Já que todo mundo adoooora citar o caso da eleição presidencial dos Estados Unidos como um case de “bom uso” de mídias sociais – fato incontestável, que eu até detalho mais neste post – mas que aconteceu há mais do que uma gestação, quero trazer uma reflexão diferente para este post de retomada. Por mais que a decisão dos políticos tenha sido acertada e que o ambiente digital tenha contribuído, sem sombra de dúvida, para consolidar a sua campanha, acredito que há um fato mais importante – e com uma aplicação prática muito maior e mais imediata no dia-a-dia de todos – que o uso das comunidades online na promoção de um candidato razoavelmente desconhecido para um posto tão alto do governo de um país em um momento tão delicado.
Minha pergunta, mais direta, já foi feita no título deste post. A desdobro aqui:
Como, quando e de que fonte você ouviu falar
pela primeira vez de Barack Hussein Obama?
Como, quando e de que fonte você ouviu falar
que seu nome do meio era Hussein?
Como, quando e de que fonte você viu,
pela primeira vez, a foto daquele que se tornaria
(pelo menos pelos próximos meses)
o homem mais poderoso e influente do mundo?
Pode até parecer paranóia de roteiro ruim de ficção científica, mas não é. Até porque eu simpatizo – pelo menos por enquanto – com o sujeito.
Se a gestão Obama será boa para os EUA ou para o resto do mundo, se ele chegou tarde demais ou se nem São Maquiavel de Churchill salvariam o grande Titanic do Norte, como sempre, não vem ao caso. O que me chama a atenção, hoje bem mais que o fenômeno pontual da eleição, é a história da popularidade do candidato. De repente, de forma viral (como a calcinha da Hermione Granger, não como a Gripe Suína, que fique bem claro), todo mundo só falava nele. E ninguém para quem eu pergunto – e olha que venho fazendo essa pergunta há vários meses para pessoas bastante qualificadas – ninguém, nem uma única pessoa é capaz de responder com alguma precisão às perguntas acima.
O máximo de precisão que recebo chega a fazer inveja às médias de pesquisa de mercado, já que é algo como “Na Internet, provavelmente em um site, blog ou podcast americano, entre Março e Maio de 2007“. Não preciso dizer que, com uma precisão dessas, um vôo de São Paulo a Londres pode se considerar sortudo se pousar em Damasco ou Mogadíscio.
Essa história me lembrou algumas cenas divertidíssimas de um filme bem velho, Bruxas de Eastwick, em que as personagens, encantadas pela aparição de um sujeito galanteador e charmoso, ficavam perplexas ao perceber que não conseguiam guardar seu nome. Não acredito que haja um quê de diabólico, conspiratório (ou pior, publicitário) no bom Barack, mas que essa história tem algo de diferente, ora isso tem. Ainda mais se a confrontarmos com outras notícias de impacto parecido.
Você provavelmente ainda se lembra de como, quando e onde ouviu falar, pela primeira vez, do episódio em que Michael Jackson se juntou a Elvis Presley. Mesmo que tenha sido tão genérico como “na Internet” ou “pelo Twitter”, com um pouco de esforço chega-se facilmente à fonte que o impactou pela primeira vez. À medida que o resto da mídia passou a repetir essa informação, sua origem perdeu relevância. Mas como ainda é recente, poderia ser facilmente recuperada, se fosse importante.
A memória também parece funcionar com precisão quando o assunto é muito chocante, como a queda das torres feias e gigantescas de Nova York em 11/9/2001, naquele ataque arquitetado pelo homem das cavernas tão bilionário quanto psicopata (a vida é muito mais criativa que a arte). Todo mundo que tinha mais do que 8 anos de idade na época parece lembrar com precisão de como foi aquele dia – até alguns mais novos se lembram.
Mas, afinal de contas, por que eu implico tanto com o Obama que você não leu na Veja, Estadão, Folha, JB, Globo ou Zero Hora? Qual o problema do Obama que não lhe foi apresentado pela Globo, Bandeirantes, CBN ou MTV? A princípio, nenhum. Não com ele. Mas se examinarmos que hoje estamos envelopados em conteúdo e que praticamente toda notícia que recebemos chega pela nuvem, não identificada, sem autor ou fonte clara, bem daí as coisas se complicam.
