Cultura Digital, Textos

Você trabalha demais

TENDÊNCIA Nº ZERO: MUITO, MUITO TRABALHO.

Já deve ter dado para perceber que este ano, que começou em um ritmo acelerado, tende a ser bem puxado quando comparado a 2009 e impossivelmente lotado quando se considera que é ano de copa e eleição. Se você ainda não comprou sua vuvuzela, economize o dinheiro: não a deixarão usá-la em sua mesa de trabalho – e, siiiim, você certamente estará nela.

A corrida é tanta que ninguém de bom senso tem coragem de afirmar que o ano só comece depois do Carnaval. Este ano não. Ele já começou faz tempo, ou talvez seja 2009 que ainda não tenha terminado. Tanto faz. Há quem acredite que o ano passado acabe lá pela quarta-feira de cinzas, domingo de Páscoa, Corpus Christi… essas datas simbólicas que um dia chamamos de feriado.

Com essa perspectiva só resta depender das tecnologias de SMS, microblogging e transmissão de vídeos online para pelo menos conseguir acompanhar um gol ou outro, saber placares ou entender porque tanta gente está buzinando ou gritando na rua enquanto você se divide entre projetos, pauerpóints, relatórios, calls e reuniões. Essas tecnologias também o impedirão de fazer perguntas descabidas, como a situação de um país que foi desclassificado, principalmente se for o seu.


…e o Robinho volta com tudo.
Você viu este gol, não? Ou estava trabalhando?

Enquanto isso nos EUA o Google gasta uma bala pra colocar um comercial simplório no intervalo do Superbowl. Tudo bem, quem sabia um pouco mais de Google provavelmente também estava trabalhando e só pode comentá-lo mais tarde, via YouTube.

O excesso de trabalho e sua perspectiva de aumento são perspectivas globais, que devem abranger praticamente todas as profissões remotamente ligadas ao digital. Estão isentos da maldição os suspeitos de sempre: aqueles funcionários concursados que (não) trabalham em repartições públicas e que, a essa hora, já agendaram suas greves para a Copa (assim sobra mais tempo livre para tomar cerveja) e para as eleições.

(Caso você não saiba, uma vez a cada 4 anos os camaradas se mobilizam e desempoeiram todos os clichês comunistas para manter seus privilégios de ganhar sem trabalhar, ter estabilidade em sua inépcia e outros malefícios dos concursos-mordomia que ignoram qualquer lei de mercado, principalmente a atualização e a competência. Bobagens, afinal, quando comparadas a grandezas realmente importantes, como o tempo que se está sem fazer nada em um cargo ou a chefias que não chefiam. Tudo isso com o nosso dinheiro. Um dia eu espero que o mundo digital extermine esse bundalelê, mas até eu acho que é otimismo demais.)

(Ahem) Onde estávamos? Ah, sim! Você trabalha demais. Voltando ao assunto: por que, afinal, se trabalha tanto?

Transbordamento

Transbordamento das demandas.

Minha suspeita é que, depois de décadas a prometer evoluções, a época digital tenha finalmente chegado, trazendo com ela um transbordamento de demandas reprimidas que sobrecarregam todo mundo. Não consigo ver outro motivo para tantos estarem tão sobrecarregados.

Confesso que, quando pensei no assunto pela primeira vez, esperava estar enganado. Deveria haver outro motivo – crise mundial, aplicativos para iPhone, ano eleitoral, Copa, placas tectônicas, Twitter, sei lá. Mas à medida que o tempo passa, mais percebo que não pode haver outra explicação: há muito trabalho a ser feito e, por mais que todos estejamos, o tempo todo, sobrecarregados, a coisa não vai melhorar tão cedo. Pelo contrário, é bem provável que piore.

PIORE?!? Como assim, se todo dia, lá pelas 5 da tarde, o mundo todo parece entrar em uma espécie de histeria coletiva, cada um com certeza absoluta que o chefe ou cliente pediu demais, que não vai dar, que não daria nem se o dia tivesse 480 horas? Mesmo sem almoçar direito – e não estou falando de macrobiótica ou de slow food, mas de uma mesinha num McDonald’s pra comer um Nº3 em paz – e trabalhar em condições de estresse e dietas de ficar com inveja de sweatshops, cuja única diferença entre os dias “úteis” e os outros está no trânsito, local e uniforme de trabalho? Como pode piorar? Não sei. Mas não duvido que a demanda ainda seja muito grande, que vá aumentar e que será preciso um bom tempo para saciá-la. A era digital chegou, como sempre sem avisar, para o desespero de tantos que esperaram tanto por ela.

Pois é. Por mais que todos nós tenhamos alertado, feito Cassandras, que a “velha mídia” estava morta, que a Internet tinha vindo para ficar e que estávamos à beira de uma tsunami de inovação, ninguém parecia saber ao certo o tamanho da pancada e a intensidade da transformação.

Paris 1968

Típico. Ou você por acaso acha que alguém em sã consciência que tenha estado em Paris em 1968, em Londres em 1977 ou em Berlim em 1989 fazia idéia que aquela mega-balada em que estava metido mudaria o mundo? Mesmo que um ou outro louco percebesse o impacto, você acha que alguém o levaria a sério? Você o levaria a sério? Eu não.

