TENDÊNCIA Nº 15: TRANSMEDIA STORYTELLING.
O “novo” texto digital é chamado de Transmedia Sorytelling, aquele tipo de narrativa que usa várias mídias e tenta se misturar com a sua vida. Chame-o de narrativa transmidiática, se você achar pedante usar o termo em inglês. Eu honestamente acho os dois nomes um pouco esnobes para tratar de um hábito natural e ancestral do ser humano: o de contar histórias e forjar mitos, pouco importa seu suporte. O que, então, essa trans-coisa tem de tão especial?
Acho que a principal vantagem desse tipo de texto é que ele não conhece fronteiras: pode ser lido, ouvido, visto, vivido, sentido, alterado, remixado ou todas essas coisas ao mesmo tempo. Soa natural que, em tempos de mashup, fale-se tanto dele. Mas… será que ele é tão novo assim?
Idéias e histórias, afinal, nunca tiveram forma fixa. Algumas delas se adaptam melhor a este ou àquele meio, mas elas só serão envolventes se conseguirem estabelecer uma conexão com quem as recebe. Essa conexão só vai acontecer se elas conseguirem se libertar do seu suporte e ativarem a imaginação. Sob esse aspecto, todas as narrativas já eram transmídia muito antes da invenção das mídias. Uma peça de teatro ativa várias sensações de acordo com a performance de cada artista, tom de voz, iluminação, música, cenografia. Você pode decorar o tubí or notubí e recitá-lo quantas vezes quiser. Ele só significará algo quando o texto for interpretado – ou seja, compreendido.
A invenção das mídias de massa, dos livros à TV, meio que “achatou” a mídia. Para atingir públicos maiores, atravessar grandes distâncias e resistir ao tempo, foi preciso remover das várias formas de comunicação tudo aquilo que não fosse absolutamente essencial, o que os deixou bem chatos. Alice – aquela que mais tarde iria ao país das maravilhas – se perguntava “qual o uso de um livro sem imagens ou conversas?“. Aulas, teorias, conversas, mitos e histórias foram comprimidos em páginas e assim puderam sobreviver por muitos anos. Naquela época ninguém pensava que algo melhor poderia ser feito.
E podia, claro, mas não muito. Uma encadernação um pouco melhor, uma diagramação um pouco mais arrojada e algumas ilustrações poderiam dar um pouco mais de personalidade ao texto, mas não se poderia ir além daí. Fica fácil de entender porque as mídias elétricas, no século XX, se tornaram tão populares: as revistas enchiam os textos de fotografias e ilustrações, o rádio liberava o som das das palavras, a TV trazia o mundo para dentro das casas. A inovação eram tão grande que ninguém de bom senso poderia achar pouco.
Só que as pessoas se acostumam rapidamente às tecnologias, e aquilo que era mágico aos poucos se banaliza até o ponto em que precisa se reinventar para não morrer. Foi aí que as histórias começaram a ser experimentadas por várias formas diferentes de comunicação.

O universo pop/nerd, talvez por ser razoavelmente recente e simpático às novas formas de comunicação, é rico em exemplos de histórias em mídias múltiplas. Seu formato torna fácil imaginar como seriam essas versões.
O Mochileiro das Galáxias, por exemplo, se deu melhor em rádio do que em cinema. Acredito que o Dr. House, apesar de se basear em farta literatura médica, seria péssimo no formato livro. The Big Bang Theory, escrito para fãs de graphic novels, seria difícil de adaptar para um formato sem as pausas, as risadas e a rica interpretação dos atores. Dexter, por sua vez, poderia ser muito bem adaptado para uma versão gráfica, embora duvido que seus personagens tivessem a riqueza e a profundidade de criaturas tão geniais como o Capitão Haddock e o Obelix, que seus criadores foram espertos em transformar em secundários.
Com mil raios e tufões!
Quem não acha o Pateta e o Peninha mais interessantes que o Donald
e aquele mala arrogante e enrustido do Mickey?
