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Primeira parada - Riyadh, Arábia Saudita

Muhammed acelera o carro de Wadih pelas ruas enormes de Riad. São duas da manhã e a temperatura está agradável, perto de 36ºC. A essa hora, felizmente não há mais trânsito. Ainda bem. Em um país que a gasolina é (muito) mais barata que a água, não são ruas de sete pistas de cada lado que evitam um razoável buzinaço. Não chega a ser um SP ou mesmo um Rio, até porque não há ônibus nem gente a andar pelas ruas - e motoboys seriam cozidos se andassem a 60 Km/h debaixo de um sol de 47ºC. Mesmo assim, acho que o que eles chamam de “trancado” em Porto Alegre seja bem livre para os padrões daqui. Dizem que há mais do que um carro por habitante em Riad, mas isso é impossível de calcular.

O Islã não permite a usura, e isso faz com que um mesmo carro seja comprado e vendido cerca de seis vezes, em um sistema de empréstimos bancários que faz a eleição nos Estados Unidos simples.

Chego a meu quarto tão cansado que resolvo aproveitar o ar condicionado generalizado para tomar um belo banho de banheira. Não dá pra ver direito o controle, por isso coloco no máximo do calor para depois temperar. Um tempo depois, nada de esquentar. “OK, vai ser um banho meio frio”, penso eu, só para ver que o registro estava no que eles consideram gelado. Mudei de idéia.

Cheguei aqui naquela correria típica de apresentação: jantei McDonald’s no hotel, almocei num clone dum Burger King, café no Bufê do hotel. De bom, até agora, só a coalhada e um croissant de Zaatar. A comida daqui não é inspiradora (arroz apimentado com carne gordurenta). No entanto, a comida árabe em geral, espalhada pelo Império Otomano e aperfeiçoada no Levante - aquela que a gente conhece tão bem em SP, com seus quibes, hommus, kaftas e tabules - é sempre muito boa.

“I’m not a terrorist with a Humvee, trying to be dead,
I’m just an Arab with a Hommus and a Pita bread”
UGC made in Dubai. Se mostrasse isso em Riad,
rolava deportation. Depois falo da porn patrol.

A apresentação foi muito boa, fiz amigos e influenciei pessoas. Confesso que estava nervoso, abri minha apresentação com um SLM padrão e mandei bala. Mais da metade da sala de reuniões vestia túnica branca e turbante. Para minha surpresa, o CEO, do Kuwait, abre a reunião dizendo que passou a respeitar as redes sociais depois de ver um documentário de 20 minutos na BBC sobre o sucesso do Obama e as redes sociais. Gancho perfeito, comecei. Um cara de túnica e barba, meio mal-encarado, levantou dúvidas com relação a países árabes e conteúdo. Excelente pergunta. Respondi e ele se deu por satisfeito. Mais tarde ele veio comentar, sorrindo, que a filha dele era usuária do Club Penguin e que o tinha recusado no Facebook porque ele era “muito velho”. Super gente boa, ele era do Bahrein e achava aquele país muito louco. Me perguntou se eu havia visto alguma mulher ali. Disse-lhe que não e ele me respondeu: “então!”. Pra completar, o VP de Marketing, tunisiano com passagem pela KPMG de Mali e que teve a opção de ser CEO do Sudão mas preferiu ficar na KSA (sábia decisão), veio falar comigo que gostou muito e que só não aplaudiu porque era uma reunião corporativa.

Então tá, se é o sr. quem diz…

O resultado é que eu fiquei besta. Se a reunião tivesse sido em NY ou Paris ou SP, acredito que encontraria gente mais teimosa ou besta ou turrona. Na saída, vejo um dos caras da reunião explicando para um com jeito de alemão que Niger não era Nigéria. Aproveito para perguntar como era Niamey e os dois arregalaram os olhos. Achei que tinha falado bobagem mas fui recebido com um baita sorriso e aproveitei para destacar o alto nível da educação brasileira. Ninguém precisa saber que meu pai é geógrafo. Não ali. Valeu, Pai!

O mundo é cada vez menor, mas o Kingdom of Saudi Arabia (KSA para os íntimos) não poderia se importar menos. Com o barril ao preço que está, eles ainda têm muito a ganhar. E debaixo daquele areal ainda tem Urânio, Cobre, Ouro… sob certos aspectos, isso não é muito diferente do Canadá ou da Namíbia. Mais interessante que o primeiro, menos perigoso que o último. Pouco importa se você for homem ou mulher.

