TENDÊNCIA Nº 16: VALOR.

Projac. Todas as estruturas não são o que parecem. Ou vice-versa.
A convite do genial Manoel Fernandes, fui parar no Rio e visitei o PROJAC da TV Globo. Aquilo é impressionante, um verdadeiro País das Maravilhas, mas isso é outra história. Não fui lá para ver os enormes cenários ou caçar autógrafos de alguma aspirante a atriz-modelo-manicure, mas para assistir a uma palestra do Henry Jenkins, autor do livro “Cultura da Convergência”.
O cara é bacana, bem inteligente e tem referências boas, mas em vários momentos sua palestra me deixou com uma sensação estranha. Algo não me parecia direito, o raciocínio claro e bem fundamentado parecia apontar para a direção errada. Com essa inquietação em mente, acompanhei sua palestra.
Seguem alguns trechos de minhas anotações:
Segundo o Jenkins, a convergência da mídia é indiscutível, um imperativo econômico. Acho esse argumento um pouco radical demais, ainda mais em épocas que tanto se fala de cauda longa. Se a convergência fosse uma tendência indiscutível, livros e fotografias estariam extintos há um bom tempo.
O modelo que sempre preferi ver mídias e tecnologias foi o de um ônibus: se está vazio, qualquer um entra e se acomoda folgadamente. À medida que enche, os lugares se tornam mais apertados até que chega o ponto em que alguns pedem para sair. Fax e CDs, por mais modernos que fossem, não conseguiram sobreviver à escalada da relevância.
O que é indiscutível, no entanto, é que a convergência é uma realidade à medida que tecnologias portáteis (que podem ser transportadas, como um Nintendo DS), portáveis (que podem transportar grandes volumes de dados sem esforço, como pen drives), interativas e conectadas são uma realidade. E que nunca na história da produção de conteúdo houve um fenômeno de integração tão potente.
E novo.
Ao juntar-se as peças, pode-se criar uma trama interessante de complexidade e profundidade. Ou simplesmente uma enorme confusão. Sedenta por chamarizes de leitura, a mídia sempre alardeia cada nova novidade como se fosse a reinvenção da roda. Mas não se pode negar que exista uma curva de aprendizado e são poucas, bem poucas as iniciativas pioneiras que já começam campeãs.
Daí cabe àqueles que abraçaram as mídias de primeira o fardo de filtrá-las e separar nelas o que realmente presta do que é só um grande saco sem fundo. Como muito bem disse o Manoel, “o papel do Blog é condensar a histeria coletiva em torno do oba-oba”. O problema é que são bem poucos os que realmente o fazem.
Não é à toa que estamos atolados em ansiedade de inovação. Pois justo agora que, mais ou menos aos 18 anos de vida, nos acostumamos aos links de hipertexto e páginas HTML, a conexão com histórias cruzadas, abertas e segmentadas tem potencial para criar uma nova forma de experiência. Mas daí a ter essa experiência assimilada por tanta gente a ponto de eliminar formas mais lineares de experiência eu acredito que seja um chute um pouco Jabulânico. Universos de imersão como os Warcraft da vida são sensacionais, mas ainda são consumidos pelas mesmas pessoas que vêem Toy Story e lêem revistas.
É incrível como esse filme, apesar de genial, se tornou leeeerdo… dá vontade de assisti-lo com o dedo no botão de FF.
Voltando à palestra, o Jenkins partiu de uma definição curiosa, porém bem interessante, de transmídia: como as histórias vivenciadas são naturalmente mais fáceis de lembrar, o uso de boa parte do que chamamos de marketing promocional e licenciamento é, na verdade, uma forma de transportar as narrativas de uma mídia fixa, finita e não-interativa para um jogo vivido. Ao brincar com personagens, dialogar com eles e removê-los de seu contexto original, seus arquétipos ganham vida e sua história passa a fazer parte ativa do ambiente daquele que antes era simplesmente um espectador passivo.
Em outras palavras, quando você se perguntava se o Homem-Aranha batia no He-Man, os modelos de vida, valores e universos desses personagens passavam a se misturar com os seus. Em crianças essa construção é muito importante, porque a linha do real e a do imaginário ainda está borrada. Pais que usam a TV como babá perdem a chance de criar grandes personalidades enquanto lobotomizam seus potenciais em teletubbies ou equivalentes. Não espanta que seus filhos, quando crescidos, não desejem outra coisa além de vestir um terno e trabalhar 43 horas diárias em um escritório em Londres ou Nova York. Que caipirice.
Mas isso não impede quem tem filhos pequenos de ler boas histórias e inventar personagens, nem que sejam em redes sociais. Como poucos têm tempo para isso, é uma pena que não exista uma adaptação decente da obra completa de Shakespeare ou Dickens para crianças. O que Walt Disney fez foi um bom começo, mas confesso que adoraria ver minha sobrinha de seis anos trocar a Barbie pela Desdêmona ou pela Julieta.

