Cultura Digital, Inovação

Vida besta

Imagine-se muito, mas muito rico. Com um volume de dinheiro além de qualquer capacidade de compreensão. Tanto, mas tanto dinheiro que você seria capaz de comprar o que quisesse, quando quisesse.

miguel jaquison

Não, não, não. Acho que não estou conseguindo me fazer entender. É de muito mais dinheiro que eu estou falando. Um patrimônio maior do que o PIB de alguns países. E um razoável – mas não total – tempo livre. Sem nenhuma restrição ou condição. O que você faria? Se um deles fosse você no futuro, o que perguntaria? O que demandaria?

Com essa idéia em mente quero propor novas formas de pensar para 2010.

Acredito que a verdadeira pergunta cuja resposta vale um milhão de dólares seja: “o que você faria DEPOIS de ganhar um milhão de dólares?”. Ou alguns bilhões, para nosso exercício teórico tanto faz. Pode ser que você já tenha nascido muito rico, pouco importa. Imagine-se agora transportado para uma ou duas décadas depois, sentado em uma mesa agradável, com uma bela vista, conversando com seus amigos. Ah! Esqueci de contar que não foi só você que ficou milionário.

Perdeu um pouco a graça? Natural. Depois de alimentado e protegido, nada mais humano que a busca por outros tipos de bens que agreguem status e experiência. É essa procura constante que nos mantém em movimento, ágeis e compenetrados. O Taoísmo defende que o caminho é mais importante do que o destino, e mesmo a fé das três grandes religiões monoteístas está muito mais concentrada na busca pelo paraíso do que nas coisas a fazer uma vez chegado lá. Vale lembrar que o Kama Sutra diz o que se deve fazer por aqui e que o Corão é bastante discreto quanto às atividades no Houris.

Por mais que muitas estratégias mercadológicas tentem dizer o contrário, o prazer na busca é considerado bem maior do que o da conquista, fato visível nas mais variadas atividades sociais: a torcida pelo esportista mais fraco, a admiração pelos que subiram na vida, a busca pela superação de obstáculos, a conquista amorosa… não faltam exemplos de paraísos cotidianos, muitas vezes só descobertos através de uma dolorida nostalgia.

Livro de aventuras Up

Maldita Pixar. Já vi esse filme três vezes e sempre choro.

De volta à mesa de reminiscências, a conversa pode até tocar em um ou outro bem material, mas apenas por valor informativo, já que todos são, feito corretores yuppies de Wall Street nos anos 90, belos, jovens e ricos.

A conversa à mesa, então, voltar-se-ia para aquilo que cada um tem de único: suas experiências. À medida que dinheiro não é mais um problema, as lembranças das viagens, restaurantes, livros, filmes, eventos e músicas deve ser inesquecível, não? Não. Para sua surpresa, ela é tediosa, monótona. Quando se tem acesso fácil a praticamente tudo, a conquista perde a graça e tudo o que sobra são reações mecânicas, primitivas, quase brutais para satisfazer o corpo e anestesiar o cérebro.

Como eu sei? Porque estou lá. Você, a propósito, me faz companhia.

Rei AbdullahComecei a pensar no assunto quando fui à Arábia Saudita, no ano passado. Em conversas com colegas de trabalho, o assunto caiu naturalmente no modo de vida de um Sultão do Najd ou do Hejaz, com seus palácios, carrões de luxo, barcos e aviões. Na minha imaginação, mesmo sem os tapetes voadores, eles ainda deveriam viver grandiosamente. Pois foi com espanto que soube de várias histórias de depressão, tédio, ignorância ou isolamento. Claro que sempre tinha um ou outro que dava um pulinho em Londres fazer a festa da Harrods antes que os chineses tomem conta, mas em geral, eles eram bem menos felizes do que eu imaginava.

Na hora me lembrei de um trecho do poema “Tabacaria“, escrito pelo Tio Fernando Pessoa, versão Álvaro de Campos:

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo
Que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses
Nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade
De tudo isso sem fazer nada disso);

Faz sentido. Mas não vou entrar nos detalhes daqueles meninos pobres que se descobrem artistas, fazem o maior sucesso, se enchem de tudo que é tipo de psicotrópicos (para ver se o cérebro pega no tranco, talvez) e depois largam tudo e viram Baby Consuelo porque isso tudo é muito, muito manjado.

Julie

Julie e sua tara por manteiga tem um quê de “Último Tango em Paris“, não?

Toco no assunto porque chafurdamos em uma era de abundância sem precedentes. Aquilo que era privilégio de reis e dos muito ricos hoje pode ser encontrado na prateleira de um supermercado, entregue em casa ou baixado em alguns segundos se a conexão for larga o bastante. Nunca se viveu tanto nem se teve acesso a tanto conhecimento. Aulas das universidades mais prestigiadas fazem companhias a podcasts de museus e institutos de pesquisa e quase ninguém os baixa. Tutoriais para qualquer coisa estão disponíveis nos Youtubes, mas são ofuscados por vídeos de crianças dopadas ou gatos tocando piano. Em busca de emoção, muitos deixam seu cotidiano ruir enquanto mergulham em sagas psicodélico-medievais enquanto outros fecham os olhos e fingem que são invisíveis, enquanto desenvolvem fetiches obsessivos por qualquer coisa que não seja real.

Quarto Otaku

Isso me lembra da demagogia presidencial sobre o Fome Zero quando a obesidade já tinha se tornado um problema maior e mais sério.

Hoje, que todos somos ricas celebridades, nunca foram tantos os casos de depressão, alcoolismo, desperdício, alienação, consumo desenfreado e dependência de todo tipo de substância alteradora da percepção em um cotidiano monótono e confuso. Participamos de um banquete suntuoso, do qual não parece haver muito do que se orgulhar. Vale ter isso em mente ao analisar as tendências que nos são oferecidas em belos pratos, por serviçais anônimos.

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