Esse vídeo sensacional que me foi enviado pelo @nFormas_Design, do blog nFormas, ilustra bem a força de marca deste “super-herói” surgido do nada:
Qualquer fonte de informação vem de algum lugar. Se você não a testemunhou diretamente, ela deve ter chegado até você mediada por um autor ou editor. Este personagem, queira ou não, é um filtro. Qualquer aspirante a jornalista sabe que fotógrafos selecionam, através de seu enquadramento, a mensagem que pretendem transmitir. Nenhuma história é neutra e nenhuma verdade, absoluta. Qualquer narrador escolhe um ponto por onde começar, algo a ressaltar, algo a suprimir. Editores de veículos fazem o mesmo através de seus títulos, cortes e composição na revista. O resultado de todo esse trabalho de retórica – consciente ou não – é a linha editorial da história. Ela funciona dos dois lados.
Não sou jornalista, por isso relato o ponto de vista de quem lê. Um dos primeiros aprendizados sociais que temos é relativizar a informação recebida (tarefa dificílima para crianças e autistas). Se um tiozinho careta, um repórter sensacionalista, um carro de som de sindicato em greve ou um integrante de qualquer BBB fala algo, a informação tem uma importância diferente de um médico ou advogado ou professor. Quantas vezes você não ouviu que tal jornal é de direita, que tal revista tem sérios problemas editoriais ou bajula o governo porque depende de seus patrocínios? É o filtro em ação.

O problema fica sério quando, na anonimidade da Internet, o emissor desaparece ou se torna desconhecido. Quem chama isso de democracia da informação corre o risco de cometer um grave erro conceitual: democracia é um sistema em que a maioria vence e a minoria, derrotada, é obrigada a aceitar a vontade da maioria, mesmo que isso não signifiquem idéias melhores. O sistema em que cada um fala o que quiser e ouve o que bem entende não é democracia, é Anarquia.
Não cabe aqui defender um sistema ou outro, mas a falta de uma autoridade responsável pela informação pode levar à formação de lendas urbanas, boatos e a uma série de falsas verdades como as que a classe médica hoje enfrenta por concorrência do Dr. Google, que torna a maior parte dos doutores como portadores de “segunda opinião”, às vezes até terceira ou quarta. Não preciso dizer o quanto isso é grave, ainda mais se considerarmos que o único critério que os mecanismos de busca podem ter – e não é culpa deles – é a popularidade do conteúdo, não sua precisão ou veracidade.

A sociedade da busca em um mar de dados abundantes demanda, cada vez mais, critério e consciência. Se você acha que isso é papo de pesquisador sem conexão com a realidade, imagine o problema de marketing que uma empresa pode ter se os carros que vendem passam a ter fama de inseguros, seqüestráveis, preferidos dos ladrões? Ou o prejuízo que uma corretora de imóveis ou incorporadora pode sofrer se o bairro em que atua ganhar fama de perigoso, decadente, cafona? Imagine se todas essas informações forem mentiras e não houver nada de errado com o carro ou o bairro ou a roupa que não desbota ou o desodorante que não irrita a pele ou a vitamina que não engorda ou a escola que não tem pedófilos? Quem vai acreditar em propaganda ou RP ou na opinião da vítima injustiçada e endemoniada nessas horas?
Reputações nunca foram tão frágeis e a informação nunca demandou tanta verificação. É isso, mais do que qualquer caso de business 2.0, que me impressiona e que deveria chamar a sua atenção na história do Obama.
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Eu o conheci em 2006, com a revista Time =)
Ouvi pela primeiravez em 2006, conversando com Ricardo Jordão, ele inclusive já previa sua eleição…
Foi numa troca de letras: o noticiário da CNN “confundiu” Osama com Obama (2007). A matéria era sobre o bin laden.
