Design, Textos

Se o Twitter fosse feito por uma agência

Chega na criação mais uma demanda em cima da hora. O cliente, daqueles executivos de startups, havia pedido o projeto fazia mais de um mês, mas o trabalho tinha encrencado em praticamente todos os departamentos a caminho da cozinha. Os executivos de conta, por exemplo, questionaram a verba, finalidade, público-alvo, ROI, nicho de mercado, adequação e adaptabilidade, cenários e modelos de co-branding associativo para ampliar o mindshare, embora nem mesmo eles soubessem definir com precisão o que esse último termo significava.

O pessoal de planejamento e pesquisa não foi lá muito diferente. Logo de cara eles fritaram uma bela verba para “amadurecer a idéia”, formando grupos de pesquisa e foco com várias divisões atitudinais,  etárias e sociodemográficas em todo tipo de mercado-teste possível. Em brainstorms que pareciam intermináveis, eles debateram muito se “o SMS da Internet” seria um melhor conceito que “o SMS da WWW”.

Estratégias e powerpoints se perdiam em um acumulado de reuniões internas, externas, com fornecedores, mídia, clientes e adolescentes que, afinal de contas, deveriam saber de tudo que dissesse respeito ao digital. No meio dessa confusão, alguém teve a feliz idéia de pedir um layout, mesmo sem saber ao certo o que queria nele. Pelo menos assim teriam algo para mostrar ao cliente.

Mas não seria tão fácil. O novo Vice-Presidente Executivo de Criação Sênior para o Cone Sul, apelidado de “vice” em homenagem à sua competência inversamente proporcional a seu sentimento de auto-importância e recém-chegado de uma experiência internacional em Londres (que as más línguas dizem que se resumiu a dois meses de muito papo, até que os chefes de verdade arranjassem um jeito de mandá-lo de volta sem chamar a atenção das más línguas) sentenciou que a idéia estava muito “bubbly” e deveria ser mais “frizzy”. Antes que alguém perguntasse o que raios ele queria dizer com isso, ele pediu desculpas para se ausentar porque tinha um encontro com o personal trainer do seu poodle.

Nesse meio-tempo o redator, solícito, salpica o slogan “Você. Online. Agora. Mesmo.” e o defende com argumentos inquestionáveis sobre a semiótica da semântica de cada termo, suas variações e combinação. Se ele não tivesse usado o mesmo slogan na semana passada para defender um serviço de disk-natchos, talvez até soasse convincente.

O Diretor de Criação Sênior rapidamente escolhe os pobres coitados cujas mesas estavam mais lotadas e passa o fardo, realçando que ” aquela interface só não poderia ser composta em Verdana, qualquer outra coisa para ele estaria ótimo”.

Com 15 minutos para terminar o serviço antes que os advogados do cliente recolhessem o material e lacrassem os servidores como evidências em um processo por quebra de sigilo e negligência, fundamentado pela matéria que tinha saído naquele jornal de fofocas, os designers voltaram à idéia original do SMS e nem piscaram: deram uma rápida consultadela no FWA para determinar as cores, formatos, plug-ins e grafismos que aquele layout “inspirado” em uma ilustração do DeviantART mostraria em torno daquela que seria a inovação definitiva em interfaces: uma réplica 3D de um celular de monitor verde, cujas teclas poderiam ser clicadas uma, duas, três ou quatro vezes para reproduzir os caracteres da mensagem a se enviar (e que seriam 190, não 140 – ai, se os geeks daqui não corrigissem os briefings).

Descrentes de sua própria genialidade, os designers passaram a preparar o discurso de premiação, realçando que sua interface trazia um mundo mobile vintage para a web e estava pronta para marcar tendências. Se cuida, iPhone!

Enquanto isso, na tecnologia, a maior parte do tempo estipulado para o desenvolvimento estava sendo gasto com resmungos sobre a inutilidade de um serviço destes, de como o tempo poderia ser usado para desenvolver bibliotecas de funções para software livre, de como o algoritmo era “ridículo” de ser feito e de variações sobre estes temas e outros derivados da saga O Senhor dos Anéis. Quando finalmente chega a hora da execução, o debate é acalorado com facções Java vs. Rails, PC vs. Mac e todo tipo de tecnologia e servidor imaginável até não haver mais tempo de se discutir mais nada e o projeto ser terceirizado para algum fornecedor externo que conseguiria restaurar a paz na equipe ao concentrar todo o desprezo e ódio a seu código sujo e falta de processos.

Essa história, naturalmente, é ficção. O Twitter, todos sabemos, não é em Flash (muito menos naquela cópia semvergs do Flash, o Silverlight) nem tem firulas. Sua interface, pelo contrário, é elegante e extremamente simples, e reflete um código eficiente e compacto, portável para várias plataformas e, por sua extrema simplicidade, rapidamente compreendido e admirado.

A pergunta: “o que você está fazendo?” e a limitação de 140 caracteres para respondê-la é tão simples quanto abrangente. Como os melhores produtos digitais, inspira muitos por seu despojamento, não pelo excesso de funções e acessórios que tantos ainda teimam em popular os produtos. Em um mundo tecnológico de excesso de ofertas de mashups, o fato de uma funcionalidade, efeito ou plug-in estar disponível não significa nem implica que deva ser usado.

Um Fusca é um clássico. Um Porsche também. Um que tente ser o outro é só ridículo.

Dezembro de 2009 – Revista Webdesign nº 71

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