Imagine-se muito, mas muito rico. Com um volume de dinheiro além de qualquer capacidade de compreensão. Tanto, mas tanto dinheiro que você seria capaz de comprar o que quisesse, quando quisesse.
Não, não, não. Acho que não estou conseguindo me fazer entender. É de muito mais dinheiro que eu estou falando. Um patrimônio maior do que o PIB de alguns países. E um razoável – mas não total – tempo livre. Sem nenhuma restrição ou condição. O que você faria? Se um deles fosse você no futuro, o que perguntaria? O que demandaria?
Com essa idéia em mente quero propor novas formas de pensar para 2010.
Acredito que a verdadeira pergunta cuja resposta vale um milhão de dólares seja: “o que você faria DEPOIS de ganhar um milhão de dólares?”. Ou alguns bilhões, para nosso exercício teórico tanto faz. Pode ser que você já tenha nascido muito rico, pouco importa. Imagine-se agora transportado para uma ou duas décadas depois, sentado em uma mesa agradável, com uma bela vista, conversando com seus amigos. Ah! Esqueci de contar que não foi só você que ficou milionário.
Perdeu um pouco a graça? Natural. Depois de alimentado e protegido, nada mais humano que a busca por outros tipos de bens que agreguem status e experiência. É essa procura constante que nos mantém em movimento, ágeis e compenetrados. O Taoísmo defende que o caminho é mais importante do que o destino, e mesmo a fé das três grandes religiões monoteístas está muito mais concentrada na busca pelo paraíso do que nas coisas a fazer uma vez chegado lá. Vale lembrar que o Kama Sutra diz o que se deve fazer por aqui e que o Corão é bastante discreto quanto às atividades no Houris.
Por mais que muitas estratégias mercadológicas tentem dizer o contrário, o prazer na busca é considerado bem maior do que o da conquista, fato visível nas mais variadas atividades sociais: a torcida pelo esportista mais fraco, a admiração pelos que subiram na vida, a busca pela superação de obstáculos, a conquista amorosa… não faltam exemplos de paraísos cotidianos, muitas vezes só descobertos através de uma dolorida nostalgia.

Maldita Pixar. Já vi esse filme três vezes e sempre choro.
De volta à mesa de reminiscências, a conversa pode até tocar em um ou outro bem material, mas apenas por valor informativo, já que todos são, feito corretores yuppies de Wall Street nos anos 90, belos, jovens e ricos.
A conversa à mesa, então, voltar-se-ia para aquilo que cada um tem de único: suas experiências. À medida que dinheiro não é mais um problema, as lembranças das viagens, restaurantes, livros, filmes, eventos e músicas deve ser inesquecível, não? Não. Para sua surpresa, ela é tediosa, monótona. Quando se tem acesso fácil a praticamente tudo, a conquista perde a graça e tudo o que sobra são reações mecânicas, primitivas, quase brutais para satisfazer o corpo e anestesiar o cérebro.
Como eu sei? Porque estou lá. Você, a propósito, me faz companhia.
Comecei a pensar no assunto quando fui à Arábia Saudita, no ano passado. Em conversas com colegas de trabalho, o assunto caiu naturalmente no modo de vida de um Sultão do Najd ou do Hejaz, com seus palácios, carrões de luxo, barcos e aviões. Na minha imaginação, mesmo sem os tapetes voadores, eles ainda deveriam viver grandiosamente. Pois foi com espanto que soube de várias histórias de depressão, tédio, ignorância ou isolamento. Claro que sempre tinha um ou outro que dava um pulinho em Londres fazer a festa da Harrods antes que os chineses tomem conta, mas em geral, eles eram bem menos felizes do que eu imaginava.
Na hora me lembrei de um trecho do poema “Tabacaria“, escrito pelo Tio Fernando Pessoa, versão Álvaro de Campos:
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo
Que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses
Nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade
De tudo isso sem fazer nada disso);
Faz sentido. Mas não vou entrar nos detalhes daqueles meninos pobres que se descobrem artistas, fazem o maior sucesso, se enchem de tudo que é tipo de psicotrópicos (para ver se o cérebro pega no tranco, talvez) e depois largam tudo e viram Baby Consuelo porque isso tudo é muito, muito manjado.

