Palestras

Minha visão da Campus Party

TENDÊNCIA Nº 2: AUTISMO DIGITAL.

Tão longe, tão perto.

Interrompemos a nossa programação para falar um pouquinho da Campus Party, aquela que deveria ser a megafesta nerd, cada vez mais popular. É a terceira vez que vou no evento – que, se não me engano, está em sua terceira edição. Em 2008, ainda no pavilhão da Bienal, a coisa era ainda meio underground, até obscura. Chegava a ser divertido pensar que ela acontecia no mesmo espaço que, uma ou duas semanas antes, tinha acontecido o São Paulo Fashion Week – a princípio, os dois eventos não poderiam ser mais distintos. No ano passado sobraram pautas engraçadinhas que acharam suuuuper criativo levar um nerd ao SPFW e uma modelo à Campus.

Os dois eventos, no entanto, têm muito em comum. O SPFW, como a Mostra de Cinema de SP, o Festival Comida di Buteco e muitos outros, também teve suas origens alternativas, em uma época que as galerias e os bares da Rua Augusta eram muito mais perigosos do que exóticos ou moderninhos. Com o tempo, sua popularidade entre um público entusiasta e especializado acabou por atrair a ganância das marcas, que, na falta de boas propostas de apoio a seus públicos, lançaram mão de um bom maço de notas para se encostar no prestígio conquistado a duras penas por seus fundadores. É o bom e velho efeito rêmora: é mais fácil se encostar em quem tem o que dizer do que arriscar desagradar alguém com uma tomada de posição.

Patrocinadores da Mostra de Cinema:
quase não sobra espaço para o conteúdo.

O problema é que não existe nada que seja sinônimo de desapego ou apoio (ou até mesmo “boas intenções”) quando se trata de jovens profissionais engomadinhos dos departamentos de Marketâng das grandes firmas ou de seus amiguinhos publicitários. O dinheiro de “apoio” a um evento vai normalmente condicionado a alguma censura, propaganda velada ou clara interrupção do conteúdo para a divulgação de suas tão inseguras marcas. O resultado é que as áreas públicas de eventos como o SPFW se transformam em showrooms de fanfarronices e ostentações de fazer inveja a Dubai (ou ao Shopping Cidade Jardim, que é sua amostra grátis na cidade).

Fiat SPFW

Mas será que isso é realmente necessário? E que vende mais carros?
Um curso de direção defensiva ou táxis-conceito para baladeiros manguaços não seria mais bacana? Sei lá.

Shopping Cidade Jardim

O povo gosta de luxo, mesmo que artificial. Pão e circo neles, ué.

Nada disso, afinal, seria incômodo. Quem vive em grandes cidades já aprendeu a ignorar as marcas e seus apelos publicitários com a mesma desenvoltura com que se desapega do cheiro do rio, do trânsito enfurecido e dos ambulantes nos sinais. Quem discorda que liste 10 ações comerciais de que se lembra ter visto no ano passado. Só 10. E olha que, segundo alguns consultores, você é sujeito a um enorme bombardeio de mensagens diárias.

O problema dessas intervenções e da crescente “popularização” do evento (entre aspas porque ser freqüentado por muitos não é garantia de ser acessível) é que ele perde o foco. Com a Campus Party isso aconteceu em impressionantes três edições. A Mostra de Cinema segue quase invicta há mais de três décadas, alguma coisa tinha de estar errada.

Campus 2008

Bons tempos? Médio. Os banheiros eram sofríveis e o lugar não tinha infra.

Não me entenda mal: não sou daqueles saudosistas que sentem falta de máquina de escrever ou de Itamambuca com estrada de terra. Minha queixa à “mornice” da Campus Party não está relacionada aos “bons tempos” em que ela acontecia no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, por mais que o lugar fosse bacana, mas a seu propósito. Na época, achei bem interessante e divertido o que vi por ali: os blogs estavam recém-saídos da briga com o Estadão e tanto Casemods quanto Massivos Multiplayer eram palavras muito pouco conhecidas. A conexão era boa, mas estava longe de ser o centro das atenções. O tempo todo, nerds e geeks (ainda existe diferença?) de todas as tribos se encontravam, sentavam uns nas mesas dos outros, perguntavam, explicavam… intercambiavam informações, enfim. Se a função do evento era de trocar experiências e informações, ela estava pra lá de cumprida.