Confesso que, apesar de ter alfinetes em boas partes deste globo, de ter sido preso por um guarda de fronteira húngaro, de ter apanhado de um guarda chinês, de ter escapado por um dia de um atentado na Jordânia e de passar por vários checkpoints em Beirute, estou chocado com a quantidade de barricadas e militares - tinha achado o Líbano tenso e eles tinham acabado de sair de uma guerra, mas comparado com o que vejo aqui, Beirute é Zurique. Saca pick-ups com metrancas giratórias na caçamba? Pois. Perguntei a meu amigo Rabih se não era paranóia e ele me responde com um fantástico senso de humor árabe, que os sauditas têm que se proteger de si mesmos. Ou melhor, dos terroristas que criam: “saca aquele cara que cria Dobermanns e precisa se proteger deles? Pois é mais ou menos a mesma idéia”.

O banco recusou meu cartão. Pela cara do tio, fazer o quê?
Reclamar pro Papa que não dá.



Os caras daqui A-DO-RAM o Txávez e não há quem os convença do contrário. Ouvi coisas da Condoleezza que não tinha ouvido da Cicarelli quando ela tentou bloquear o YouTube ou da mãe do juiz que mandou o Corinthians para a segundona. Eles chamam Israel de Palestina e acham que boa parte do 11/9 foi gorpe. E esses são os esclarecidos, aqueles que acham normal a mulher andar a seu lado, embora não lhes dêem a mão e acreditem que as regras do casamento se “flexibilizem” quando se toma um avião. Acham estranho que eu nem repare nas moças e que jamais passe pela minha cabeça agir feito um chiuaua no cio, mas até respeitam. O que eles acham muito doido é o fato de eu não fumar. Nada, nem um charuto ou cigarrilha? Mas… nem mascar um tabaquinho?


Caso eu me perca, Meca fica pra lá.

Terminada a apresentação, no dia seguinte tive meio período para passear por uma cidade em que ninguém anda pelas ruas, que “date” quer dizer “tâmara”, os guardas não deixam fotografar nada e que o calor… bem, faz com que Palmas pareça Helsinque. Seca. Foi uma emoção, mas não cabe neste blog. O mapa taí, digno de Guinness de manezice: saí do hotel e o sangue fervia: 38ºC. ATMs não aceitam cartões estrangeiros e pouquíssimos são os bancos que fazem câmbio. Não sobrou pro táxi, tive que camelar. Sacou? camelar, Rarararará! O sol do deserto está me deixando goiaba. Pelo menos segui a orientação da minha mulher e passei protetor. Não segui a orientação dela e comprei uma chuteira. Sempre quis ter uma. Amanhã vou trabalhar com ela.


Cartão do hotel, para que o taxista saiba como te levar de volta.

Como há controvérsias quanto à representação da figura humana,
melhor não arriscar e cortar a cabeça. Não há ego de fotógrafo que questione

Ah! Esqueci de falar dos gringos. O KSA está cheio deles. Chineses, Europeus, Americanos. Você tem negócios em Monróvia? Melhor resolvê-los por aqui, por pior que aqui esteja. Todos falam Inglês. Ou, como eu, acham que falam Inglês. Ou algo parecido. Em todos, deu pra ver no café da manhã, uma expressão cansada e zangada, meio cheios dessa terra e dessa vida. Todos com sapatos de segunda. Justificável.

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Diário de bordo

Riad

Não, não é Brasília.

Peço perdão aos leitores que se acostumaram a ler considerações sobre o ambiente digital neste blog para transformá-lo, temporariamente, em um diário de viagem. Uma coisa meio assim…blog. Não é tão off-topic, você não verá fotos de cachorros aqui (até porque ciclistas, como carteiros, não são muito fãs do dito melhor amigo do homem). Na verdade vou aproveitar uma viagem de trabalho ao Oriente Médio para, na volta, passar uma semana entre Amsterdam e Londres entrevistando designers e diretores de criação para o DWD3. No presente momento estou em 24°40′26.81″N e 46°41′41.95″E, ou seja, no meio do nada. Até agora só comi em McDonald’s e em hotel. Mas isso deve mudar logo.

