não adianta tentar “espremê-las”. Elas simplesmente não sairão. Mesmo que surja algo, o resultado tenderá a ser muito abaixo da sua média, e nenhuma desculpa o desviará da certeza que a pressa vai passar e o resultado ruim permanecerá.

Um dos maiores erros cometidos por designers e diretores de arte quando desprovidos de idéias novas e criativas é buscá-las justamente no lugar mais difícil de encontrá-las: os sites de anuários e prêmios. Não é à toa que todo mundo reclama da enorme mesmice das páginas web.

A lógica é simplesmente perversa: por mais que sejam bonitos os layouts mostrados nessas compilações, eles raramente trazem algo de novo. Qualquer premiação costuma ser feita sobre o que já se conhece, pois temos uma tendência natural a achar bonitas as composições familiares, em que cada coisa está em seu lugar e nada chama demais a atenção. Para inovar é preciso romper com o que se conhece, e tudo que contraria tende a provocar uma certa rejeição. A história está repleta de exemplos de quadros e músicas que hoje achamos bonitos e até “tradicionais”, mas que em sua época foram considerados feios, ultrajantes, barulhentos, incômodos.

Uma agência que tenha muitos prêmios em um site de portfólios sabe, sem dúvida, fazer coisas bonitas. Ela está completamente sintonizada com o seu tempo e não incomoda ninguém. Como todas as coisas que são simplesmente lindas mas não dizem mais nada, suas peças provavelmente não serão lembradas nem inspirarão muita gente. As pessoas se acostumam rapidamente com novas estéticas, estilos e formatos, por isso aquilo que é universalmente belo hoje tende a se tornar ultrapassado e datado muito rápido.

Procurar uma idéia em um site de portfólios, em resumo, não é uma boa idéia. O máximo que você vai encontrar por lá é um registro do que é bonitinho e arrumadinho, e isso só tende a aumentar a angústia de um layout não finalizado ainda mais. Talvez até o convença, em seu desespero por ter um prazo esgotado, que exatamente o que seu projeto tem de bom deva ser retirado. E tudo o que sobra é uma cópia vazia de uma expressão sem idéias.

A idéia que você procura não está nos anuários. Ela costuma estar longe deles. Pode estar em um videogame, em uma revista velha, nas cores de uma ilustração, nas formas de uma escultura, na luz e enquadramento de uma pintura, em um vídeo. Se, no desespero de um prazo estourado essa proposta possa parecer pra lá de absurda, busque qualquer referência, termine o projeto e o esqueça: ele não será memorável. Mas antes de começar o próximo, dê uma boa olhada (ou escutada) em algo que você tenha ouvido falar que é bom, mas que nunca tenha experimentado de perto.

O resultado tende a ser bem mais inspirador.

Setembro de 2009 – Revista Webdesign nº 69

Inovação, Textos

A montanha tem que ir a Maomé

Nunca fui exatamente religioso ou folclórico. Nessas condições, a expressão “Se Maomé não vai à Montanha, a Montanha vai a Maomé” nunca fez muito sentido para mim. Na verdade sempre achei que tinha entendido errado e que o provérbio era o contrário, mas considerados os poderes de um profeta desse calibre, minha ignorância me fez ignorar o assunto mesmo em tempos de conhecimento wikipédico. Outro dia percebi que, apesar de muitos de seus avanços, a comunicação e diversos serviços digitais ainda se baseiam em princípios egocêntricos, arcaicos e primários.

Não duvido que os websites promocionais tenham se tornado cada vez mais específicos, interessantes, direcionados e mensuráveis. Alguns deles chegam a ter uma sofisticação de detalhes digna de produção cinematográfica. Mesmo assim, a grande maioria ainda se comporta como as velhas mídias ao acreditar que basta construir uma estrutura que as pessoas naturalmente a visitarão.

“Construa, eles virão”, do inglês build it an they will come (in)felizmente não funciona no pragmático mundinho digital. Se você tem alguma dúvida, pense em sites de montadoras de automóveis – de preferência naqueles bonitos, coloridos, über-premiados, cheios de paradinhas, nhenhenhéns e borogodós que tanto babamos quando alguém nos tuíta o link ou os apresenta em congressos, palestras ou seminários. Você conhece alguém que tenha tomado a decisão de compra baseado neles? Pior ainda: você visita regularmente um site da Volkswagen, Fiat, Renault, Citroën? Conhece alguém que o faz?

