Criatividade, Cultura Digital, Inovação

Marcas e conversas, parte II

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No post anterior, defendi que a Internet como a conhecemos odeia a publicidade como a conhecemos por sua natureza arrogante, impertinente e obstrusiva. Já não é a primeira vez que falo nisso, mas volto ao tema porque ainda não consegui entender qual foi o delírio coletivo que levou a publicidade, na segunda metade do século XX a ter perdido a compostura. Sem motivo aparente, o “gentil patrocinador” deixou a elegância de lado e passou a importunar, interromper, incomodar a ponto de se tornar desagradável, evitado feito chato em festa, ignorado e desprezado, assunto de uma categoria muito particular de nerds, a desculpa perfeita para fugir para o banheiro.

SaatchiOliveto

Uma notável diferença em elegância. Sem contar que o primeiro é filantropo e dono de um belíssimo museu de arte contemporânea e o outro ainda pede ajuda para escrever um livreco sobre um time de futebol.
Cada povo tem o magnata publicitário que merece.

SombreroA sabedoria popular diz que para bom entendedor, meia palavra basta. Já quem não tem noção e é ignorado não se toca e passa a falar mais alto, a se vestir com cores mais berrantes, a atravessar o caminho de quem o ignora, a assediar insanamente, quando o bom senso indicaria o caminho oposto.

A propaganda tradicional, feito novo-rico ou bêbado em show, parece ter ignorado, por acaso ou propositalmente, todos os sinais de desconforto emitidos pelos públicos que ela chama de alvo, trata como gado ao dividi-lo em segmentos e faz questão de ignorar a voz e o ponto de vista.

Quando surge uma lei como a cidade limpa, outdoors são varridos do mapa e ninguém leva a sério os protestos e súplicas de uma classe profissional que o estimula a fumar, beber, andar de moto e se sentir velho, feio e pobre. Eles reclamam que o governo deveria cuidar dos pobres e da violência e deixar a propaganda em paz. Parecem se esquecer que seus reclames estimulam as diferenças e ódio social, sem contar que matam árvores à toa e poluem o ambiente, enfeiam a paisagem, enchem páginas de revista e sobrecarregam o correio com mensagens inúteis que só aumentam a sujeira.

O que seria do mundo se não pudéssemos fazer cocô na casa do Pedrinho?

O problema não está na publicidade, mas nos desvios que os abusos cometidos em seu nome provocaram com o tempo. Ninguém duvida que ela pode ser um importante mecenas para todo o conteúdo que consumimos através dos meios digitais, mas ela precisa, com urgência, mudar suas práticas. Atenção é um bem escasso e esgotável na nova comunicação, quem a poluir com bagulhos irrelevantes será escrachado. Na melhor das hipóteses, ignorado. O tempo das marcas surdas e dogmáticas, que interrompem a experiência do usuário para empurrar seus produtos goela abaixo acabou.

Não entendi muito bem onde está o bom senso em se montar uma superprodução com a Ivete Sangalo para falar de simplicidade com sotaque arrastado, mas deve ser porque não sou descolado o suficiente para entender o que o rapper quis dizer com “a tecnologia é uma espécie de magia que o cérebro humano não cria”. Confesso que achava exatamente o contrário.

Até mesmo as empresas mais arrogantes já perceberam que a época fácil do plano de mídia sem mensuração e do comercial com efeito lavagem cerebral já se foram. Em outras palavras, vem uma nova publicidade por aí. Ainda não se sabe qual é a sua cara, mas me parece evidente que ela não terá quase nada a ver com os banners, filmes comerciais e anúncios de hoje.

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Se é bayer é bom, pronto, acabou? Há controvérsias.

O que fazer, então? Não há resposta definitiva ou fórmula, mas há pistas. Seguem cinco práticas que têm tudo para dar certo e outras cinco que erram na mosca, para que você abstraia e crie critério:

5 acertos matadores:

BuddyPoke1. Aplicativos sociais – qualquer hot-site ou campanha de propaganda online depende de um problema estrutural: como o usuário não sabe que ele existe, é preciso fazer uma campanha de banners ou e-mail marketing para se chegar até eles. Ou seja, todo o esforço é duplicado, já que o usuário precisa ser impactado e depois se dirigir voluntariamente a um site. Ao se fazer ações dentro das redes sociais, a marca vai até onde o usuário já está, e isso poupa um trabalhão. Uma vez lá, em vez de banners que irritam e interrompem a experiência, pequenos aplicativos sociais que agreguem valor podem aumentar a visitação e agregar valor à marca de forma divertida e engajante. Parece comercial de TV? De certa forma sim, mas com uma significativa diferença: você escolhe que comerciais quer ver, e quem os mostra são seus amigos.