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Entrevista para o Itaú Cultural

O Inagaki fez uma entrevista comigo e outros profissionais da área para a revista do Itaú Cultural. Trechos dela estão publicados aqui. Posto-a na íntegra a seguir:

1) “Celulose é celulose e pixel é pixel”. Quais são as principais diferenças entre design impresso e webdesign?
Existem alguns princípios de design que são universais, até instintivos. Eles se relacionam com a forma com que aprendemos a interpretar o mundo à nossa volta. Preto em amarelo, por exemplo, é uma combinação de cores tão potente que é usada em placas de advertência ao redor do mundo. O mesmo vale para determinados ângulos, formas, alinhamentos e espaços.
Na verdade, o cérebro humano percebe as imagens de uma vez só, como uma mensagem instantânea, e depois interpreta cada pedaço delas, em um processo ativo. Quando você vê uma imagem, ouve uma música, sente um cheiro, essa informação é interpretada e colocada em um contexto imediatamente, e só depois é analisada. Em outras palavras, o design funciona ao contrário da leitura: pega-se o todo, depois dissecam-se as partes.
Por depender de um contexto, a imagem estática é percebida de uma forma diferente da dinâmica e aquela que se vê em uma sala escura é completamente diferente da que se vê na rua, ao meio-dia.
A diferença entre design gráfico e digital é, portanto, muito maior do que alguns elementos que constituem uma imagem possam sugerir, sejam eles feitos de tinta ou cristal líquido. Ela depende do uso que se pretende dar, do nível de atenção que se demanda e da função da peça. Isso é o que confunde a maioria dos designer iniciantes, sedentos por “regras” e sua aplicação.
A diferença entre design gráfico e digital é, portanto, muito maior do que alguns elementos que constituem uma imagem possam sugerir, sejam eles feitos de tinta ou cristal líquido. Ela depende do uso que se pretende dar, do nível de atenção que se demanda e da função da peça. Isso é o que confunde a maioria dos designer iniciantes, sedentos por “regras” e sua aplicação.
Existem mais diferenças entre um anúncio e uma placa (duas peças de design gráfico) do que entre toda a categoria de impressos e a de eletrônicos. O designer precisa identificar qual é o contexto e a resposta que se espera, e trabalhar no que o melhor cada mídia pode oferecer para obtê-la.
2) Qual é o seu background acadêmico? Você fez faculdade ou algum tipo de curso específico para a área de design?
Sou graduado em comunicação pela ECA-USP, fiz uma especialização em design gráfico na New York University, depois mestrado e doutorado em comunicação digital. Mas minha melhor formação vem do fato de dar aulas (há 16 anos sou professor de Comunicação Digital, Fotografia e Design Gráfico na ECA) e ser, a cada semestre, inquirido e desafiado por alunos brilhantes. Isso me obriga a me reciclar continuamente e buscar formas cada vez mais inovadoras de fazer comunicação, sem deixar de ser consistente.
Não importa o quanto sua formação seja rica, em poucos anos ela se torna senso comum. Aquilo que parecia ficção científica na virada do século - como usar VoIP em um notebook a partir de um carro em movimento ou algo similar - é normal entre adolescentes ou pessoas da Terceira Idade. Por isso eu acredito que a única forma de atingir uma posição de destaque e permanecer nela é o aprendizado contínuo.
3) Um dos capítulos do seu livro cita uma frase recorrente: “qualquer imbecil faz design”. Diante disso, pergunto: qual a importância de se fazer uma faculdade de webdesign? É mais fundamental do que botar a mão na massa virtual?
Se você tivesse lido o capítulo inteiro, perceberia que uso essa frase no título para dizer exatamente o contrário. Um imbecil que não saiba cozinhar pode ter à disposição a melhor cozinha e os melhores ingredientes do mundo que, mesmo colocando a mão na massa por tempo indeterminado, continuaria ruim.
Não digo aqui que aquele sujeito afetado que soubesse todas as teorias culinárias mas que nunca tivesse acendido um fogão fosse melhor, até porque acredito que ele fosse igualmente ruim. Mas que, da mesma forma que não se aprende a guiar ou a fazer uma cirurgia pela prática simples, é preciso combinar uma base teórico-técnica com uma aplicação prática. Só isso pode formar um bom profissional.
A propósito, não acredito em faculdades de webdesign, porque elas são específicas demais. Agora que migramos para interfaces em TV, celulares, games e carros, pra que serve um webdesigner? Na minha opinião é muito melhor fazer uma faculdade de design ou de computação, e se especializar no suporte que for mais adequado através da experiência prática.
4) Quais são as suas principais referências? De onde vêm a inspiração?
Inspiração é coisa de artistas e referência é coisa de músico ou literato. Designers usam a linguagem visual para resolver problemas de comunicação, em um processo fascinante que tem seus momentos dignos de Sherlock Holmes. A maior fonte de idéias costuma estar exposta junto com o problema, como se fossem pistas de um mistério a se resolver: quem é o público-alvo da comunicação? Quais são seus hábitos e gostos? Qual a função da peça? Qual a resposta esperada? Essas perguntas não são limitantes: são, pelo contrário, extremamente esclarecedoras.
5) Qual é o seu conselho para quem está começando e pretende ser um bom designer?
O melhor de todos que eu conheço vem de um aforismo que me disseram ser chinês: “você tem dois olhos, dois ouvidos, dois buracos no nariz e uma só boca. Portanto receba seis vezes mais informação do que pretende emitir. Ou seja, estude muito, leia sobre áreas tão variadas quanto percepção, artes plásticas, fotografia e cinema. Mantenha-se sempre atento, curioso e aberto a novas perspectivas. Mesmo que isso não contribua diretamente para a sua atividade profissional, certamente o tornará uma pessoa bacana.
6) Last, but not least: o que Luli Radfahrer tem feito de bom ultimamente na área do design?
Um monte de coisas que, infelizmente, não são universalmente visíveis: sistemas de projeção gráfica baseados em motion capture, produtos de telefonia e TV digital e uma ou outra coisinha em design gráfico. A maioria delas para clientes estrangeiros.