Pronto: você conseguiu a desculpa que precisava para aquela coleção de bonequinhos que sua mãe / namorada / chefe / filhos acha rrrrridícolos: são experiências narrativas transmidiáticas. Ou você pode vê-los como um fetiche de adulto com fixações deslocadas. Pensando bem, é melhor não tocar no assunto.
Action Figures, segundo o Henry, são objetos de transmídia, mesmo que não tenham sido feitos com essa intenção. Eles expandem a história. Cada um deles carrega parte da personalidade do personagem da TV, parte da imaginação do telespectador imposta sobre eles. Os bonecos são interessantes porque permitem a reencenação de narrativas, com várias variações sobre seus temas, personagens e atitudes.
É um exemplo divertido de reprodução fiel com personagens diferentes.
É uma dublagem divertida, se bem que eu ache essa aqui mais “independente”:
Nada disso é particularmente novo.
O Cartoon Network e a MTV já fazem isso faz tempo:
O fato é que histórias, rituais, mitos, jogos e muitos esportes têm suas origens em rituais de sociedades tribais. Poderia falar mais sobre isso, mas prefiro deixar isso para quem sabe mais (Huizinga). Por mais que a TV colonize a imaginação, ela também povoa a imaginação com personagens que podem dar origem a múltiplas reinterpretações, como os quatro Nerds e a Penny do The Big Bang Theory.

Este é outro exemplo bom de subversão criativa, com frases que ficam geniais quando removidas de seus contextos originais.
Bons personagens de boas histórias, quando transformados em valores ou modelos, transcendem o ambiente em que foram narradas e se misturam com a vida real de seus leitores, são comentadas em festas e passam a ser presentes na família. Se não como seus membros, muitas vezes como vizinhos ou visitantes de passagem. É por isso que tragédias como a do pai da Isabella e do goleiro Bruno são tão populares. Como o 23º divórcio na 22ª festa de uma “celebridade” qualquer que não tenha feito nada de mais além de ler um texto decorado na frente de uma câmara e posar para fotos, essas pessoas de mídia são bonecos, personagens que habitam o imaginário.
Poucos se dão conta que uma grande parte da mídia é consumida com o único objetivo de se ter o que falar no dia seguinte, saber o que está sendo comentado e dar sua opinião, sem maiores implicações práticas na vida. Em Um Estudo Em Vermelho, Watson se surpreende ao perceber que Sherlock Holmes não sabia que a lua orbitava a terra. A resposta do grande detetive não poderia ser mais chocante e, de certa forma, correta: “agora que eu sei, vou me esforçar para esquecer. Essa informação não tem aplicação prática.” Por mais que o Sherlock tenha sido criado para parecer uma mistura daquele maluco-junkie-enrustido do Robert Downey, Jr. ou daquele outro maluco-junkie-enrustido do Gregory House, M.D., em frases como essas ele parece muito mais o Sheldon.
A carência, já diziam, é a mãe da invenção. Na falta de conjuntos completos de personagens com todos os seus acessórios, as crianças são forçadas a criar histórias cruzadas entre vários personagens, situações e universos que nunca se encontrariam no universo fictício para que foram projetadas. Uma história entre o Ben10 e o Bob Esponja, por exemplo, na falta de bonecos para representar um vilão.
Mas, então, o que há de novo? Na crise global de mídias e no esfarelamento das audiências, muitos inventores de histórias começam a procurar uma ruptura na forma com que as narrativas estão sendo transmitidas, à medida que dispersam elementos inteiros de um universo ficcional por canais múltiplos, em busca de uma experiência unificada e integral, em que cada meio dá sua contribuição individual para o desdobramento da história.
ARGs são um bom exemplo disso.
Mas não confunda a história em muitos canais com o personagem espalhado por aí. A Suzana Vieira vendendo detergente Ypê não faz com que você imagine a tia lavando a sua louça, muito pelo contrário: enfraquece o personagem, dilui a mensagem e quebra a história. Para o imaginário, tem o mesmo efeito de se ver o Papai Noel vestido em trajes civis. Transmedia branding, um termo metido a besta para bobagens como cereais de Star Wars, usado por marqueteiros que a-do-ram palavrinhas em inglês, não enriquece a narrativa. Ou você consegue imaginar o Darth Vader, com aquele capacete, comendo uma meleca embebida em leite, com uma colher? Talvez usando a capa de guardanapo? Ack!

O personagem, enfim, é genérico. A partir do instante que ele tem força para habitar o imaginário de seu espectador, sua narrativa passa a ser uma co-criação. E o controle, como quase tudo nas mídias sociais, está nas mãos de seus usuários.
Voltando ao Jenkins, ele define sete conceitos importantes para a narrativa transmidiática, que eu prometo explorar no próximo post.
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