Não li o posto inteiro, ainda…mas queria agradecer o link da calcinha.
Parabéns a vocês por sua percepção, absolutamente fora da curva.
As ocasiões que vocês retratam – Dorly, mídia impressa / Alessandro, conversa com especialista e Maysa choque pelo erro da TV – só parecem, no entanto, reforçar a conclusão.
Lebrun, para casos como o seu conheço um psiquiatra ótimo ;-P
Realmente, hoje as reputações podem ser destruídas, ou criadas, em poucos cliques. Há vários exemplos de pessoas que depois de terem suas vidas expostas nas redes logo foram marginalizadas. Nem precisa comentar os casos dos jogadores de futebol que caíram nas garras da Felina, que até da seleção brasileira foram cortados por um período. Vale Lembrar que tudo isso faz parte do jogo da web “colaborativa”, instantânea, cognitiva, etc, ou seja, de um momento econômico que vivemos. Sempre alguém lucra com a notícia boa ou má. Em síntese, o lobo mau pode não ser tão mau como pensam; investigue, talvez seja a chapéuzinho vermelho que está criando notícias falsas a seu respeito.
Mudando um pouco de assunto, mas seguindo a mesma linha do texto, fiquei com um questionamento na cabeça: como seria conviver com todas essas ferramentas de comunicação num período como o de 68 no Brasil? Aliás, período no qual foi sancionada a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para publicações de grande circulação no país (1969). Seguiríamos o mesmo exemplo do Irã? Não sei. Vivemos em um outro momento, é claro, mas vale o pensar. O #forasarney já está aparecendo em manifestações pelo país (até nas provas de Geografia). Tudo isso é um jogo de ideologias que hoje se potencializa nas redes de comunicação. Estas não mais dependentes apenas dos grandes difusores de informação.
É isso. Bom post e valeu a reflexão.
Obama? Eu ouvi falar desse cara quando ele explodiu as Torres Gemeas, em 2001. Na hora eu falei “explosoes, yeah, esse cara ainda vai ser presidente dos EUA”
Um bom Messias não se faz assim da noite pro dia!
E além do mais ele ainda é o presidente dos Estados Unidos da América (status: com o pé atrás…)
Na verdade a primeira vez em que eu ouvi falar de Obama foi em 2007, no episódio da última temporada de Gilmore Girls em que a Rory consegue um trabalho de jornalista para fazer a cobertura sobre esse cara que estava sendo cogitado como candidato democrata à presidência…
Me pergunto se a “causa” seria o fato da informação estar realmente na “nuvem” (e assim recebemos a mesma informação de diversos canais ao mesmo tempo, dificultando traçar sua origem) ou se simplesmente nós paramos de nos importar com a fonte.
E de informação errônea disseminada por meios de comunicação, podemos citar o caso do assassinato “ritualístico do RPG” em Ouro Preto.
Foi mais fácil dizer que os acusados eram culpados e criar todo o sensasionalismo barato e criador de audiência-circo (como na Escola Base) do que investigar um pouco mais a fundo.
O problema é quem faz a “verificação” da informação. No mundo antes da Internet, esse papel era dos jornalistas e dos editores de jornais e revistas. O fato é que, mesmo assim, não havia garantia de que se estava falando a verdade ou que não havia interesses por trás. Há vários casos de reputações que foram distruídas e nunca mais recuperadas graças a erros cometidos, intencionais ou não.
Lembro que o vi e ouvi seu nome pela primeira vez na Oprah, em 2006. No mais, ótimo post. Fiquei surtado quando te vi, em BSB, numa palestra da Secom do Governo Federal. Ainda bem que você não perdeu a capacidade de me fazer surtar.
Lendo esse post me lembrei imediatamente da campanha do Estadão que insinuava que os blogs só publicavam porcaria e fonte “de confiança” mesmo, só o Estadão.