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Interlúdio

Caros, vou ter que fazer umas viagens em Junho, por isso terei que dar uma pausa neste Blog, em meu Twitter e no DWD:3. Vou tentar postar coisas, mas já aviso que a freqüência terá de baixar um pouco. Quando voltar, trarei coisas boas para comentar - e compensarei pelo tempo perdido.

Enquanto isso você pode dar uma sapeada em posts antigos ou em meus textos. Neles eu procuro, sempre que possível, ser o mais atemporal possível para o tema de que tratam.

Até breve. Blogar é um vício.

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Do jeito que “sinhô” gosta

Siô

Vamos imaginar que você tem uma idéia que é realmente única (e melhor, boa). Pra melhorar sua situação, você conseguiu marcar uma reunião com alguém realmente importante. Não estou falando aqui de um gerente ou mesmo de um diretor ou VP em qualquer nível, mas com o próprio CEO da empresa ou seu equivalente - o Presidente do Conselho ou até mesmo um eventual investidor ou Angel que pode colocar uns milhõezinhos e mais alguns trocados em uma idéia sua, a ponto de fazê-lo viver dela. Isso, um cara importante assim.

Se você acredita que a probabilidade de algo assim acontecer é tão ou mais rara que a de você ser atropelado por um buraco negro no caminho da padaria, pense duas vezes. Estamos em um mundo de competitividade crescente e sobrecarga de inovação, o que faz muitas empresas - tradicionais massacradoras da criatividade de seus estressados funcionários - buscarem novas idéias o tempo todo. E é aí que você entra.

Uma coisa, no entanto, é clara: sua oportunidade será única. E você só terá uma chance de agradar. Sabe aquela mulher linda, sozinha em um bar? Aquela que você nem acredita que existe? Aquela que você precisa pensar rápido em algo inteligente e divertido, se aproximar com segurança e se preparar para o “não”? Pois ela é muito, muito mais impressionável e fácil que um cara desses. (moças, meu exemplo não é machista - é que homens não costumam ter critério e, caso vocês não saibam, basta olharem para eles que a maioria costuma vir atrás, por isso o exemplo não se aplica)

Mas - perguntaria você - por que se preparar para um eventual encontro desses, se ele é tão raro? Por dois motivos, acredito eu:

  1. Se ele acontecer, pode mudar a sua vida. Se não o deixar com os bolsos cheios, pode colocar você a trabalhar naquilo que acredita e isso pode ser o suficiente para você parar de resmungar que seu trabalho / chefe / firma / vida não presta; e
  2. Mesmo que ele não aconteça, a perspectiva pode ajudá-lo a considerar a razão de sua profissão, suas motivações e o que você tem de diferente.

Em outras palavras, é um círculo virtuoso: mesmo que você não tenha a oportunidade de encontrar um cara desses, pensar como um deles certamente não lhe fará mal. E é aí que boa parte do que você conhece por “técnicas de apresentação” cai por terra.

