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6. Arquitetura de informação

Ninguém em sã consciência pensa em construir uma casa sem pelo menos trocar uma idéia com um arquiteto. O mesmo vale para reformas estruturais, como mudar a rede hidráulica ou a montagem de um prédio comercial. Os motivos são pra lá de óbvios: sem planejamento as paredes podem ficar tortas, janelas podem dar para o vazio e quartos podem dar inveja a clausuras de convento. Na melhor das hipóteses, uma casa construída sem planejamento tem janelas sem sol, quartos quentes e portas abrindo para o lado errado. Pena que, quando o assunto é internet, poucos pensem em um planejamento da informação, por menor que seja.

Muitos websites acabam virando o equivalente digital das casas de uma favela ou aldeia medieval, em que um quarto se emenda em outro em um labirinto confuso e tortuoso. A maioria das pessoas que os constrói se procupa com o layout das telas, com as tecnologias que ele pode suportar, com sua capacidade de atualização tecnológica e até com sua manutenção periódica, mas esquecem de sua estrutura. Ou seja, preocupam-se com tudo menos com o pobre do visitante, que se perde em montanhas de páginas, links e efeitos até chegar na informação que estava procurando, se der sorte. Muitas das pessoas que enjoaram da internet reclamavam da dificuldade de acesso à informação. Parece loucura: uma rede que foi feita para facilitar a comunicação pecando pela dificuldade de acesso à informação.

A maioria dos conteúdos dos endereços digitais é “departamentalizada”, classificada em grupos com pouca mobilidade entre as seções, subdividindo e especializando a informação, como em sistemas de informática. Mesmo quando a interface é divertida ou bonitinha, a navegação peca, ficando presa a uma camisa de força estrutural, triste de se ver.

Um site deve ser leve, como dança. E não estou falando só de imagens. A estrutura, o encadeamento, o texto, todo seu conteúdo deve ser transmitido de uma forma sedutora e persuasiva. Mais do que isso, sua estrutura deve passar despercebida, para que o conteúdo, e só ele, apareça. E isso não é nada fácil.

Antes de se fazer um website é preciso planejar sua estrutura e mapa. Isso se faz com lápis e papel, imaginando as principais áreas e suas conexões. Todo site, por menor que seja, tem que ter um diagrama com tudo o que existe nele. Só assim dá para conhecê-lo rapidamente e ter acesso a todas as informações. Muitos endereços substituem o mapa por um mecanismo de busca ou por um questionário. Isso, na maioria das vezes, não funciona.

É como entrar em uma loja de CDs e, em vez de ver produtos expostos, encontrar um funcionário perguntando o que se quer comprar.

São comuns os websites do tipo “beco sem saída”, em que o único caminho é voltar para a Home Page. Ou aqueles em que o visitante é forçado a passar por várias páginas intermediárias, sem conteúdo, até chegar à informação. Ou aqueles cujos links não funcionam.

É para acabar com esse tipo de problema que existe a Arquitetura de Informação, que visa a organização de grandes massas de dados, preparando rotas de acesso a eles. Ela está se mostrando fundamental em coleções de produtos como livros de referência, supermercados, lojas de CDs e de departamentos, catálogos, sites na internet e CD-ROMs. O nome é pomposo, mas a função se baseia em um conceito simples, que é o mesmo do design: o bom senso. Uma arquitetura eficiente torna a informação acessível e compreensível a outras pessoas, qualquer que seja seu nível de conhecimento. Como os maravilhosos museus de ciência e história natural, ela transforma o que é complexo em pedaços simples e estimula seu desenvolvimento.

Latch: opções de organização

Não se pode falar de Arquitetura de Informação sem citar o pai da matéria: Richard Saul Wurman, que cunhou o termo e seu conceito em 1975. Segundo ele, o que faz a comunicação possível é a possibilidade de identificar, em seu interlocutor, o que ele não compreende, verificar se há algum interesse em compreendê-lo e descobrir a melhor estrutura para transmitir a informação. Essa informação deve se relacionar com conceitos que ele já compreende e trazer alguma vantagem no processo.

Na introdução de seu livro Information Architects, Wurman define poeticamente a avalanche de dados dos tempos modernos, comparando-a a uma tsunami, onda gigantesca provocada por terremotos submarinos:

Há uma tsunami de dados quebrando nas praias do mundo civilizado. É uma onda de informação não relacionada e crescente, formada por bits e bytes vindo em uma desorganizada, incontrolável, incoerente cacofonia de espuma. Nada nela é facilmente relacionável, nada vem com organização metodológica. À medida que ela quebra nas praias, vemos pessoas com suas calças e sapatos molhados, andando estupidamente em direção à água, sorrindo — um falso sorriso de confiança e controle. A tsunami é uma parede de dados — dados produzidos em uma velocidade cada vez mais rápida, em volumes cada vez maiores para se armazenar. Volumes que aparentam dobrar a cada dia. Mais rápido, mais e mais e mais.

