Por mais que a sociedade moderna (ainda) dê uma imensa importância à palavra escrita e aos conceitos sólidos, imutáveis e rígidos da engenharia de processos, fica cada vez mais claro o fato de que as coisas que vemos no mundo demandam uma interpretação subjetiva ou que, pelo menos, não são tão óbvias nem inquestionáveis como por muito tempo tentamos acreditar.
Não se pode culpar ninguém por uma visão de mundo estática e definitiva, com definições precisas do que é “certo” e do que é “errado”. Por mais que, na maioria das vezes, essas classificações tenham sido artificiais e impostas, elas só foram aceitas por serem bastante confortáveis. O cotidiano fica muito mais fácil de assimilar em um mundo estável, por mais que as discussões sobre a natureza da realidade sejam inspiradoras. Fenomenologia, Sociologia e Mecânica quântica nunca ajudadram ninguém a encarar melhor o trânsito ou a suportar injustiças.
Mas “confortável” costuma estar muito longe de “verdadeiro”. Muita gente ainda chama de científica uma visão dogmática, estática e retrógrada que está mais para fundamentalista que para progressiva. Por mais sólida que pareça uma situação, ela sempre está sujeita à mudança. Nos anos 70, ninguém suspeitava que a mídia de massa correria risco de extinção em menos de meio século. Hoje em dia fica cada vez mais difícil encontrar alguém cuja única fonte de informação esteja nos jornais, revistas e TV.
A interpretação do mundo, por mais trabalhosa que seja, costuma levar a uma maior compreensão e conseqüente preparação para o ambiente que nos cerca. À medida que, por causa da integração proporcionada pela Internet e pelos meios de interação que ela promove, a percepção (e conhecimento) do mundo aumenta, aumentam também a integração entre os elementos e valores de diversas culturas. Nesse processo, as certezas são cada vez menores. Por isso, quem trabalha com comunicação e manipula símbolos – portanto transmite interpretações o tempo todo – precisa prestar ainda mais atenção na mensagem que pretende transmitir.
Um fato que estamos começando a perceber é que a compreensão visual vem bem antes da leitura. A criança olha e reconhece partes do ambiente antes mesmo de poder falar. Mesmo depois de adulto, é comum a situação em que o indivíduo consegue “ver” uma imagem em suas memórias, mas lhe faltam palavras para descrevê-la. Isso quer dizer que a mensagem foi assimilada, embora não consiga ser transmitida. Se o que acontece é o contrário, as palavras são compreendidas mas a imagem não se forma na cabeça, a única conclusão que se pode chegar é que a mensagem não foi transmitida.
Em outras palavras, o processo de se ver e prestar atenção estabelece o seu lugar com relação ao mundo que o cerca. Uma cena pode até ser explicada com palavras, mas raramente essa explicação é completa ou mesmo satisfatória. Quem se decepciona ao ver a adaptação cinematográfica de um livro na verdade chegou à simples constatação que sua própria interpretação visual das palavras foi melhor, mais profunda ou simplesmente diferente da de quem fez o filme. Quem, ao contrário, lê o livro depois de ter visto o filme, não consegue tirar da cabeça os rostos dos atores, por piores que sejam. Quer melhor exemplo da importância das imagens?
Outro exemplo comum para ilustrar bem a diferença entre o que vemos e o que compreendemos é o pôr-do sol. Por mais que saibamos que a Terra está girando e que a quantidade de ar e partículas em suspensão funcionam como um filtro que o faz parecer maior e mais alaranjado, a sensação de que o sol está “indo embora” nunca desaparece por completo. O conhecimento nunca se encaixa perfeitamente na visão.
Outro fator importante para se levar em consideração é o contexto. Nunca olhamos para uma coisa só: estamos sempre olhando para as relações entre os objetos – e para a relação entre eles e nós. A visão está continuamente ativa, em movimento, agrupando, classificando, aglutinando coisas. Para complicar ainda mais o cenário, a forma com que vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos e acreditamos. Essa visão, que vem antes das palavras, conceitos e idéias, e que nunca pode ser completamente coberta por elas, não é uma reação mecânica a um estímulo. O indivíduo só vê realmente as coisas para as quais se olhou e resolveu prestar atenção. Olhar é uma escolha, e nessa escolha, uma relação se estabelece. Um ponto de vista – retratado em uma fotografia, uma ilustração ou até mesmo na composição de uma página – é um recorte do mundo em volta. Esse recorte estabelece e transmite uma hierarquia de valores e importâncias, que será reinterpretado por cada novo leitor, e retransmitido de todas as formas possíveis. Até na mais fraquinha delas, as palavras.
O mundo, como nos é apresentado pelas mídias e pelas pessoas que conhecemos, sempre será muito mais do que um fato objetivo, sempre demandará uma interpretação, mesmo que seja inconsciente. Quando vemos uma cena, tendemos a nos situar nela. Esse processo estabelece uma relação que vai definir valores tão abstratos como a beleza e o gosto. Antes que digam para você que esses termos não se discutem, saiba que na verdade eles só podem ser compreendidos com relação ao que se sabe. Quem lê muito pouco pode considerar um best-seller literatura de alto nível. Quem não se importa com o que ouve pode achar qualquer música boa. Quem for alimentado com um conjunto rico de referências tende naturalmente a ser mais exigente com relação ao que considera belo e de bom gosto.
Se você realmente importa com seu próximo layout e pretende que ele seja duradouro, tente evitar os grafismos e estilos “da moda” e procure observar os objetos que você tem em mãos para compor. Olhe para cada um deles e tente imaginar como eles interagem entre si e com o leitor: por contraste, por similaridade, por proximidade… procure, se possível, evitar o belo tanto quanto você evita o feio. Objetos não têm essas propriedades, elas são construídas na cabeça de quem as vê. Quanto mais original, intrigante e provocadora for esta relação, mais interessante, cativante e duradouro será o design.
Maio de 2009 – Revista Webdesign nº 65
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