Apesar do muito que se fala de comunicação digital (e de como ela não respeita as tradicionais estruturas lineares e dimensionais) não existe comunicação não-linear. Mesmo que os estímulos sejam os mais variados possíveis e a percepção do leitor seja extraordinária, a multiplicação das mensagens e possibilidades de conexão gera uma comunicação que permite vários caminhos possíveis, mas nunca dois ao mesmo tempo, pois quando visualizamos um texto fora de seqüência, imaginamos imediatamente outro, “corrigido”, em seqüência. Isso é fundamental para quem pretende criar conteúdo em hipertexto.
O que chamam de comunicação não-linear, portanto, pode ser melhor descrito como uma forma de expressão que permite várias seqüências possíveis, todas lineares (multilinear) ou comunicação multidimensional, organizada em camadas, como páginas de texto impressas em papel transparente, que oferecessem ao leitor vários textos.
Ele não precisa começar em um ponto específico nem ter final. É certo que deve começar em algum lugar, mas a home page não é obrigatória. Não há a necessidade de uma seqüência, nem da divisão do conteúdo em departamentos fixos e estanques, muito pelo contrário. A hierarquia pode ser móvel, alterando conforme o interesse do visitante. Além disso, as telas podem ter ordem aleatória. Um visitante pode ver como “primeira página” uma mensagem do interior do site e visitá-lo de dentro para fora.
Pode parecer estranha a proposta de uma narração sem começo e com várias seqüências possíveis, mas é exatamente o que acontece quando conversamos ou discutimos com outras pessoas: o começo da conversa é simplesmente o início da comunicação, não o começo da história. Como cada pessoa pode criar relações a partir de cada ponto do texto, e como essas relações podem ligá-lo a outros textos, outras partes do mesmo texto ou mesmo a outros pontos de sua experiência pessoal, não existirá uma seqüência obrigatória de assuntos e, por suas conexões, não haverá conclusão, pois sempre existirá um outro texto de continuação da narrativa.
Até mesmo uma história sua qualquer, do tipo cara, ontem me aconteceu uma coisa inacreditável… vai recorrer a episódios anteriores e fazer pausas para explicar certos pontos de destaque. Isso acontece porque o tempo é contínuo, e as coisas não começam nem terminam em lugar algum. Muitas vezes você conta um fato para alguém e depois tem que ficar um tempão explicando alguns detalhes para a história fazer sentido. Outras pessoas são famosas por contarem histórias que nunca terminam.
Conclusão
Isso tudo me faz pensar na questão da conclusão: é necessária uma conclusão, um final para todas as narrativas? Na vida real isso não acontece: qualquer história se conecta com outras, divide personagens, busca referências, depende de pontos de vista e tem um final aberto. Mesmo os contos de fadas, que começam com “era uma vez” e terminam com “…e viveram felizes para sempre” se apressam em definir que o bandido é malvado e o mocinho, bonzinho.
Por uma limitação tecnológica aprendemos que os livros, filmes e documentários devem ter um final, mesmo que seja um “the end” ou “game over”. Enquanto isso, na vida real as pessoas continuam interagindo com outras e com o meio, e a história nunca tem fim, pois é um processo orgânico, contínuo, interativo e influenciável.
Enquanto livros e filmes devem ter seu final, documentos de hipertexto podem prosseguir à medida que haja interesse, abrindo conexões para outras histórias. Por isso, ler uma narrativa de hipertexto pode tomar muito mais tempo que ler uma narrativa convencional. Ou levar menos de um décimo. Por não ter divisões e cortes claros entre os episódios ou linhas narrativas, existem poucos pontos em que o leitor pode interromper temporariamente a leitura ou dar por terminada uma versão entre as várias possíveis.
Além de tudo isso o leitor deve decidir a cada conexão se deve ir em frente ou se desviar de seu caminho. Ir para a frente pode levar a movimentos circulares ou a voltar a um momento anterior.
Desesperador? Formidável! São essas possibilidades que podem ser exploradas e nunca foram tentadas. Veja uns possíveis modelos de hipertexto:
Histórias interativas / participativas
Um sistema de hipertexto via internet permite a construção de uma história multi-autoral, ou seja, um texto com muitos autores. O autor tradicional muda de postura e se torna um coordenador.