Montadoras são só um exemplo. Pense em qualquer outra categoria de produto – qualquer, qualquer outra categoria – e você verá que “visitar um site” está se tornando uma prática velha. Quantas vezes você usa o Google para entrar no YouTube, no Flickr, no twitter, nos blogs que conhece e freqüenta, nos sites que se deu ao trabalho de guardar em bookmarks? Pois é.

Desde que engrenou, em 1994, a Internet vem mudando rapidamente e silenciosamente. Visite archive.org e se surpreenda ao ver como os portais, CNN, Wired, Amazon, Nike, Apple e tantos outros sites de que a gente gosta eram toscos há alguns poucos anos. Se para quem é usuário as vantagens são inegáveis, para quem constrói a web essa transformação indica que é preciso cautela. Raramente se bate um carro quando se está aprendendo a dirigir. É na hora em que se ganha confiança e se acredita que sabe guiar que as grandes trombadas acontecem.

O mesmo vale para a web, fato que acredito que a maior parte dos bons designers e estrategistas digitais já está cansado de saber. Tanto que os novos browsers e tecnologias que fazem sentido são assimilados rapidamente por seus usuários mais assíduos. As que não fazem muito sentido – de SecondLife a SilverLight – são rapidamente descartadas. Palavra de quem já achou o máximo usar Mosaic em linha discada e se preocupou com a possibilidade do governo controlar o acesso à rede (isso sem falar de Bug do Milênio, estouro da bolha, Iloveyou e outras paranóias).

O grande problema de quem vence a curva de aprendizado e consegue se entender bem com a nova tecnologia é criar barriga. Por mais que tanto o design quanto a tecnologia usados sejam modernos e relevantes, um hot-site ainda é um hot-site, e o público vai ter que chegar lá de alguma forma.

O que se cria, então, é uma aberração, já que uma estrutura completa de comunicação e publicidade é montada para fazer o sujeito digitar um http cada vez mais complicado, como http://thedarkknight.warnerbros.com/dvdsite/ ou http://www.hedidnotseethatcoming.com/ e “ir” ao site. De gambiarra em gambiarra, a inversão de valores é completa.

Esse é um bom exemplo das maravilhas (e ameaças) da web e suas transformações silenciosas. Pense nos sites que você acessa: eles são cada vez menores em número e maiores em socialização. Hoje é bem possível passar uma semana ou mais conectado a um portal, dois ou três blogs, Wikipédia, YouTube, Twitter, Flickr, uma rede social como o Orkut FaceBook e LinkedIn e algum serviço Google e não se dar conta que se “navegou” por menos de dez sites. Se somarmos feeds de RSS, Skype, e MSN ou equivalentes à lista, pode-se passar um mês ou ano inteiro sem se visitar uma dúzia deles. A montanha vai literalmente até o 1,5 bilhão de Maomés espalhados pelo mundo.

Aqueles que se apressam em condenar as “mídias velhas” como a TV e os jornais, usando todas as palavras de ordem do dicionário para proclamar o seu fim precisam perceber que o cenário é mais complexo do que podem ter percebido. Não duvido que as mídias de massa como as conhecemos estão praticamente mortas e só não caíram por serem árvores grandes demais. Mas talvez a lista das lápides inclua muitos sites de empresas que não são visitados por ninguém. Em bancos ou companhias aéreas, por exemplo, você visita algo além daquilo que esteja diretamente relacionado à sua transação? Conhece alguém que visite? Sabe o que tem lá? Qualquer home banking é lotado de links e páginas de texto (alguns, como o do Banco do Brasil, chegam a ter mais de 10.000 páginas) que parecem só estar lá para confundir.

É por isso que as empresas querem estar no Twitter, criar aplicativos sociais, estar nas redes de relacionamento. Milton Nascimento já disse há um bom tempo que é preciso ir aonde o povo está. Parece que finalmente estão aprendendo a ouvir. Estar nessas redes, ao contrário de fazer o “blog da empresa” (na minha opinião, o extremo da arrogância umbigocêntrica) é se curvar às necessidades e vontades de seus consumidores que, em última instância, são quem paga a conta.

Ainda falta muito, mas já é um bom começo.

Agosto de 2009 – Revista Webdesign nº 68