À medida que se tornou comum brincar com formatos e recombiná-los, a criatividade corre solta. Mythbusters, por exemplo, é muito mais do que um documentário ao transformar a feira de ciências em brincadeira de gente grande (que menino, pouco importa a idade, nunca sonhou em explodir um cofre com dinamite?). As variações são tantas que até um PowePoint, a mais chata dentre todas as formas de comunicação, ganha um Oscar com o Al Gore em Uma Verdade Inconveniente – um filme de efeitos tão toscos, câmara e luz tão básicas e orçamento tão baixo que jamais seria levado a sério por Hollywood. E, no entanto, ganhou uma projeção para a causa e um número de salas de cinemas ocupadas, DVDs comprados e torrent baixados acima – muito, muitíssimo acima – do que seria esperado para qualquer documentário sobre o tema. Mesmo que fossem bem melhores.
Histórias dependeram, por muito tempo, do formato em que foram desenvolvidas. Até porque durante séculos ninguém imaginaria repropositá-las. A transcrição do Senhor dos Anéis para o cinema é, e sempre será, uma transcrição. Às vezes a adaptação fica tão melhor que o original que fica difícil compará-los, como neste filme que surgiu deste conto. Às vezes não. Quando os dois são bem-sucedidos, o melhor que se pode fazer é não compará-los.

A flexibilidade das mídias digitais está começando a mudar esse cenário. As iniciativas ainda não são muitas, mas já começam a marcar seu espaço.
ARGs são um bom exemplo. Desde o sensacional Blair Witch Project, que deve ter sido emocionante para quem estava por lá e acreditou na história, aos enigmas de LOST, para quem tem paciência de desvendá-los, eles são uma boa amostra do que pode ser feito quando as histórias trançam mídias.
Mas infelizmente eles ainda não chegaram lá. A maioria dos ARGs ainda trata seus usuários como se fossem crianças limitadas, entupindo-as de problemas banais ou irrelevantes. A publicidade metida a “descolada” é o pior exemplo. Só um marqueteiro bitolado (ups, perdão pelo pleonasmo) pode acreditar sinceramente que um punhado de pessoas inteligentes, com poder de compra e de decisão, vai gastar um tempo enorme brincando de caça ao tesouro em busca de sua majestade, o produto. O Google já mostrou faz tempo o caráter pragmático da Internet: se eu quero algo, eu busco, vou lá e pego. Simples.
Mas então será que existe um futuro para os ARGs? Acredito que sim. Mas não no formato “um cientista independente descobriu uma coisa incrível e está sendo ameaçado de morte por governos ou grandes corporações. Para divulgar suas descobertas ele fez um blog / vídeo / conjunto de textos esparsos que cabe a você descobrir, emendar e divulgar”. Dãaaaaa… meio teoria de conspiração emendada com self-made-men e com a capacidade de qualquer Zé Mané dominar todas as habilidades do mundo, se tornar um líder e conquistar todas as riquezas, respeito e mulheres. Acho que o excesso do consumo de literatura de auto-ajuda anda fazendo mal para as pessoas.
É por isso que eu não gosto de Avatar: um filme pornô tem um roteiro menos previsível. Se eles levaram 15 anos para fazer o filme, bem que poderiam ter gasto uns 10 minutos a mais na criação da história. Ela é tão ruim que faz Pocahontas parecer um épico.
As narrativas transmídia também estão presentes em muitos jogos, massivos e metaversos. Mas muitos deles têm uma limitação a mais para complicar o problema. Apesar dos roteiros serem bem mais desenvolvidos, eles ainda são um bocado herméticos, demandam muita dedicação e um bom treino. O resultado é cíclico: quem já os jogava demanda mais e mais complexidade, quem não os conhece acha que a trabalheira não vale a pena.
Confesso não conhecer o universo de jogos e narrativas hipermidiáticas bem o suficiente para saber e eles estão para romper as paredes dos guetos para que migraram voluntariamente ou se, pelo contrário, eles ainda se julgam inteligentes e importantes demais para dar ouvidos ao povaréu. Quem rompeu a barreira (Wii, com games simples; Facebook, com aplicativos e brinquedos fáceis de fazer) se deu muito bem, mas pode ser uma coincidência.

Mas se os meios de comunicação mais arrojados ainda não entenderam direito como usar esse tipo de narrativa-conceito-Matrix-Minority Report, será que já estaríamos preparados para elas? Sua popularidade nos meios nerds não seria um claro sinal de que o conhecimento e a dedicação necessários para usá-las bem ainda estaria longe das pessoas comuns, interessadas em assistir na TV, ou no máximo em um download ou DVD pirata, episódios de LOST que façam sentido por si sós, sem busca ou informação complementar?
