Você certamente já viu crianças brincando de fotografia ou cinema. Lembre-se como elas fazem pequenas molduras com as mãos para enquadrar as cenas. Na realidade elas não estão reunindo nada, só isolando o ambiente à volta do espaço que pretendem analisar. Se há algum princípio de design, deve ser esse: realçar características individuais de objetos e destacá-los do ambiente com bom senso. Com essa idéia na cabeça é muito mais fácil.
Mas como bom senso e observação são conceitos vagos demais, vamos a dados mais objetivos. Antes de começar a trabalhar, é necessário que o designer conheça bem seu produto. Para isso ele deve levar em consideração:
• Objetivos – qual é o tipo de produto e
o que se pretende com a comunicação;
• Público – para quem é a comunicação;
• Conteúdo – o produto em si;
• Formato – suas dimensões e proporção; e
• Resposta – o que se pretende com ele.
A comunicação só terá valido se o público ficar com vontade de fazer alguma coisa depois de ver a interface: clicar botões, mandar e-mail, participar, interagir.
Objetivos: para que serve o material?
Toda ação de comunicação deve visar a alguma coisa: expor o produto, destacar suas características, preço, condições etc. Por isso sua intenção precisa estar bem clara para não deixar dúvidas. Um material de venda deve falar de preços e condições, um institucional falar da empresa e sua atuação, um informativo ser imparcial etc.
Para que uma tarefa fique bem realizada é necessário definir um objetivo. Não existe nada mais irritante que um comercial indeciso. Eles são como pessoas que não sabem o que querem: uma enorme perda de tempo. Outro erro são os materiais disfarçados, que têm um objetivo e fingem ter outro. O consumidor pode até se distrair a princípio, mas logo acaba desmascarando a intenção e daí fica chato.
A melhor estratégia de comunicação é a verdade: mostre o melhor que o produto tem e diga o que quer diretamente, como fazem pessoas produzidas para uma festa. Se o consumidor não estiver interessado, não perderá tempo nem se irritará com você. Caso contrário, grandes serão as chances de uma enorme aporrinhação.
Você sabe com quem está falando?
Cada mensagem a seu público: crianças, não acostumadas a grandes volumes de texto, precisam de letras legíveis e grandes. Adolescentes preferem recursos multimídia e fotografias coloridas. Na maioria dos casos, eles já têm ou não se importam em baixar um plug-in, mas são muito bem informados das novas tendências visuais e não suportam (nem respeitam) uma cópia. Se a publicação for técnica, os fluxogramas e fórmulas devem tomar lugar de destaque, e assim por diante.
Não existe nada mais ridículo que velhos se fazendo passar por adolescentes. Cada grupo social ou de interesse específico tem sua linguagem própria, com códigos especiais. Quem nunca participou de uma sala de chat pode achar estranho algo como oi, pessoALL, alguém quer tc comigo? ;-) M@rina. Todos os anúncios de sabão em pó parecem ter a mesma cara, todos os anúncios de surfwear também. E nem o designer mais desmiolado pode imaginar um com a cara do outro.
A velha filosofia de guerra japonesa afirma que “se você conhece a si próprio e a seu inimigo, vencerá todas as batalhas. Se conhece a si próprio, mas não conhece a seu inimigo, para cada vitória sofrerá uma derrota. Se não conhece nem a si próprio nem ao inimigo, perderá todas”.
Por isso, antes de se mostrar ao usuário, questione-se: A quem sua interface se dirige? Qual é a cara — hábitos, influências e referências — do seu público? Se você não sabe, descubra para não passar ridículo. Consulte referências do que eles acham legal e do que acham vagabundo. Quanto maior for a identificação, mais adequado será o design. O público poderá até rejeitá-lo, mas certamente irá ouvir a mensagem. Vale lembrar que o design deve ser “transparente”, ou seja, fazer com que o produto apareça por suas características próprias, e não ter uma idéia gráfica e tentar encaixar o produto dentro dela, por mais artístico que isso possa parecer.
Ou seja: antes de criar é necessário ouvir o público, tentar identificar seus costumes, valores e referências.
Do que mesmo você estava falando?
O que está escrito no texto? O design deve refletir seu conteúdo, para que o leitor já saiba do que se trata antes mesmo de ler a primeira palavra. Isso funciona como a expressão das pessoas quando as encontramos: desanimadas, eufóricas, cansadas, desiludidas, tristes, apaixonadas, nervosas… imagine a frase “não me falta mais nada” para cada uma dessas expressões.
Um layout eficiente pode funcionar como uma expressão facial: para cada tipo de mensagem, uma cara diferente. Um material diagramado para falar de sabão e limpeza de pele não pode ter a mesma solução de design de um falando de guerra civil.
Formato: dimensões e adimensionalidade
Qual o tamanho e as dimensões do seu layout? Revistas, cartazes, folhetos, outdoors e comerciais de TV têm caras completamente diferentes. Mesmo na internet, as “páginas” web podem ser quadradas, compridas ou largas. Ou uma combinação de todas essas formas. Que um cartaz deve ter menos texto que uma página de jornal é razoavelmente evidente, mas como devem ser dispostos os elementos de forma que o layout não fique pobre ou poluído? A fórmula mais segura é criar um projeto para cada peça a ser produzida e não adaptar uma mesma solução para diferentes formatos.
Os formatos comuns variam das proporções 1:1 até 1:2 e são os de consulta mais fácil. Dimensões estranhas podem causar mais impacto, mas são mais difíceis de se operar.
A toda ação corresponde uma reação
O que você quer dizer com seu layout? Que tipo de emoção quer estimular? Seu consumidor pode amar ou odiar o seu trabalho, mas não deve ficar indiferente a ele, caso contrário a comunicação não valeu. Se o importante são as emoções, que emoções valem a pena? Empatia, compreensão, simpatia, admiração? É tarefa do designer descobrir o que cada produto tem de exclusivo, especial, e evidenciar isso na comunicação. Não existe um assunto absolutamente lugar-comum por todos os pontos de vista, é necessário descobrir seu valor.
Descoberta a mensagem, como tratá-la? A tônica (ou jeitão) da comunicação deve ser evidente à primeira vista, pelo menos na maioria dos casos. Um material irônico não deve ser apresentado como sério, tragédias não devem ser diagramadas como se fossem grandes brincadeiras. Faça o falso ser evidente, senão pode parecer um defeito. Um tomate marrom é considerado um defeito. Um tomate púrpura é um efeito.
Por isso, ao elaborar um layout, o designer deve ter em mente qual a reação que quer provocar no leitor e manipular esse sentimento, estimulando-o ou o atenuando à medida que a percepção avança. É na eficiência deste controle que está a habilidade de comunicação. O estímulo de resposta é o que diferencia belas obras herméticas de trabalhos verdadeiramente estimulantes.

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