Tem gente que acha discos de vinil uma coisa antiga. Tem gente que acha papel uma tecnologia ultrapassada. Será? Gostaria de propor algo diferente com este artigo, e peço a você que acompanhe meu raciocínio.
Antes de mais nada é preciso deixar claro que eu não sou saudosista, nem defendo uma nostalgia esquizofrênica de tempos que não vivi. Muito pelo contrário, gosto tanto de tecnologia quanto você, talvez até mais. Minha proposta é outra: acho que papel e discos de vinil são tecnologias mais avançadas que seus equipamentos digitais. Ou, invertendo as palavras mas não o raciocínio, não acredito que tenha surgido uma tecnologia avançada o bastante a ponto de substituí-los.
Quando se pensa no MP3 e em editores de texto como evoluções, a primeira vantagem que surge naturalmente é a capacidade de se carregar enormes quantidades de material em um espaço bem pequeno. Pode-se até questionar qual seria a vantagem efetiva de se carregar no bolso mil páginas de texto ou mil horas de música, já que ninguém teria a real necessidade de ler ou ouvir tanto material, mas prefiro deixar essa discussão de lado. Minha implicância com os formatos digitais é que eles ainda são muito pouco interativos.
Vamos começar com a música. Desde o início dos tempos, ela sempre esteve ligada a um ritual que, mesmo que não tenha nada de místico, está diretamente ligado a uma forma diferente de se relacionar com o ambiente em volta. De festas a procissões, de trilhas sonoras a lojas, o som sempre foi fundamental para ajudar a criar o clima do ambiente em que se está. Pode ser bastante “prático” levar suas bandas preferidas no bolso e ouvi-las em qualquer lugar, mas quem disse que música precisa ser prática?
Os antigos discos de vinil obrigavam seus usuários a fazerem uma pausa para ouvir a música. Era necessário escolher o disco, abri-lo (mesmo que não fossem duplos, muitos discos tinham uma capa tão grande que costumava preencher todo o campo de visão), remover com cuidado o disco, ligar o aparelho, colocar o disco no prato, posicionar a agulha… essa trabalheira, por mais que pareça desnecessária, obriga o ouvinte a fazer uma pausa e se dedicar ao som que estava prestes a ouvir, o que não deixa de ser um ritual e uma certa forma de meditação.
Mesmo que você considere essa pausa inútil e razoavelmente irritante em uma época que ninguém mais tem tempo, não há como negar outra vantagem do vinil com relação aos CDs e MP3: ele é muito mais interativo. Ao fazer aquilo que sua mãe jamais deixaria e colocar a mão em cima do disco, virando-o ao contrário, segurando suas bordas ou forçando sua rotação, a vitrola (perdão, “pick-up” para mim sempre foi um tipo de carro) permite que qualquer um seja um músico, interaja com a melodia, crie seus próprios ritmos e os apresente na forma que quiser. Antes do disco de vinil, música era para músicos. Depois dele ela voltou a sê-lo. Sintetizadores podem ser bastante maleáveis, mas ainda são complicados demais para o usuário leigo. E bem menos intuitivos que um disco que gire entre um prato e uma agulha.
Essa característica democrática e interativa também está presente no papel e o torna insubstituível. Por mais que calculadoras, celulares e os mais completos programas de computador sejam versáteis, eles ainda perdem em área útil, capacidade de empilhamento e visibilidade para o bloco de rascunho mais sem-vergonha que exista. Isso sem contar que o conteúdo que está no papel pode ser visto e rabiscado automaticamente, permite a mistura de texto com gráficos e a montagem de estruturas tridimensionais sem esforço algum. Não há PowerPoint ou equivalente que permita a visualização de tantas idéias quanto uma mesa cheia de post-its.
Não há dúvidas que os editores de textos tornaram a capacidade de criação de layouts, reprodução e alteração dos conteúdos muito mais eficiente, mas essa é só uma das várias vantagens do papel. Ainda há muito a melhorar nas tecnologias para que sejam tão amigáveis quanto uma prancheta e lápis que, além de tudo, ainda são muito mais baratas, mais resistentes à água e que não dá para roer a ponta traseira de um mouse se você estiver sem idéias.
Em outras palavras, praticidade é importante mas não é a única característica que precisa ser automatizada. Ainda há muito trabalho a percorrer na busca de uma interface verdadeiramente amigável, transparente e interativa. O mesmo se aplica a várias outras interfaces. Boa parte das soluções gráficas que são vistas na Web e em celulares hoje em dia são derivadas de padrões, estruturas, convenções ou – pior – da concorrência. Na busca por mimar o consumidor, são poucos os designers que se perguntam o que ele realmente quer. Menos ainda são aqueles que, como o que acontece na indústria de videogames, resolvem desafiar os padrões e criar uma nova forma de interface. Isso faz com que muita coisa desenvolvida com a melhor das intenções acabe emburrecendo e automatizando seus usuários, obrigando-o a realizar uma grande quantidade de tarefas estúpidas ou inúteis simplesmente por não ousar.
Evolução é um processo bem mais sofisticado do que uma simples inovação tecnológica. Ela envolve uma completa superação dos hábitos anteriores, de tal forma que só se pense neles por brincadeira ou nostalgia. O celular é uma evolução, o computador também. Mas nem tudo o que eles transportam o é. Você pode até gostar do barulho da máquina de escrever – eu gosto, me ajuda a me concentrar – mas não é por isso que irá escrever seus textos em papel e enviá-los pelo correio.
Quem não rabisca em uma folha em branco antes de ligar o Photoshop, o Word ou o PowerPoint não sabe o que perde.
Junho de 2009 – Revista Webdesign nº 66
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