Sim e não. Se por um lado a TV ainda é o melhor ambiente para o consumo passivo de conteúdo – o sofá é um lugar bizarro e publico demais para se interagir – por outro as narrativas que transcendem suas mídias são, por esse mesmo motivo, ilimitadas. Elas são, na verdade, mais um bom exemplo de como as mídias digitais estão a cada dia mais parecidas com uma forma de retomada do que de evolução.

Up: assisti três vezes, ri e chorei três vezes. Um roteiro desses funciona com qualquer tecnologia, em qualquer mídia. Acho que funcionaria até com o Brendan Fraser e a Sandra Buttock.
Um bom exemplo está nos valores e mitos. Aprendemos a separar o certo do errado através de histórias que são contadas nas mais diversas formas: lendas, ética, religião, exemplos e todo tipo de experiência. Praticamente ninguém lembra de que forma aprendeu a distinguir as atitudes certas das erradas. Até porque esse conhecimento não faz a menor diferença.
My Name is Earl: aprender sobre o Karma pode ser um atropelamento. Exageros à parte, a maioria das experiências engrandecedoras acontece através da prática, para desespero de igrejas, escolas e teóricos do comportamento. A origem banal não as torna menos ricas ou importantes.
Por mais que seja pomposo o nome “transmídia”, ele não é muito diferente de uma história tribal contada por alguém que a dramatize. O mundo digital transporta essa experiência sensorial, complexa, dramática e referenciada, cheia de camadas, para veículos de comunicação que até há bem pouco tempo não eram capazes de muito mais do que mostrar um texto, uma foto, um som ou um vídeo. O simples fato de colocar links nessas narrativas deu a elas uma nova dimensão. O cubo se transforma em um tesseracto.
O cenário se torna mais denso e complexo com a evolução das mídias sociais e a fragmentação dos conteúdos em formatos múltiplos. Hoje, que qualquer um pode falar, citar e mostrar qualquer coisa sobre qualquer assunto, as referências cruzadas se multiplicam. Construir histórias ficou cada vez mais fácil; administrá-las, quase impossível. Por isso que é tão ridículo que um cliente sem-noção (ups, outro pleonasmo) peça a você que crie um “viral”. O máximo que você ou qualquer pessoa pode fazer é contar uma boa história. Como – ou se – ela será distribuída é praticamente imprevisível.

Encerro este post com uma coisa para você pensar: de todos os exemplos recentes de narrativa transmídia, o que envolveu mais gente e gerou o resultado mais importante foi, sem dúvida, a campanha à presidência dos EUA. Ela usou todos os tipos de mitos e formas narrativas para “vender” a imagem de Barack Obama como um líder transformador. As pessoas estavam tão esgotadas dos demandos do governo republicano que compraram a esperança e a mudança sem questionar. Agora, passado um ano da eleição, a ficha começa a cair. O homem é honesto e competente, sem dúvida. Mas ele é um executivo, não um líder. Ele tem um quê inofensivo de Geraldo Alckmin, que faz o que pode com o que tem à mão. É bom. Acima de tudo, é responsável.
Mas não é o que foi vendido. Ele é um cara de números, não de esperança. Falta a ele aquela doideira inspiradora de um Malcolm X, de um Martin Luther King, de um Muhammad Ali ou até mesmo de um John F. Kennedy, para esses propósitos. Ele não propôs prender banqueiros, colocar um homem na Lua, acabar com a pirataria na China ou remover tudo o que é tropa do Afeganistão e começar a construir escolas. Para efeitos históricos, ele não propôs nada. Só administrou. Você consegue imaginar Napoleão Bonaparte, Constantino, Carlos Magno, Alexandre da Macedônia ou Júlio César cuidando da contabilidade?
Por piores que sejam o imbecil do Tchávez e o senil do Fidel, não se pode negar que suas figuras são personagens dignas de um Gabo. Já o presidente americano é tão certinho que não inspira um cordel. É o homem mais poderoso do mundo, mas não dá murro na mesa. A oposição, barulhenta e sem propostas como é a do PT e do PDT daqui, já percebeu isso e está abusando de seu direito constitucional de emperrar a pauta. Eles vieram pra tumultuar, são moleques mimados sem disposição para discutir. E estão ganhando força.