Julie e sua tara por manteiga tem um quê de “Último Tango em Paris“, não?
Toco no assunto porque chafurdamos em uma era de abundância sem precedentes. Aquilo que era privilégio de reis e dos muito ricos hoje pode ser encontrado na prateleira de um supermercado, entregue em casa ou baixado em alguns segundos se a conexão for larga o bastante. Nunca se viveu tanto nem se teve acesso a tanto conhecimento. Aulas das universidades mais prestigiadas fazem companhias a podcasts de museus e institutos de pesquisa e quase ninguém os baixa. Tutoriais para qualquer coisa estão disponíveis nos Youtubes, mas são ofuscados por vídeos de crianças dopadas ou gatos tocando piano. Em busca de emoção, muitos deixam seu cotidiano ruir enquanto mergulham em sagas psicodélico-medievais enquanto outros fecham os olhos e fingem que são invisíveis, enquanto desenvolvem fetiches obsessivos por qualquer coisa que não seja real.

Isso me lembra da demagogia presidencial sobre o Fome Zero quando a obesidade já tinha se tornado um problema maior e mais sério.
Hoje, que todos somos ricas celebridades, nunca foram tantos os casos de depressão, alcoolismo, desperdício, alienação, consumo desenfreado e dependência de todo tipo de substância alteradora da percepção em um cotidiano monótono e confuso. Participamos de um banquete suntuoso, do qual não parece haver muito do que se orgulhar. Vale ter isso em mente ao analisar as tendências que nos são oferecidas em belos pratos, por serviçais anônimos.

Acho que peguei o ponto do texto lendo o penúltimo parágrafo. A pergunta inicial fez bem mais sentido. Não sei a resposta, mas certamente vai ser uma coisa interessante pra ficar pensando durante o ano. Obrigado por postr, Luli.
Acho tb que o seu texto, principalmente o começo dele, complementa de alguma forma este texto do Alex Bogusky, que só li há alguns dias. Posso estar viajando e uma coisa não ter nada a ver com a outra, mas foi do que eu lembrei quando estava lendo.
[]´s
Interessante.
Dá pra perceber que a sociedade passa por um momento de comodismo apenas contando o número de trintões morando com as mães. Fato paralelo ao de que não há maior indústria que a do entretenimento, e como foi dito: “Depois de alimentado e protegido, nada mais humano que a busca por outros tipos de bens que agreguem status e experiência.”
O Poder deve vir acompanhado de sabedoria e equilíbrio, pois se a mente não for proporcionalmente ampla, ela explode. E se não houver equilíbrio o suficiente, quanto maior for o poder, maior será o tombo.
Estamos numa era de pessoas existencialmente obesas e desinteressadas no próprio prazer de consumir a vida (assim como consumimos calorias sendo saudáveis).
Em outras palavras, estamos numa era de babacas.
Bastante cheiro da clássica depre de fim de ano mas é um exercício bem válido.
É uma coisa “e agora josé?” Depois de conquistarmos tanto parece q a vida da humanidade como um todo vai perdendo o sentido, como outro exercício vale assistir idiocracy – http://www.youtube.com/watch?v=L0yQunhOaU0 .
Isso também me lembra um tio que é muito bem sucedido, casa grande, familia bem, carro do ano, viagens, mas que conseguiu dois cachorros ENORMES q me dão a impressão de ter como única função dar aquela atrapalhada, dificultada na via, pra ver se dá gostinho.
Agora ligando com relacionamentos amorosos, que atire a primeira pedra que nunca deixou ignorou alguém que dava bola para correr atrás de alguém que te ignorava.
Por isso os jogos tem nível de dificuldade…
Ou não.
Posso dizer que esse é o melhor texto de 2010… até agora. Também vi uma retrospectiva de ótimos filmes de 2009, pelo menos em questão de reflexão e conteúdo sobre a “jornada”.
