Cultura Digital, Textos

Internet, experts e The Big Bang Theory

Smart is the new sexy

The Big Bang Theory. Não conhece? Pois assista.
Diz mais a seu respeito do que parece.

Chuck Lorre é um gênio. Entre todos os produtores de TV responsáveis por revitalizar um gênero que se popularizou com I Love Lucy e que não sofreu muitas modificações desde então, ele responde por dois programas que, ao associar pessoas completamente diferentes em encontros improváveis, traz para a TV histórias e situações que são tão absurdas e exageradas que se tornam tragicômicas. E reais. Suas séries e personagens não têm o apelo esotérico-misterioso de um J. J. Abrams e seu LOST, a máquina de fazer dinheiro de um Jerry Bruckheimer e sua franquia CSI nem é tão ruim que chega a chamar a atenção quanto um Tim Kring e seus HEROES andróginos de meia tigela (nem desconhecidos e ofuscados por seus atores principais, como Clyde Phillips e David Shore).

Seus personagens são quase banais e provavelmente aí se esconde o grande segredo de sua empatia. Eles não são viciados em nada mais perigoso que WoW ou Twitter, não voam, matam, desmorrem ou citam Shakespeare frente a uma cena de crime (bom, pelo menos não frente a uma cena de crime).

Eles são aqueles tipinhos levemente patéticos que representamos e com quem nos encontramos todos os dias – e, graças a isso, naturalmente simpáticos e adoráveis. Lorre fez “Two and a Half Men”, que confesso não ter assistido a uma quantidade suficiente de episódios para comentar (mas de que ouvi falar muito bem) e pelo meu predileto: The Big Bang Theory.

Big4

Sheldon, Howard, Rajesh e Leonard: os fab four 2.0

Quem trabalha com Internet provavelmente conhece as desventuras de Leonard e Sheldon, dois estudantes de física teórica que compartilham um apartamento em um prédio pequeno cujo elevador está sempre quebrado, recebem visitas freqüentes de seus colegas Rajesh e Howard e têm uma vida social razoavelmente saudável para os padrões de sua tribo nerd – com videogames, junk food, visitas a uma loja de quadrinhos, desprezo a todas as outras tribos e disputas de poder em jargão de alto nível conceitual.

Até aí, nada que não se veja constantemente entre as várias categorias profissionais que conhecemos e que, de tão fechadas, costumam se reproduzir em cativeiro: advogados, publicitários, fashionistas, acadêmicos, atores, investidores, praticantes de qualquer esporte, luta ou atividade física, DJs, “celebridades”, jornalistas, médicos, funcionários da Unilever e, até certo ponto, a turminha Web 2.0 em geral.

PennyPennyPenny

Penny? (toctoctoc) Penny? (toctoctoc) Penny? (toctoctoc)

A mágica da série acontece porque a vizinha da frente deles, Penny, é jovem, bonita, candidata a atriz e vive sozinha. Ela tem sua própria dinâmica social que envolve junk food, TV, revistas de fofocas, desorganização, TPM, desespero, baladas com as amigas, cultura pop, moda, namorados, sexo ocasional, bebedeiras ocasionais, baixa auto-estima, rejeições pessoais e profissionais e uma carreira recalcitrante. Como os quatro rapazes, ela também não tem nada de especial – a não ser o fato de morar no apartamento em frente e ter um estilo de vida que eles, como qualquer um que se recolhe a uma tribo e ignora o mundo “lá fora”, consideram INA-CREDI-TÁVEL. Em todos os sentidos, bons e ruins, que o termo possa propiciar.

Para mim, o que a série tem de especial é sua genial opção, cada vez mais rara, de não se deixar desviar para a solução fácil dos estereótipos. Penny é (como dizer?) Luize Althenhofen demais para ser modelo, odeia modelos e não tem delírios de grandeza. Ela não parece se impressionar com prêmios ou com a vida pessoal dos famosos e, pelo que demonstra, não considera o atalho de carreira da Luciana Gimenez uma opção. Ela não é fashion victim, não está arrumada o tempo todo nem com o cabelo perfeito, muitas vezes está de mau humor e absolutamente NUNCA se veste com os véus ou transparências de personagens femininas de videogames inspiradas em Hentai Animê. Penny também não é burra, muitíssimo pelo contrário. Em um episódio ela conta não ter feito faculdade, mas poucos perceberiam. Penny é normal, poderia ser alguém como você.