Dicas de falar bem

Uma coisa que nenhum manual de Pauerpóint ou livro de técnicas de apresentação gerencial diz (não que eu tenha lido muitos deles, confesso) é que CEOs não são o bicho corporativo típico. Como sua função na firma é guiá-la e muitas vezes tirá-la do marasmo ou fazê-la mudar de direção sem naufragar, eles precisam, por definição, pensar diferente da formigaiada. Não que sejam “artistas” ou qualquer outra classe de criativos entre aspas - eles ainda têm que tocar uma empresa, e há poucas coisas mais pragmáticas que isso - mas que certamente têm uma forma peculiar de pensar.

O que importa é que para eles, as técnicas de apresentação que você usa são tão manjadas quanto as cantadas de um livro de frases feitas. Como a famigerada mulher bonita, ele não se impressionará por elas.

Nem por seu terno, seu Macintosh, seus termos em inglês ou tecnologês, as tendências internacionais e dados que fundamentam sua proposta ou (ai!) pelos efeitos especiais da multimídia que você apresenta. Muito pelo contrário, se ele perceber que você (e sua idéia) são escravos de uma infra-estrutura qualquer, você já estará 90% fora do jogo.

Isso não significa que você deva rabiscar suas idéias a lápis ou Bic, em um papel impresso do outro lado. Mas que, como no Marketing viral, a riqueza está na idéia, não na qualidade da produção. Da mesma forma que vídeo ruim não é sinônimo de viral, uma apresentação desleixada dificilmente garantirá sua aposentadoria. Mais fácil é pensar o contrário: sua idéia precisa ser tão boa que poderia ser apresentada de qualquer jeito. Se for impecável, tem boas chances de ser irrecusável.

Mas o que move esses caras, afinal? Se eu soubesse com certeza, escreveria um livro, daria consultoria para startups sem noção e estaria rico demais para escrever este blog. O que posso oferecer para vocês, assim, de graça, em um singelo e humilde post, são coisas que percebi no decorrer da minha vida profissional, em que, graças à novidade das tecnologias e efeitos colaterais da “bolha”, tive a oportunidade de apresentar alguns projetos a CEOs. Destes, posso dizer que acertei em alguns e errei na mosca em muitos. O que percebi foi:

  • Senso de oportunidade - como já dizia minha avó, certas coisas não são ditas em determinados lugares. Esses caras são, o tempo todo, abordados por gente inconveniente. Novamente a semelhança com as belas é automática. Se você só tem uma oportunidade e ela é em um, digamos, funeral, esqueça: não há clima. Mas isso não significa que você precise de uma apresentação formal. Para esses caras que têm a antena automaticamente ligada, uma simples e despretensiosa conversa pode dizer muita coisa e despertar o interesse. Nunca espere mais do que isso, por mais que sua idéia seja perfeita para o negócio dele.
  • Pragmatismo - por mais que o discurso da visão da empresa tenha grandes aspirações, esses caras costumam ter os dois pés bem plantados no chão. Se a sua idéia só der lucro, pode até ser que te ouçam. Se ela contribuir remotamente para o desaquecimento global ou para as vítimas de daltonismo na Eritréia ou se representar lucros se o Biodiesel emplacar como combustível mundial, esqueça.
  • Visão estratégica - para guiar grandes empresas ou pilhas de dinheiro, um cara desses precisa ver longe. Como uma aranha a sua teia, ele deve estar conectado com os principais fatores socioeconômicos que envolvem o seu negócio. Se você conseguir descobrir algo que afete algum desses fatores, excelente. Se mais de um deles, melhor ainda. Mas já aviso: esses caras estão cercados de gente procurando exatamente o mesmo que você.
  • Pouco blablablá - para não cair no eterno chavão sobre tempo e dinheiro, prefiro voltar para a metáfora da cantada: quanto mais rápida e intrigante ela for, mais certo costuma dar. Ninguém “convence” alguém a lhe dar um beijo ou algo do gênero. Fernando Pessoa defendia que o mundo é para quem nasce para o conquistar. E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
  • Evite dados - pelo menos aqueles que não sejam significativos. Ele tem gente para estudá-los e, exatamente por isso, provavelmente não se impressionará com seus percentuais e gráficos. Pelo contrário, se aborrecerá - se não ficar com a impressão que aquela quantidade de dados mascara alguma verdade que não quer ser dita. Esses caras não são ariscos e desconfiados à toa.
  • Não fale nada que ele já saiba - repetição só é legal para quem tem menos de 6 anos de idade. A partir daí, é muito, muito chato. Se você não quer que alguém lhe explique como funciona a Internet ou um mouse, por que acha que vai agradar um cara desses ao falar (bobagens, provavelmente) sobre o que sabe do negócio deles? Familiaridade? Isso é coisa de famílias, e não costuma ser bem-vinda quando na boca de estranhos.
  • Procure ser inovador, não barato - a não ser que você seja estupidamente barato. A função de praticamente qualquer escalão em uma empresa é aumentar a eficiência dos processos. Eles não costumam precisar (nem receber bem) aqueles carinhas que vêm de fora cheios de formas de fazer “melhor” algo que eles arrastam às duras penas. Você é necessário para trazer uma revolução. Da evolução eles cuidam, mesmo que lentamente.
  • Argumento-chave - se sua idéia pretende chegar a algum ponto, qual é esse ponto? Se você precisasse explicar o que faz em uma frase, ela caberia no Twitter? E em uma conversa de elevador? Dá para resumir quem você é em uma frase? E o que você faz? E o que pretende apresentar? Sua frase não é longa nem hermética demais? Não minta.

