Cultura Digital, Textos

Onde eles arranjam tempo para alimentar a Internet?

A quantidade de informação presente online é tamanha e cresce a uma velocidade tão rápida que, mesmo que você nunca tenha feito a pergunta do título deste artigo, é bem provável que já tenha se impressionado com ela ou mesmo que tenha tido dificuldade em respondê-la.

Afinal de contas, várias pessoas antenadas que você conhece têm problemas para atualizar seus blogs, se esquecem do Twitter de vez em quando, passam dias fora do MSN, têm mais de trezentos e-mails por responder, links esquecidos no Delicious, álbuns velhos no Flickr e perfil desatualizado ou incompleto no LinkedIn, Facebook e todas as outras redes sociais à Orkut. Provavelmente você não conhece quem tenha contribuído para a Wikipedia, ou até mesmo enviado (ou comentado) um vídeo do YouTube e similares. Se você não é do tipo que curte videogames, talvez chegue a se surpreender com as histórias cada vez mais comuns de pessoas que passam finais de semana inteiros em torno de um console. Onde essa gente arranja tempo para isso?

Essa pergunta é, naturalmente, cada vez mais comum. Os níveis de exigência e eficiência estão cada vez mais altos e o “horário de trabalho” se torna a cada dia mais parecido com uma relíquia do passado ou um hábito pitoresco (como uma soneca depois do almoço, por exemplo) do que com aquilo que combinaram com você quando assinaram sua admissão. Hoje em dia somos cada vez mais orientados a realizar tarefas em um determinado prazo, não importa o trabalho que dêem. Como estipular prazos é um conceito abstrato demais, a maioria das pessoas costuma ter uma enorme dificuldade em negociá-los, às vezes até com o justo medo de parecer indolente ou preguiçoso em uma sociedade cuja eficiência é um valor crescente. O resultado é um sistema perverso em que todo mundo trabalha demais e tem coisas demais para fazer, o que resulta em falta de foco, de prioridades, de alimentação adequada, de horas de sono e, naturalmente, de tempo livre.

Quem, então, alimenta esses serviços? Do que vivem essas pessoas que nos abastecem diariamente com informação, dados, análises, estatísticas, piadas, fotos, vídeos, histórias e interações de todos os tipos? Não dá para acreditar que tudo que exista online seja regiamente bem-remunerado, financiado por investidores bonzinhos ou por propaganda. Nos anos 90, época ingênua em que ninguém sabia direito pra que servia a Internet, talvez ainda desse para acreditar que a publicidade sustentaria os novos artistas digitais. Pois não foi preciso “bug” do Milênio ou 11 de Setembro ou Crise Mundial para se perceber que não é fácil levantar dinheiro, por mais relevante que seja o conteúdo. Mesmo assim ninguém desistiu. Muito pelo contrário.

A pergunta, então, continua com cada vez mais força: de onde vem o tempo? Se o cotidiano dos articulistas de mídias sociais e jogadores de videogames é muito parecidos com o seu – incluindo festas, cerveja com amigos, aniversários de sobrinhos, almoços com a sogra, passeios com o cachorro, trabalho no fim de semana e uma ocasional escapada para a praia – que mágica esses caras fazem para conseguir atualizar seus conteúdos? A conta não fecha.

Por mais que algum guru de administração de tempo tente provar o contrário, todos sabemos que uma vida completamente organizada, classificada e ordenada está mais perto da idéia de uma prisão que a de liberdade. Todo mundo já está cansado e atarefado demais para somar mais uma lista de procedimentos de eficiência ao pouco tempo livre que tem. Até porque quem tenta organizar, classificar e arrumar o mundo gasta toda essa energia simplesmente para não precisar lidar com ele.

Não, esta não pode ser a saída. Perfeccionismo em excesso é maligno e só traz mais infelicidade. Errar é humano, diz-se por aí. Pessoas criativas são caóticas e ditaduras autoritárias são cheias de processos porque sabem que o excesso de controle restringe a visão.

E, no entanto, o que se vê na Internet é exatamente o contrário. Por todos os lados, o valor que mais se defende hoje em dia é transparência – mesmo que não seja verdadeira nem comentada. As redes sociais estão ativas de personagens com perfis cada vez mais elaborados e complexos, mesmo que poucos sejam verdadeiros e menos ainda sejam sequer lidos.

A resposta é simples e, ao mesmo tempo, fascinante: o tempo gasto para alimentar a Internet é resultado da busca de pessoas comuns por significado. Por maior que seja o conteúdo de um YouTube, o tempo gasto para sua elaboração é muito, muito menor que o que todos jogamos fora, todos os dias, em atividades monótonas, vazias, hipnotizantes e, em sua essência, estúpidas. Assistir àquela “outra” telinha é a maior delas, mas não a única. Pesquisas revelam que o tempo gasto em frente à TV por ano, eqüivale a cerca de duas mil Wikipedias. Isso só nos Estados Unidos.

Fica claro, portanto, de onde vem “todo aquele” tempo livre. Pense nas vezes em que você jantou em frente à TV vendo um filme ou seriado ruim pela terceira vez. Ou que deixou de interagir com alguém (entenda-se: debater idéias, aprender ou ensinar algo, conhecer uma visão de mundo diferente da sua) porque lia uma revista de fofocas ou dados técnicos irrelevantes e descartáveis e… voilá! O tempo livre (re)aparece.

Sem contar que o material produzido para a Internet, ao contrário do VT do futebol ou do Big Brother, é cumulativo. Como um ensaio de teatro, música ou arte marcial, ele melhora pouco a pouco até que chega o dia em que, feito mágica, ele é imenso. É exatamente nessa hora em que chega alguém e pergunta “mas onde se arranja tempo para treinar todo aquele tempo?”. Não se arranja esse tempo em lugar algum. As raras ocasiões livres simplesmente não são desperdiçadas. Mesmo que o objetivo não tenha nada de nobre ou construtivo em si – jogar videogames de mata-mata, por exemplo – ele já é muito melhor que o consumo entorpecedor dos pastéis de vento que a mídia de massa nos entrega todos os dias, e ajuda a desenvolver uma mente ágil, pronta para responder aos estímulos e variáveis contraditórios que se encara todos os dias no ambiente de trabalho.

Tempo só depende de propósito. Uma pergunta melhor que a do título deste artigo talvez seja: “o que você faz? Trabalha até morrer (de tédio, de raiva, de estresse) e mais nada? Por quê? Sempre dá para mudar as coisas como elas são. Mesmo que seja só em uma página de um blog, um vídeo para o YouTube, um artigo para a Wikipedia. Isoladamente, concordo, essa iniciativa não vale nada. Com o tempo e o apoio dos outros, ela pode ajudar muita gente.

Cultivar heresias é preservar a sanidade. Se você tem várias idéias que não avançam porque você se preocupa demais em “se encaixar”, saiba que você não precisa se encaixar. E que se encaixar, talvez fique preso e não desencaixe jamais. Talvez você consiga até mudar o mundo com uma idéia. É pouco provável, mas quem sabe? Uma coisa é certa: consumindo entretenimento vazio é que certamente não o fará.

Julho de 2009 – Revista Webdesign nº 67

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