Parte de seu sucesso deve-se a uma excelente história muito bem contada por todas as mídias disponíveis. Não dá pra negar que ele não era bem o que os eleitores esperavam quando abriram a embalagem.
E pra essa mercadoria não há devolução.

Muito bom o texto, professor. Ops, mania ainda! Sobre os ARGs, eu sempre achei que são uma idéia muito boa, mas mal executada. Sempre que surge um novo, tento experimentar, mas acabo ficando de saco cheio de continuar…
No universo dos jogos, os que estão rompendo barreiras do gueto gamer nerd, que são os jogos de Facebook, ironicamente não tem muitos elementos de narração, a não ser uma ambientação elaborada, mas são jogos que vão do nada a lugar nenhum…
Recomendo que assista a palestra de Jesse Schell no DICE 2010, acho que o senhor vai achar interessante. Ele fala bastante sobre como a indústria de jogos está migrando para essas novas tecnologias, e faz uma brincadeira sobre como será o nosso cotidiano no futuro.
http://fury.com/2010/02/jesse-shells-mindblowing-talk-on-the-future-of-games-dice-2010/
EXCELENTE, LULI! Perdi uma palestra sua aqui em BH e a cada dia que leio/vejo/ouço algo seu, me arrependo mais.
Abraços!
João Marcelo
Ótimo post, acredito que vc já ta falando de algo que esta num estágio “espermático”, vai nascer, crescer, etc e dar muitos frutos dentro de todas essas multi-possibilidades.Estamos nos adaptando.
Sobre avatar, eu gostei! Foi o primeiro filme com visão estereoscópica que assisti, achei a CG muito bem feita.Curioso sobre avatar é que não ouvi ninguém reclamando do roteiro mas ficaram frustrados com a experiência estereoscópica, todos estavam ansiosos esperando para entrar num holodeck:
http://en.wikipedia.org/wiki/Holodeck
(e esse produto tb não há devolução)
UP é excelente (embora eu não tenha chorado como as meninas,hehehe,brincadeira)a Disney (ops) Pixar é a melhor nesse ramo e não concordo que daria certo com o Brendan Fraser e a Sandra Buttock, a composição da pixar como um todo que faz a qualidade geral da obra:
http://www.youtube.com/watch?v=brArT0NTopI
E claro, por ser CG renderizado; mas não só por isso, se fosse assim eu teria adorado as animações da video brinquedo: http://www.videobrinquedo.com.br/
(Pq será que eles não são sucesso como a pixar? será karma???rs) E diz a lenda que o primeiro longa CG do mundo foi Brazuca:
http://www.adorocinema.com/filmes/cassiopeia/
Foi “esmagado” por Toy Story. O que me deixa chateado é ver que nesses ramos o Brasil avança com velocidade de lesma e até mauricio de Sousa esta produzindo a série de animação na china (eles estão roubando nossos empregos).
Quem sabe as “coisas” nacionais de qualidade comecem a ser criadas, “consumidas” e expandidas com essas novas relações transmidiáticas.
Obrigaduuu,até mais.
Infelizmente a lógica de tudo hoje em dia é moldada pela audiência. O Obama sobe usar os meios certos para alcançar o que queria. No mundo democrático de hoje, e sabendo que tentar mudar tudo radicalmente só vai fazer você levar uma bala na cabeça (é a unica coisa que não muda no mundo, a regra da bala), melhor usar os meios políticos.
O Obama conseguiu momentaneamente segurar a crise americana, que vai explodir cedo ou tarde, e qualquer jogador de games que envolve recurso e produção sabe disso. Mas, olhando o filminho do Lula, filho do BBB, fracasso nos cinemas, eu me pergunto se o povo é tão idiota quanto nos pensamos. Talvez o povo seja lento para entender, mas uma hora entende.
Luli, você escreveu um texto fantástico (Ups, desculpe o pleonasmo)!
Demais, obrigado por compartilhar suas ideias.
Abraços!
Lembra do nosso ultimo papo na padoca do shopping ainda fechado pos-29 horas de viagem? Tai a resposta ; )
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