Cultura Digital, Inovação, Tendências

Gigatendências, parte III:
zoom out

feiraInternet não é evolução, mas retomada. Pelo menos a “nova” Internet, que muitos ainda teimam em chamar de webdois. A maioria do que se fala em inovação, gadgets, widgets e outras traquitanas e mandracarias diz respeito a uma relação mais direta com a informação e as pessoas, cada vez com menos intermediários visíveis.

tempoAntigamente era preciso olhar o céu, cheirar o ar ou sentir uma pontada em algum osso para perceber que o tempo estava para mudar. Hoje a tela do celular traz a mesma informação. Brevemente não será preciso olhar para lugar algum, pois as roupas e o ambiente se moldarão às mudanças. Ganha-se em precisão, perde-se no aumento da dependência. No meio-termo entre estes dois estados surgiram várias próteses – rádio, TV, jornais – que invadiam as casas, determinando um hábito e um discurso, que hoje está em seus últimos capítulos.

Livros, mídia, publicidade, computadores, relógios… todos tiveram um papel muito importante na divulgação de idéias e no acesso ao conhecimento de outras épocas e países. Hoje seus esqueletos são estruturas desengonçadas, roupas curtas demais, fósseis que resistem a uma mudança tão poderosa quanto rápida e indiscutível. A digitalização, como a chegada do inverno, acontece aos poucos, quase imperceptível, até que não seja possível negá-la.

resistência

Quem resiste a ela parece usuário de Botox, que prefere ter um rosto plastificado e inexpressivo a admitir que está, inevitavelmente, mais velho. Seus argumentos, cada vez mais rasos, se apóiam em uma ou outra particularidade tecnológica que será rapidamente eliminada – e que, no fundo, está longe de ser o motivo real. Na época da Internet movida a Modem, muitos dos que se queixavam de sua lentidão não sabiam para que a queriam mais rápida. Quando a banda larga se tornou habitual, os mesmos que reclamavam da lerdeza passaram a questionar o excesso de informação, a falta de foco, o ruído e outras evidências de uma tal “falência dos costumes“.

Sim, ainda é mais confortável ler um jornal de papel, brincar com o controle remoto da TV da sala, usar um relógio no pulso ou como despertador, escrever um texto com teclado e mouse. Da mesma forma que já foi prático e eficiente mandar telegramas, viajar a cavalo, ouvir radionovelas, colecionar discos de vinil, ver DVDs, surfar em pranchas de madeira e fazer a barba com navalhas. O apego por tecnologias verdadeiramente ultrapassadas – como o fotolito para off-set – não é “purismo”, é só fetiche.

Ax

American Express: até quando eles dependerão da assinatura? Aliás, será que verificam a assinatura? Um amigo meu brinca de assinar como personagens históricos e, até hoje, nunca teve seu crédito negado. Mesmo quando assinou Buffalo Bill.

Sempre existe um nostálgico, entusiasta, burocrata ou preguiçoso que gosta de proteger o mundo como ele era até chegar o momento em que essa atitude não é nada mais do que ridícula. Com o tempo as tecnologias são comparadas, relativizadas e, por fim, vence a que mais agradar ao tio Darwin. Você já viu essa história. Algumas vezes.

McLuhanO canibalismo tecnológico sempre me lembra de Marshall McLuhan, sempre tão citado quando o assunto é Internet e desdobramentos do mundo digital – embora, morto em 1980, não tenha chegado a ver “rede mundial” alguma. Várias de suas previsões impressionantemente certas do mundo digital foram, na verdade, imaginadas para o meio errado, a TV. Em um de seus livros mais pop, ele defendia que os meios eletrônicos seriam “extensões do homem” (em outras palavras, próteses) e que, como todas as extensões mecânicas – roda, roupas, ferramentas – serviria para amplificar o alcance do indivíduo e aumentar sua força.

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Não há como negar que o começo da Internet era a cara dele, pois não consistia de muito mais do que uma mídia de massa como as outras, só que um pouco mais abrangente e maleável. Hoje as coisas são bem diferentes. A rede não é mais uma extensão das coisas, mas das relações que estabelecemos com elas.