Wayback


Há 15 anos a Internet já era bem grandinha para os padrões globais, e seu crescimento já causava espanto. Naquela época já tinha gente dizendo que a rede separava e alienava as pessoas, que essa explosão era rápida demais, que era fogo de palha e que logo iria assentar. Não faltavam, desde muito antes daquela época, céticos para afirmar que já existiam computadores demais e que a Lei de Moore estava com os dias contados.

Ha.

Ha.

Ha.

Mas… estamos rindo do quê? Sei lá.

Hoje não falta quem acredite que a evolução da computação seja uma exponencial, e que a idéia de equipamentos com o dobro de velocidade e metade do preço a cada 18 meses tenha sido uma aproximação mal-feita em uma linha reta. A Lei de Moore estaria errada sim: ela era, na verdade, modesta. Mesmo gente muito boa que defende que a exponencial seja um exagero sabe que ainda há muito a progredir.

Exponencial

Manja a “Cauda Longa”? É a mesma curva, no sentido contrário.

Computadores quânticos, chips de grafeno, interfaces de diversos tipos, web semântica, lógica fuzzy… tudo isso potencializado por uma colaboração intensa e cada vez mais global. A realidade é muito mais aterrorizante que qualquer ficção. O mundo em 1993 era muito mais parecido com a Idade Média e a China antiga do que aquele em que viveremos em 10 anos. Exponencial, dearest, é isso.

Naquela época sossegada da última década do século passado, acredite, não se ganhava praticamente dinheiro algum com a Internet. Eu sei porque estava lá (e, como todo mundo na época, era tosco. Depois melhorei, mas não muito). Praticamente todos os sites eram montados e alimentados com linhas e mais linhas de código – e, mesmo assim, era bem difícil aprovar um desses serviços de alfaiataria com um orçamento de cinco dígitos.

IE2
Os otimistas acreditavam que 96 seria o ano da Internet, impulsionada por aquele programa Explorer. Não foi. Nem 97 ou 98, mas a luta continuava. Surgiram modems mais rápidos, home banking, imposto de renda online, portais, e-commerce, salas de chat, massivos multiplayer e… nem assim levavam a pobre sub-mídia a sério. Para piorar, o primeiro de Abril que aconteceu em primeiro de Janeiro, o estouro do cassinão legitimado e o multi-homem-bomba pioraram a situação. Em 2002 era preciso um enorme esforço para mostrar que a Internet não tinha sido uma onda passageira, com seus IPOs e outras extravagâncias (muito parecidas com outras categorias profissionais, deva-se dizer).

Por mais que nenhum banco tivesse fechado seus serviços online para reabrir agências, há oito anos ainda era comum ver gente com cheques, extratos impressos em caixas eletrônicos, passagens aéreas de papel e máquinas de Fax. A Unilever, por exemplo, tinha um punhado de páginas no ar e o Google, sempre é bom lembrar, ainda não tinha aberto seu capital.

Lotado

Acredito que os eventos negativos da virada do milênio tenham funcionado como uma ”freada de arrumação”, aquelas que o motorista do ônibus, mui solicitamente, dá para acomodar melhor seus queridos passageiros e abrir espaço para mais gente entrar. De qualquer forma, mesmo em 2003 ainda havia quem fizesse ressalvas à Banda Larga, com um motivo bastante razoável: “pra que, afinal, ver um jornal mais rápido?”.

Taxímetro

A resposta, como sempre, estava aonde ninguém via. A velocidade era muito menos importante do que o fim do taxímetro. Foi preciso um empurrãozinho das mídias sociais pra rede, afinal, ganhar força e o mundo perceber que conectividade não é mais uma opção. Ele ainda não é plano e a economia ainda pode ser bem mais esquisita, mas estamos certamente a caminho.

Esse interlúdio histórico foi só para lembrar que todas essas conquistas ainda são muito novas e que finalmente as firmas resolveram pagar para ver se a rede tem mesmo tanta coisa boa a oferecer. O resultado é a explosão da demanda de todo tipo de serviço, de arquitetura de informação a métricas, de mídias sociais a e-commerce. Até propaganda, quem diria, está em alta.

O problema é que, como tudo na Internet, essa explosão aconteceu de uma só vez. As empresas, que nunca fizeram nada, resolveram fazer de tudo ao mesmo tempo, sem planejamento, estabanadamente, só para não ficar para trás. O resultado é equivalente a uma ida a um shopping de quinquilharias ou a visitar um supermercado com fome: compra-se demais, sem saber o que fazer, mesmo que seja para jogar metade fora. Enquanto (ainda) não é (tão) caro, por que não? Enquanto isso você trabalha demais. A boa notícia é que não falta trabalho. A má é que ele sobra.

Ano digital
Depois de muita, muita, muita espera, 2010 é, finalmente, o ano digital. Para desespero geral, 2011 e 2012 também o serão. Chegará o dia em que ninguém mais falará dele, como não se fala em energia elétrica ou aviões ou saneamento básico. Daí teremos chegado à maturidade.

Só espero que seja ainda nessa década.

some posts that may be related

20 comentários

Trackbacks

Trackback URL para este artigo:
http://www.luli.com.br/2010/02/09/voce-trabalha-demais/trackback/

desça a lenha:

Comente este post ou dê um link do seu site.

Acompanhe esses comentários.

Seja legal, não fuja do tópico.

Não faça nada que você não faria.

Se souber HTML, pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

*Campos obrigatórios