Como disse em um post anterior, boas idéias costumam ser ridiculamente simples. Se a sua (ainda) não o é, simplificá-la talvez seja o caminho mais curto para fazê-la desabrochar.

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Lindo, simplesmente

Sábias palavras, Rita Lee.

Uma confusão recorrente com relação à função do designer é acreditar que ele é responsável pela criação de coisas belas. O termo design, que muitos acreditam ser sinônimo de desenho, na verdade é um pouco mais abrangente do que isso: ele também diz respeito a “projeto” e “desígnio”. Em uma definição resumida, o design é uma forma visual que segue um roteiro bem determinado em busca de um objetivo. Nesses termos, Vinicius que me perdoe, a beleza não é fundamental.

Isso não significa, claaaro, que a feiúra seja um valor. Mas dá uma boa pista do porquê é comum se “enjoar” rapidamente de algumas coisas, pouco importa a sua beleza. Também explica a popular expressão “bonitinho, mas ordinário”.

Em um mundo de crescente especialização, que é cada vez mais difícil alguém se responsabilizar por todo o processo, essa função “holística” do design precisa ser mais detalhada, para que não fique hermética. Dá vontade de falar na pirâmide de Maslow, mas para que o post não fique muito comprido, me restrinjo a citá-la abaixo e fazer dela uma interpretação bastante aplicável em design:

Pirâmide de Maslow

Com base nela, dá para dividir o design em três tipos:

  • Design de experiência busca respostas viscerais. É aquilo que os sentidos percebem imediatamente: aparência, som, movimento. A resposta psicológica também é imediata e potente: ela exprime como o usuário quer se sentir. Está ligada a sua auto-estima e idéia de eficiência.

Jenniffer
“Uau, como isso é bonito / cheira bem”.
Jennifer Connely não é muito diferente de um saco de pipocas

  • Design de finalidade busca respostas comportamentais. Seus produtos ou serviços representam a legítima “extensão do homem” e estão diretamente ligados à usabilidade e aos objetivos que ele pretende realizar.

Câmbio Automático
“Não sei como conseguiria viver sem isso”
. Câmbio automático, ar condicionado, telefone celular são vistos como “frescura” até que você os tenha.

  • Design de estilo de vida busca respostas aspiracionais. É o mais difícil, pois pretende construir relacionamentos de longo prazo. Representa as aspirações pessoais que se estendem muito além do contexto do produto. Quem os tem busca “ser” algo.

Harley
“Você tem que entender, meu bem, que esta não é qualquer moto / caneta / câmara / bolsa”.
Fica muito mais fácil explicar o fenômeno iPod/iPhone desse jeito.

Até aí parece óbvio, mas vale a pena destacar que nessa sociedade de valores platônico-judaico-cristãos ainda repressores, é “feio” e pega mal, perante tanta injustiça no mundo, alguém gostar de algo belo, simplesmente. Pior ainda aquele que gosta de um símbolo de status para lhe reforçar a auto-estima. Por isso as pessoas mentem descaradamente: para si mesmas, para seus entes queridos, para as pesquisas de mercado:

Desejo e declaração

Nessa linha de raciocínio torto, o único investimento que parece justificável é aquele que, por obedecer a uma finalidade específica, admite uma explicação racional. Compram-se Armanis e MontBlancs por sua “qualidade”, não por serem belíssimos símbolos de status.

“Até aí, cada um com sua consciência”, diria você. E eu não tenho como negar. Mas se você trabalha com comunicação, tome cuidado: pode ser que aquele produto que não venda bem esteja a usar os argumentos errados.

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