Wired McLuhanTalvez por isso que acredite que seu tempo como “guru” do cibermundinho tenha acabado. A partir do momento que as próteses se tornam tão evoluídas a ponto de se tornarem transparentes, elas deixam de ser próteses para serem incorporadas ao cotidiano e fazerem parte do ambiente, como a energia elétrica, saneamento básico e coleta de lixo.

Desde a popularização da banda larga – e, com ela, de todos os serviços de comunicação, expressão e intercâmbio social, as trocas voltam a ter a intensidade que tinham nos primeiros agrupamentos humanos. Mudam a forma de contato e o tamanho do grupo, mas as relações – e seus papéis – permanecem os mesmos. O Google não tem a sabedoria atribuída à mística de um Oráculo de Delfos nem a experiência acumulada de um imã, pastor, rabino, pajé ou padre. Mas, da mesma forma que seus predecessores, redireciona as perguntas para uma gigantesca base de dados de experiências pregressas. Ainda é genérico demais, imparcial demais, estúpido demais, mas vem evoluindo a um ritmo tão assustador que não surpreende que seus sucessores, como o Wolfram Alpha, em breve passem a tomar várias das decisões cotidianas e corriqueiras. Não é à toa que o Google investe pesado na geração e aquisição de conteúdo: a busca, por si só, não é mais suficiente.

O futuro da comunicação está na relação. O ato de “tuitar” é maior do que o Twitter e, mesmo que este feche as portas, provavelmente perdurará. Sistemas de trocas de mensagens instantâneas surgiram com o IRC, se popularizaram com o ICQ, se expandiram para o SMS e hoje são usados até no Skype.

Hoje a interação que os aparelhos e serviços proporcionam é muito maior do que os tamagotchis que as transportam. As relações que se constroem através das mídias sociais são muito mais potentes e abrangentes do que o hardware em que são utilizadas. Talvez você não tenha percebido (como muitas firmas obtusas ainda não o fizeram), mas os celulares são as novas máquinas de acessar redes sociais – não adianta bloqueá-las.

O diálogo, enfim, se tornou hoje maior do que o telefone, tio McLuhan. Queria que o sr. estivesse por aqui para ver, é tudo tão bonito. Tenho certeza que uma olhadela no cotidiano inspiraria várias teorias novas.

Um bom exemplo está no contato freqüente que se tem com os familiares. No tempo da minha avó, ele precisava ser físico para ser válido. No mínimo, uma carta ou cartão postal (!). Naquela época, falar com a mãe pelo telefone era algo estranho, distante, artificial. Hoje são tantas as formas de contato entre os membros de um grupo social que “falar” com alguém pode significar uma conversa via telefone, por e-mail, via scraps, updates, tweets, celular…

Tudo muda muito rápido, e é uma tendência natural de quem pensa em máquinas imaginar que o futuro se consiste em melhorá-las, tornando-as mais fortes, resistentes, velozes, pequenas e baratas. Nem sempre. Muitas vezes essa compulsão pela aceleração e a especialização pode a um estreitamento da visão – e daí caímos no problema que detalhei no post anterior.

Para evitar esse bitolamento, minha proposta é simples: antes de avançar, retroceda. Antes de fazer qualquer estratégia com mídias sociais, tente entender o contexto em que essas interações se dão. Por que alguém bloga? Como tuíta? Em que contexto se deve agir? Ao se dar um passo para trás, a visão se amplifica, feito zoom out de câmara. Com uma panorâmica do cenário fica mais fácil decidir, entre tantos, qual o melhor caminho a seguir.

No fundo, é como uma luta de Sumô: aqueles dois gigantes têm alguns segundos para analisar as fraquezas do outro enquanto escondem seus próprios pontos fracos. Quando partem para o ataque, é porque sabem exatamente o que pretendem fazer. Não há tempo para tatear ou apalpar. Para se planejar novos cenários é preciso, acima de tudo, ver a realidade como ela é, não como gostaríamos que fosse. Em time que está ganhando, enfim, é preciso mexer para que continue na frente. A melhor forma de fazê-lo talvez seja retroceder um pouco para poder, depois, avançar com segurança.

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