Design, Textos

Foi bom pra você também, meu bem?

Satisfação é um objetivo estranho. Por mais que todo mundo a procure, a sensação que se tem quando ela é atingida não parece compensar o esforço tido para conquistá-la. O indivíduo “satisfeito”, visto de perto, não tem uma expressão feliz, mas aliviada. Alguns chegam até a desenvolver um tipo de repulsa pragmática com relação ao que acabaram de conquistar. Quem come até ficar satisfeito, por exemplo, não consegue mais pensar em comida. O mesmo vale para o sono, a sede e tantos outros prazeres carnais.

Já com sedução a história é completamente diferente: o que se apresenta costuma ser pouco, é entregue em porções pequenas e parece nunca ter fim. De histórias a promessas, a sensação é de um strip-tease infinito que, como o termo inglês tão bem define, provoca à medida que revela. Quem está “seduzido” sabe que dificilmente ficará satisfeito e não parece se incomodar com isso. Pelo contrário, quanto menor a capacidade de satisfação, maior o poder de sedução.

O equilíbrio entre essas duas forças poderosas é usado, de forma instintiva ou científica, desde o início da vida humana em sociedade. Amantes, contadores de histórias e líderes sempre foram hábeis em administrá-las para transmitirem suas mensagens através de parábolas, lendas e contos. O fascínio que os mitos, religiosos ou não, têm sobre praticamente todo mundo mostra como é natural tentar desvendar mistérios e procurar saber como as coisas começaram e como terminarão.

Pode não parecer, mas um objeto que esconda mais do que revele na verdade está contando uma história e estimulando quem o vê a complementar o que é mostrado com o que é sonhado e com o que acredita saber. Caso você ainda não saiba, decotes (muito antes deles, véus e túnicas) não atraem pelo que revelam, mas pelo que a imaginação provoca sobre o que escondem.

O ser humano é um primata muito, muito curioso. Sua mente privilegiada tem uma capacidade única de formar símbolos, interpretá-los e relacioná-los com os objetos em volta. Quem nunca se identificou com um personagem em uma história nem se impressionou com uma idéia criativa tida em um objeto antigo que prove o contrário. É por isso que boas histórias – como boas peças de design – estimulam a curiosidade e continuam a fazer conexões, independente da cultura e da época em que foram feitas.

Por mais que existam coisas e idéias muito atraentes, a sedução está longe de ser uma grandeza universal. Dinheiro, chocolate e sexo, por exemplo, exercem influências variadas conforme a pessoa e a ocasião e até há quem sinceramente não se interesse por nenhum deles. Mas é ingênuo acreditar que se possa viver completamente livre dela, como prega o Budismo. A busca pelo desapego total é tão fascinante e impossível quanto a eterna juventude ou a riqueza infinita.

Objetos e símbolos são interpretações diferentes de um mesmo contexto. A não ser em casos muito raros, nenhuma delas pode ser isolada ou desligada. A função do design e da comunicação é saber combiná-las para transmitir a mensagem que se pretende, no tom adequado. É certo que determinados objetos exigem uma abordagem mais racional enquanto outros pedem um contexto mais emocional, mas se o designer apelar demais para a percepção poderá chegar a um resultado muito fútil ou vazio. Já se carregar a mão no outro lado, pode ser visto como chato, insosso e sem apelo.

Por isso é importante levar em conta que o design não pode ser absolutamente novo nem completamente banal. Por mais que sejam criativos, os desfiles de moda, as exposições de arte contemporânea, os filmes e as peças musicais de extrema vanguarda costumam atrair mais risos que admiração. A mesma coisa acontece com os produtos feitos para quem pertence a uma faixa etária ou universo cultural bastante diferente do seu, seja mais velho ou mais novo.

Não existe a objetividade absoluta quando se trata de comunicação. A absorção da mensagem depende das sensações que ela provoca ou, em outras palavras, sedução depende de informação. As pessoas tendem a apreciar aquilo que é parcialmente familiar. Coisas que não compartilhem referências com seu público se tornam herméticas e correm o sério risco de não serem apreciadas. Coisas muito conhecidas não trazem novidades e por isso não causam interesse.

Muito se discute sobre o que é e o que deixa de ser um bom design. Enquanto o debate se restringir aos objetos, técnicas, estilos, modas, tendências ou à percepção que se tem delas, não acredito que se chegue a lugar algum. As melhores peças que tenho visto ao longo da minha carreira não traziam em si nenhum absoluto nem tampouco procuravam estabelecer algum estilo. Pelo contrário, elas combinavam elementos familiares de uma forma completamente inusitada.

Ou como dizem por aí, bastante criativa.

Não conheço nada mais sedutor que isso.

Abril de 2009 – Revista Webdesign nº 64

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