Ele cria uma linha narrativa básica e alguns personagens com histórico e caráter difuso. Publica os três primeiros capítulos para que o leitor tenha uma idéia dos personagens e de seu ambiente. Depois abre a narrativa para que qualquer pessoa possa inserir trechos, sugestões ou personagens à narrativa principal, que passa a ser uma grande história coletiva.
A estrutura é parecida com a de jogos de salão em que um participante começa uma frase, que é continuada por outro, até que todos os integrantes tenham falado e se chegue a uma história totalmente diferente da planejada. A obra coletiva é pública e qualquer colaborador que não concorde com os rumos da história pode criar narrativas dissidentes.
Lego
Um hipertexto ainda pode funcionar como os blocos LEGO: o leitor é apresentado a um conjunto de pequenos textos, imagens, sons e vídeos, com a opção de combiná-los à vontade até construir uma história sob medida, faça sentido ou não. A essa história podem ser acrescentados vários elementos para montar um conjunto. Desse conjunto, ou de suas partes, outros se apropriarão e, construindo seus próprios blocos, formarão uma estrutura auto-alimentada sem final.
Esse processo pode ser novidade em comunicações, mas é bastante utilizado em lógica de programação matemática. De certa forma é o que certos roteiristas de cinema fizeram sobre o trabalho que diversos roteiristas de quadrinhos fizeram sobre a história e os personagens originais de Batman&Robin.
Uma grande galeria
Um dos maiores problemas dos museus do mundo é seu acervo: como consegui-lo, transportá-lo, fazer seu seguro e exibi-lo com segurança. Outro problema é sua eficácia: como transmitir os dados de uma forma didática para cumprir sua função social?
Uma galeria virtual pode ser a solução. Como um sistema digital não precisa obedecer às leis da Física, pode-se criar um ambiente em que uma sala é maior que o prédio inteiro ou que o museu se transforme em uma sala de aulas ou conferências a qualquer instante.
Nesse exemplo, ao “entrar” na galeria (acessando seu endereço digital) o visitante teria acesso a um conjunto de obras de destaque — como uma exposição. Se alguma obra o interessasse, poderia examiná-la com mais calma ou conhecer o “acervo permanente”, um conjunto de obras espalhadas pelos melhores museus do mundo.
O museu teria diversas “salas”, dedicadas a movimentos, pintores e técnicas. Em cada sala, diversos quadros estariam expostos. De cada obra examinada o visitante poderia ler textos / ver vídeos sobre seu autor, movimento e técnica. De uma técnica, ver outras obras usando técnicas semelhantes, mesmo que se chegue a movimentos diferentes. Em movimentos diferentes, ver autores diferentes e técnicas diferentes, em uma espiral recursiva sem fim, acumulando dados e informações ao conhecimento do visitante.
O projeto da galeria vale para qualquer processo, da macroeconomia à indústria de pães. Só é necessário organizar sua informação.
Múltiplos pontos de vista
A maioria das histórias que conhecemos nos é apresentada sob um único ponto de vista, seja ele um narrador neutro onisciente, um personagem ou mesmo um mero observador. Um sistema de hipertexto permite que uma mesma história seja apresentada sob diversos pontos de vista, em diversos momentos, dando uma abrangência muito mais ampla e uma compreensão melhor do assunto.
Imaginemos uma história com cinco personagens em cinco episódios / momentos / capítulos. Teremos uma seqüência linear de elementos.
Se a mesma história for contada de cinco formas diferentes, uma para cada personagem, teremos vinte e cinco capítulos.
Se o autor fizer pequenas alterações na estrutura do texto, dando ao leitor a possibilidade de começá-la em um capítulo aleatório e seguir em qualquer seqüência, os mesmos vinte e cinco capítulos poderão gerar 3125 histórias possíveis (55). Ao acrescentar a opinião de um narrador em mais cinco capítulos pode-se gerar 15.625 histórias (56) e assim por diante.
Com um pouco de esforço de roteiro e estruturação, os capítulos de uma história podem não ter fim, serem misturados às experiências dos leitores em um exercício único de comunidade. Esse processo é, em parte, usado na formação e estruturação de comunidades virtuais.
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