Agora que estamos chegando, pelo menos as classes abastadas, a uma era de suficiência das necessidades, informação a nível ridiculamente fácil e… bem, muito poder na mão, é mais do que óbvio que o próximo passo vai ser aprender a regular isso com a necessidade de encontrar prazer independente dessas coisas. O bebê passa boa parte de seus primeiros meses usando o reflexo de contrar a mão ao toque de qualquer objeto, apenas para aprender algum tempo depois a NÃO fazer isso, para poder soltar e pegar “outras coisas”. Como a ontogênese de cada bebê segue a filogênese da nossa evolução… Assim deve ser também com nossos “cabeças”.
Agora que já tem tudo, hora de aprender a “se soltar”. Vai acontecer, mas demora.
“A vida é um pêndulo que oscila entre o tédio e o sofrimento.” (Schopenhauer)
o que precisamos é usar botas apertadas só pra poder tirá-las depois, e sermos felizes. Sem o mais baixo não tem o mais alto, e o meio termo é o tédio.
aliás, é por isso que esses caras ficam deprimidos: é o sapato apertado deles, que vem naturalmente.
aliás, não só esses caras, mas qualquer um que fique deprimido, e até os emos da vida. (já que você queria que alguém fizesse um tcc sobre eles!)
Luli,
“Ouro de tolo” do Raul Seixas, neles “…acho tudo isso um saaaco!”.
Ótimo texto!
Muito bom o texto. Muitas pessoas atribuem a felicidade a conquista de um objetivo e isso pode frustrar quem já é extremamente bem sucedido. Talvez por isso as taxas de suicídio em países desenvolvidos sejam tão elevadas.
Eu gosto bastante de uma frase de Gandhi sobre isso: “Não há um caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho.”
Como sempre, um comentário inteligente no meio de uma sociedade tão ridícula e tão mentirosa.
Ficadica: Não importa onde você vai ou quer chegar. O importante é o caminho.
Faltou um ponto de contraponto a essa releitura “maslowiana”. Este mesmo estado de coisas alimenta uma indústria eternamente em ascenção e diversidade, a indústria da autoajuda (a nova era, apocalipses e religiões estão embutidas nela) em que os bilhões de “milionários” tentam fugir do tédio e da ignorância não apenas com drogas químicas, mas com drogas simbólicas, institucionais e o que mais permita dar um contexto, mesmo que aparente, de compreensão do mundo. Tudo nos levará a novos holocaustos, mas sobraremos. Sobraremos. Mesmo entre sobras.
este texto me lembrou um artigo que li sobre os primeiros homens que foram a lua.
Um virou alcoolotra, outro paranoico e solitário, achando que todos estavam querendo se aproveitar dele…
No final a frase “Oque uma pessoa que foi já a Lua pode querer mais da vida?”
querer ir ao sol como Ícaro.
É …estranho, mas tenho uma filha linda , e posso dizer que me pego pensando muito sobre este assunto.
A que ponto chegaremos?
Enfim acho que a hipocrisia será a palavra do momento.
Belo texto.
Você vai gostar dum episódio do documentário The American Future – A History do historiador Simon Schama chamado Land of Plenty que fala das encrencas atuais dos EUA por conta de um estilo de vida que reflete muito do que você aborda neste post.
Beleza esta sua análise.
Há algum tempo li isto:
“It is good to have an end to journey towards; but it is the journey that matters, in the end.” — Ursula K. LeGuin E cheguei a conclusão de que devo continuar andando, (cowboy pls, Johnnie Walker ;-)
Adorei seu blog! É a primeira vez que eu entro e to amando. Enfim seus pensamentos me lembram algumas resenhas dos livros de Gilles Lipovetsky, e ele fala bastante sobre os males da pós modernidade. Mas comentando esse ótimo post, as vezes eu me pergunto se algum dia já fomos “completos”, ou se a alienação é fruto exclusivo da contemporaneidade. Explico. No último parágrafo você começou com “Hoje (…)” e será que nosso “banquete suntuoso” começou a ser degustado agora, ou apenas temos mais “pratos” (= recursos) pra consumir? Acho que essa alienação “pão e circo” sempre existiu. Enfim acho que viajei um pouco, mas esse é um texto mto bom.
Estava procurado um texto seu e acabei achando uma pérola, esse post. Patabéns pela lucidez de seus pensamentos e pelas referências que usa para ilustrar seuraciocíio…