Se você não lesse este blog, claro.

prensa

Os quatro rapazes também são normais. Têm, como todos nós, suas vaidades, fraquezas, pontos fracos e erros. Alguns tão gigantescamente óbvios que fazem a platéia perceber que QI não é medida de noção.

Mas afinal de contas, o que tudo isso tem a ver com Internet fora o fato de alguns de seus produtos mais pop – de LOLCats a Twitter – serem citados de vez em quando e genialmente tratados como algo absolutamente corriqueiro, a ponto de um dos personagens curtir uma dor-de-cotovelo no Facebook? O que uma série encenada ao vivo defronte a câmaras estáticas de TV à Jeannie (nada mais old media que teatro filmado com as risadas da platéia) pode dizer sobre o mundo digital?

A resposta fácil seria discorrer sobre tribos, seu poder de alienação e fetiche de informação, mas tudo isso é razoavelmente óbvio a ponto de não merecer um post. Mesmo que merecesse, uma série de TV não demandaria uma menção tão grande. Bastava uma referência à turminha da Ilha de Caras ou a lutadores de Jiu-Jitsu (e suas variáveis) para provar o mesmo ponto.

A longa descrição sobre The Big Bang Theory vem de uma constatação que tive outro dia: apesar de saberem que o usuário de Internet é uma pessoa comum, com desejos e vontades absolutamente normais, a maioria das empresas, empreendedores, designers, desenvolvedores, gerentes de projetos, arquitetos de informação e demais profissionais que criam produtos e serviços para a rede parecem não conseguir assimilar esse simples fato:

O usuário é a Penny.
Nós somos uma mistura
dos quatro outros,
babando por ele.

Nem burro, nem gênio, nem Pinky, nem Cérebro. Não vê a menor graça em Ruby on Rails e acha o iPhone um trambolho. Seu telefone canta “hellomoto” ou aquele sonzinho semvergs da Nokia. Usa Internet Explorer porque está lá. Se trocarem para Firefox, provavelmente não vai notar a diferença. Não viu graça no SecondLife. Nunca ouviu falar de Silverlight. E se ouviu, esqueceu tão rápido quanto eu esquecerei de saber que as três mexiricas que comi se chamam Citrus reticulata Blanco. Gosta de e-commerce? Sim, com um pé atrás. Freqüenta as redes sociais em que seus amigos estiverem e seu blog predileto é aquele que o Google mandar. Dá pra ser mais básico?

E, no entanto, ela se move: a Penny é como aquela psicóloga brilhante que não sabe o que é um impedimento, como o dentista bacana que não sabe diferenciar creme de gelo de bege de cinza de marfim de pérola de off-white. Ou ainda como o fotógrafo que não sabe se tem o pé pronado quando compra um tênis ou a pesquisadora que não sabe a diferença entre paraglider e parapente. Nós somos a Penny. Todos os dias. Ou sempre que damos a sorte de sair de nossa área de conforto e interagir com o mundo.

Não é difícil falar com a Penny, mas infelizmente poucos compreendem isso. E acabam por agir como os quatro patetas. Às vezes até como uma mistura do que cada um tem de pior. Duro demais? Nem um pouco. A seguir, os típicos comportamentos daqueles sites que não são exatamente simpáticos:

Sheldon?Sheldon?Sheldon?Sheldon: brilhante. A melhor solução possível para seu problema. Arrogante. Despreza seu usuário e o deixa à sua própria mercê. O corrige em seus detalhes mais ínfimos. Acredita ser o melhor do mundo. Muitas vezes sua interface é monótona, repetitiva ou simplesmente inexistente. Para cada solução que cria, novos problemas são automaticamente gerados, em um loop infinito de egos, informação demais e desespero.