2. Mensurar - hoje mensurar é regra e o melhor argumento de vendas é o resultado efetivo de uma campanha. Há 20 anos – e em algumas agências de propaganda arcaicas, cujos burocratas são metidos a artistas – mensurar seria considerado uma heresia, pois tolhia a liberdade criativa. Naquela época – ou com aquela mentalidade – até poderia fazer sentido, pois ferramentas como focus groups não eram exatamente precisas. Hoje em dia ignorar a mensuração é mera estupidez.

Um Google Analytics (ou ferramentas mais potentes, se você estiver disposto a arcar com o custo delas) devem ser instalados antes de se lançar qualquer ação. Além desses serviços que medem a visitação, existem hoje formas ainda mais específicas de se medir a performance de uma campanha, reputação de marca ou produto, adequação da mensagem ao público, conversação entre a marca e seus usuários (e seu natural feedback), relacionamento com grupos e comunidades e formadores de opinião, engajamento do usuário à ação e, é claro, todos os resultados ligados a ações do usuário que sejam mensuráveis. Não usá-los é desconsiderar uma preciosa ferramenta de business intelligence sem ter motivo algum para isso além de incompetência.

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3. Evitar ações “experimentais” - esse termo é sinônimo de ação de pouca importância, pequeno orçamento e resultado desprezível. Dessa forma não se aprende nem se evolui. Toda e qualquer ação online deve ser planejada para fazer parte de uma estratégia sólida de comunicação da marca. Caso contrário seus resultados, se positivos, não poderão ser replicados e, se negativos, não poderão ser evitados. Simplesmente porque não podem ser escalados.

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Os caras do Pirate Bay Simpsonizados. Beeeem mais cult que as havaianas lisérgicas.


4. Buscar a superdistribuição
– A Internet permite que um comercial de TV, um filme ou um spot de rádio sejam distribuídos por canais jamais pensados antes. Alguns chamam de “viral” esse processo, mas viral é efeito, não causa. E costuma ser bem mais abrangente do que retransmitir uma mensagem. Prefiro considerar “superdistribuição” o ato de permitir que qualquer informação – ou qualquer ação comercial ou qualquer mensagem, em qualquer contexto, deve ser facilmente público e publicável. Um blog ou site que talvez nunca fale de sua marca pode mostrar um cartaz ou comercial dela, sem cobrar nada por isso, só porque achou legal.

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Praticamente qualquer anúncio japonês – de recrutamento a imóveis – tem uma caixinha de busca em algum canto. QR Code tem até em adesivo de banheira. Assim que der, escrevo um post sobre este país que, para mim, é o mais interessante do mundo.

5. Usar o Offline como suporte do online, não o contrário – muitas ações online são cópias pobres das campanhas de mídia de massa, o que é um contra-senso, já que os recursos da mídia mais mensurável e direcionada acabam ficando à mercê dos recursos de mídias genéricas e especulativas. Acredito que, em um futuro breve, os anúncios e programas de TV chamando para a experiência online serão a regra, não a exceção. A experiência digital pode ser central ou acessória para uma experiência ao vivo, mas o centro da comunicação deve ser online, pelos motivos acima. Até porque daqui a pouco vai ser muito difícil separar os dois mundos.

Para quem trabalha com produtos criativos no mundo offline, essa recomendação deve ser levada ainda mais em conta. Afinal de contas, qualquer produto digital – de um site otimizado a uma mensagem em QR Code – pode carregar todas as mensagens jurídicas, corporativas, formulários e outras bagagens criativas, deixando para a mídia de massa a feliz tarefa de criar uma mensagem bacana, relevante e cativante a ponto de estimular o usuário a ir atrás de mais. Em sua primeira temporada, LOST fez isso. Que eu saiba, ninguém reclamou.

Mas nem só de acertos se faz um aprendizado, coisa que qualquer skatista ou ciclista sabe muito bem. Para ajudar você a estruturar melhor seu plano de comunicação, no próximo post listo alguns erros de matar.

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