Acho de extrema leviandade acreditar que a informação só é válida quando passa pelo crivo de alguma instituição relevante. Tanto a “nuvem” quanto o Times e a BBC têm a sua importância e cometem seus erros e acertos. Com a diferença de que a nuvem é muito mais democrática e multiangular. Você tem a chance de checar quantas fontes quiser e conhecer milhões de lados e pontos de vistas diferentes da mesma história, cabendo a você mesmo criar a interpretação dos fatos. É uma oportunidade (e, de certa forma, um amadurecimento) que Veja ou Isto É nenhuma oferecem.
No mais, não fosse a “nuvem”, acho que o Michael Jackson ainda estaria vivo…
Olá Luli, gostaria de impor a minha idéia também.
Não é por acaso que a mídia atualmente é denominada de 4º poder. A tv, o radio, a internet, enfim, a midia em si tem o poder de “influenciar” a pessoa que está interagindo com ela.
Se viajarmos aos tempos passados podemos citar os escritores brasileiros que usavam a sua literatura para expressar suas idéias sobre o país e tentar colocar na mente da população idéias ligadas à interesses (muitas vezes políticos).
Na atualidade isso não é diferente, como o caso de José Sarney, se notarmos a midia está fazendo de tudo para derrubar ele do senado, e conseguirá. (Não estou defendendo o dito cujo só estou citando um exemplo rsrsr).
Então é isso, forte abraço e espero um dia assistir uma palestra sua aqui na Bahia.
No caso do Obama eu nem sei onde e nem quando foi. Já sobre o atentado das Torres Gêmeas eu ouvi no Rádio (sim, naquela época ainda ouviamos “rádio”), 4 horas depois de ter acontecido.
Mais uma vez, obrigado a todos pela intensa (e extensa) participação. Algumas respostas: Saulo, seu comentário é exemplo típico de raciocínio circular, em que um argumento é motivo para o outro e vice-versa. A propósito, ambos estão certos. Veja bem, Heloisa, não disse em instante algum que as mídias ditas “tradicionais” tenham mais valor que este ou aquele blog. O problema não está aí, mas no fato de haverem tantas fontas de informação que o filtro desaparece. Um bom blog tem, na minha opinião, tanto ou mais valor que um veículo de mídia de massa. O problema não está neles, mas em uma multidão de fontes em que as boas e as ruins se misturam, principalmente para o Google e na cabeça de quem lê.
Muito obrigado a todos. A intenção deste blog é estimular o debate, e este post conseguiu atingi-la por inteiro.
Luli, e olha qual era a capa da revista:
http://www.uml.edu/wuml/podcast/media/obama_time_cover_102306.jpg
Why Barack Obama could be the next President
Eu tive uma namoradinha americana/republicana em 2007 que já fazia os trocadilhos entre OSAMA/OBAMA para desmoralizar o político adversário pois tinha ouvido isso de outros amigos republicanos…
Saudações libertárias Luli,
Muito bom o ponto levantado sobre a ditadura da maioria.
Escrevi um artigo muito inspirado em coisas que eu leio aqui: http://bit.ly/crowdsourcing-legislativo
[]s
Meu, acreditar que o cara que tá no controle dos EUA chegou lá por mérito próprio ou por boa índole é, como todo mundo sabe, bobagem.
Foram investidos muitos dinheiros :) e muitas pessoas pra conseguir fazer a imagem dele ser a imagem que todo mundo queria. Assim como no Brasil ou em qualquer outro país democrático, quem coloca o governante não é o povo, mas sim os investidores que tem grana pra fazer o povo amá-lo.
Se quer um líder que valorize a guerra, coloque o melhor guerreiro. Se quer um líder que promova a educação, escolha um educador. Se quer um governo que beneficie os manipuladores, dê o cargo pra quem melhor conseguiu manipular a opinião pública. através de uma democracia. É o q eu acho.
O barack obama só tá lá, pq ele era a pessoa certa para nós amarmos.
Ah, as torres gêmeas eu vi quando eles interromperam o tom & jerry. O barack obama foi um colega meu, q chegou dizendo q ele era “fantástico pq ele tinha twitter!” – “E vc acredita q é ele mesmo q atualiza?” – “Orra, certeza! tá escrito lá!”