Google 

Página de resultados do Google. Brilhante, mas… 171 milhões de resultados para “chocolate”? Quais são propaganda? Como assim, “se vira”? Por que eu tenho de ser mais específico se o computador é você? Pare de me corrigir, seu mala! E daí que essa pesquisa foi realizada em 0,30 segundos?


LeonardLeonard: inteligente e simpático, até levaria jeito se não fosse tão desprovido de autoconfiança. Busca as pistas erradas e costuma propor algo que ninguém pediu. Toma decisões com medo e retrocede. Tem uma deficiência congênita que o constrange (Leonard é intolerante à Lactose). Sua auto-estima é tão baixa que chega a parecer falsa modéstia. Não é. Se os pés fossem virados para trás, ele provavelmente passaria o dia a chutar o próprio traseiro. Chega a conquistar grandes coisas, mas logo as perde por não aparentar ser capaz de mantê-las. Parece o Bill Gates, patético em seus vídeos com o Seinfeld.

Joost out of time

Joost, que já acreditamos ser o futuro da TV. É bom, mas tem poucos programas, não se decide se é um site ou um aplicativo, não tem proposta clara, ninguém sabe qual seu modelo de faturamento, já que propaganda, obviamente, não é. Tsk, tsk, tsk… a Penny aqui chegou a entrar na fila de espera para baixar o aplicativo e amaldiçoar o velho Mac que virou Media Center porque ele ainda não era Intel. Pra quê?
Agora nem que me paguem. No meu iPhone não entra.


RajeshRajesh: ninguém sabe direito o que ele faz, como faz, onde faz, onde vive ou no que trabalha. Como está sempre com os outros rapazes e é tratado como igual por eles, deve ter lá o seu valor. Seu sotaque não ajuda. Isso quando consigo ouvi-lo, porque ele só fala comigo por intermediários ou bêbado. Não acho que seja interessante a ponto de valer o esforço para descobrir. Mesmo que o seja, como posso sabê-lo?

GNU

Unix, Ubuntu, Linux e GNU (que não é Unix). Devem ser importantes, provavelmente estão presentes em algo que todo mundo usa, escondidos sob o manto de invisibilidade de uma interface inofensiva. Quando a mídia que alcança a Penny fala deles, os relaciona a movimentos com cara de neocomunismo, cheio de velhos gordos e cabeludos, cujos rabos-de-cavalo de militantes nunca viram a cor de um shampoo. Hora de mudar de canal.


HowardHoward: tarado. Nojento. Se acha o máximo. Como alguém pode pensar em sair na rua com aquele layout? Pra piorar, ele ainda mora com a mãe. Socorro! Ele não quer conversar, parece que vai me atacar a qualquer instante. Se ele fosse maior, até teria medo dele. Como é, o acho simplesmente desagradável. Tenho que esconder qualquer blusa ou decote se ele estiver por perto. Preciso tomar cuidado com canetas espiãs ou gravadores microscópicos se ele entrar em casa.

Melhor deixá-lo do lado de fora.

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Cadastros. Pop-ups. SoulSeek. eMule. Torrent. Sites de download de filmes, séries, legendas, aplicativos e drivers. e-mail com notícias boas ou más demais para serem verdadeiras. Lojas que fraudam rankings. Fóruns. Porn. Essas coisas são inocentes ou vão deixar meu computadorzinho indefeso? O que eu baixo delas, dá pra confiar? E o que elas instalam sem eu pedir?

Pensando bem, 99% da Internet é Howard.

Seu cadastro inocente cai na mesma categoria, por via das dúvidas. Por que você acha que a maioria das transações de e-commerce pára quando os dados são pedidos? Não é preguiça. É que mamãe ensinou a Penny a se sentar com os joelhos juntinhos e à medida que o tempo passa ela percebe mais valor no conselho, apesar de sua cautela exagerada.

Cada dia eu gosto mais da Penny. E acho que o Leonard e o Sheldon fazem muito bem um ao outro. Já os outros dois me lembram tanta gente…

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