Para Wurman, as formas de se organizar informação são finitas e sintetizadas pela sigla LATCH: Local (mapas), Alfabeto, Tempo (períodos históricos e linhas de tempo), Categoria (grupos genéricos, como “verduras” em supermercados ou “vitaminas” em farmácias) e Hierarquia (do maior para o menor, do mais claro para o mais escuro).

Só cinco formas, veja você. Qualquer outra forma que tentei acabou recaindo em uma dessas acima. É claro que podemos combiná-las em diversos níveis. Uma lista telefônica de assinantes (páginas brancas) só é organizada por ordem alfabética. Uma lista classificada (páginas amarelas) pode ser organizada por local (cidade, bairro ou região), depois por categoria de serviço (com todas as categorias listadas em ordem alfabética) e, dentro de cada uma delas, os profissionais e empresas também organizados por ordem alfabéticas.

Por toda parte é assim: outro exemplo são os catálogos de carros usados, divididos por categoria, fabricante (também uma categoria), tempo de uso e preço (hierarquia). Supermercados organizam seus itens por categoria, farmácias empilham seus remédios em ordem alfabética, pessoas são atendidas nos restaurantes por ordem de chegada e assim por diante. A escolha do critério de organização é fundamental. Já imaginou usar trocá-los?

Pense nos sites que está fazendo. Quais são os grupos de informação envolvidos? Como eles podem ser organizados? Às vezes na escolha do critério de organização está a solução criativa que fará com que o site se destaque. De qualquer forma, os dados devem estar organizados por relevância, ou seja, por terem algum ponto em comum e poderem ser interligados à experiência do leitor.

O processo de Arquitetura de Informação

Por determinar os roteiros que o usuário poderá percorrer dentro de um site e sua relação com o sistema, a Arquitetura de Informação também é chamada de Design de Interatividade. Existem vários processos para se planejar a arquitetura de informação de uma grande massa de dados. O que uso envolve as etapas:

1. Identificação do problema;
2. Classificação de suas particularidades;
3. Levantamento de dados;
4. Definição de estruturas hierárquicas (LATCH);
5. Aglutinação de temas relevantes;
6. Estudos de navegabilidade; e
7. Pontos de interatividade.

Com esses tópicos bem detalhados dá para se ter uma noção completa do universo de informação disponível. A partir disso definimos o mapa de estrutura do sistema, que pode ser feita como um organograma, como um grupo de conjuntos matemáticos e suas intersecções ou usando um conjunto de círculos concêntricos móveis para definir sua estrutura organizacional, tanto faz. O importante é mostrar os caminhos que o usuário possa percorrer no sistema.

Esse processo não é uma obra pessoal nem artística. Ele deve considerar o conteúdo e como a informação servirá ao usuário. Independente da vontade do designer, deve se concentrar na resolução de problemas. Com o progresso dos sistemas digitais e das interconexões de hipertexto, é importante dar às pessoas ferramentas cerebrais para a administração dos vastos volumes de informação que surgirão nos próximos anos.

Design de informação: visualizando estruturas

Pronta a estrutura de informação, é hora de torná-la visível, avaliando seu contexto e deixando o usuário à vontade nesse ambiente desconhecido. É aí que entram as barras de navegação e seus ícones ou textos. Essa é a parte mais importante da estruturação de uma interface e, por mais incrível que possa parecer, é normalmente a mais ignorada.

Muitos designers de sites (e mesmo de comerciais de TV interativa e DVDs) estão tão preocupados em criar um layout harmonioso que parecem se esquecer que os produtos digitais devem ser funcionais, pois tratam suas barras de navegação como meros elementos acessórios do design. É sempre bom lembrar que, por mais bonito que seja o site como um todo, é na barra de navegação que seu usuário vai concentrar sua atenção. Afinal, por mais bela que seja a pintura de um carro, é para o painel e para a direção que olhamos quando estamos guiando.

O design de informação é a sinalização que torna claros os ambientes e suas divisões, facilitando a compreensão. As placas de orientação nas gôndolas de um supermercado, como as barras de navegação e ícones de websites, são formas de organizar as estruturas de navegação em um ambiente. Elas identificam a lógica implícita na disposição do ambiente físico (e, se não houver, a criam) e ajudam seu usuário a identificar onde está e para onde quer ir, o que torna sua experiência mais agradável.

No meio impresso os elementos usados para isso são os títulos, legendas, gráficos e fotos que ajudam o leitor a se orientar na página. Na web são botões, ícones, barras de navegação, mapas do site. Como não há estrutura fixa, esses elementos são fundamentais, e sua posicão precisa ser sempre a mesma, seja qual for. Afinal de contas, em um ambiente virtual, o design de informação é tão fundamental quanto a arquitetura em um prédio: é ele que determina as relações entre os espaços.

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