Faltavam algumas coisas, é claro. Escrevi em um post na época em que ressaltava faltar integração entre quem produzia informação e as firmas que a patrocinariam. O que mais tinha me chamado a atenção era a ausência de profissionais de empresas, que poderiam levar adiante algumas das idéias sensacionais que via por ali. Levei essa preocupação adiante e, com a ajuda dos feras do iMasters, fizemos naquele mesmo ano o #FF, que vem, desde então, realizando sua função de levar inovadores para o centro das atenções.

Pois é, cuidado com o que você deseja. Muitas empresas viram na Campus Party não uma fonte de inovação e idéias, mas um nicho de mercado virgem, esperando para ser explorado. Foram para lá e, no melhor estilo Júlio César, tomaram posse. Em pesquisas de mercado, fizeram aquilo que causa ojeriza a inovadores no mundo todo: foram perguntar aos campuseiros o que eles queriam. Essa é uma prática muito mais fácil do que analisar o público e seus hábitos e propor algo realmente novo a ele. Ela é segura e não tem contra-indicação. Vai que, ao inovar, se faz algo como um Rolly, bonitinho mas não aceito fora do Japão? É o contrário do que faz a Apple mas, como diria um gerente de produto do Zune, a Apple também erra.

Rolly

A massa quer conexão? Pois sejamos magnânimos e ofereçamos conexão às massas! Deve ter pensado algum gênio da estratégia. O problema é que, com uma conexão tão rápida, os processos (e os downloads de conteúdo) passavam a ser muito mais rápidos e drenavam toda a atenção de seus usuários – que, sem perceber, iam até aquele galpão da Imigrantes para continuar a fazer o que faziam em casa.

Alô?
f o t o : F á b i o   P a z z i n i

Alô? Tem alguém me ouvindo ou vocês estão todos no Facebook?

Seria cômico, se não fosse trágico. Mal cheguei lá e percebi que havia algo de “errado” com o clima. As coisas estavam mornas demais. Todo mundo meio quieto, sentado, quase nenhuma conversa no ambiente. Estranho. Levei alguns amigos para passear e conversar por lá. Com eles, dei várias voltas pelo espaço, abordando pessoas de vários grupos e perguntando a eles se sentiam o mesmo. Pra minha surpresa, a maioria das queixas dizia respeito ao fato do evento estar grande demais, cheio demais, pop demais, comercial demais. Até pode ser incômodo, mas não era – não poderia ser – o cerne do problema.

O que me incomodou por lá foi o autismo forçado e auto-imposto pelos mesmos usuários de uma rede que tanto conecta quanto isola. Se você sai de Fortaleza para ir à Campus Party, como fez o Antino Silva, que conheci por lá, vai gastar cerca de R$ 2.500 entre passagem, inscrição e hospedagem (se não quiser dormir por lá). Não é pouco dinheiro, já que vários netbooks e – sim, o iPod Touch do Hagrid – custam menos do que isso. Esse dinheiro é gasto para quê? Para acessar a rede? Bom, ele paga mais do que um ano de conexão de banda bem larga em qualquer lugar, será que não valia mais a pena?

Não desejo o fim da Campus Party nem sua volta aos “velhos tempos”, mas sua reformulação para que ela volte a ser um evento de encontros, trocas e networking. Talvez seja necessário fazer alguns blackouts de banda de uns bons 90 minutos, de vez em quando. Sem ter o que fazer, talvez as pessoas voltem a conversar. E voltaremos a ter a interação de 2008, agora com mais gente e idéias.

Daí só faltarão firmas com boas intenções, mas isso ainda é pedir demais.

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