O que tanto se procura em tecnologia e design?
Tecnologia é qualidade de vida, isso ninguém discute. Também é senso comum que cada novo produto ou serviço surge para resolver um problema e tornar a vida mais confortável. Por mais que haja ansiedade, poluição e todo o estresse cotidiano, não há como negar que viver hoje em dia é mais limpo, seguro e higiênico do que já o foi em qualquer outra época da história. O simples fato das pessoas viverem mais é uma boa prova.
O mesmo pode ser dito do design. À medida que os objetos se tornam cada vez mais complexos, precisos e miniaturizados, sua funcionalidade deixa de ser um luxo para se tornar obrigatória. Isso pode tirar a graça e elegância dos automóveis, que antes eram desenhados por artistas e hoje são moldados por túneis de vento, mas permite que os mesmos carros sejam mais espaçosos, confortáveis e seguros. As novas famílias tipográficas não têm tanta personalidade quanto as de antigamente, mas são bem mais legíveis.
No entanto o ritmo da inovação é feroz, a ponto de surgirem bem mais novidades em tecnologia e design do que seria imaginável, e o ritmo deve aumentar. Ora, se cada uma dessas novas “maravilhas” resolvesse um problema efetivo, deveríamos estar no paraíso, cercados de coisas belas e tremendamente eficientes. No entanto, o que acontece é exatamente o contrário. Quanto mais agoniado, oprimido e sobrecarregado o indivíduo estiver, mais provável que esteja em um grande centro urbano, cercado de aparelhos tecnológicos e produtos de design.
Isso não significa que inovação seja um tiro pela culatra ou que cause mais problemas do que os elimine, muito pelo contrário. Tecnologia e design são só informação. Não têm consciência, não fazem julgamentos, não questionam: só resolvem problemas.
As pessoas estão tão obcecadas por resultados e eficiência que parecem se esquecer (ou evitar intencionalmente) a pergunta: pra que isso existe? Por que deve ser mais rápido? Por que deve ter menos telas? A resposta não é tão óbvia. Mesmo que o seja, ela deve ser evidente. Velocidade não é um valor se não estiver dentro de um contexto, e o mesmo vale para a versatilidade.
O iPhone só tem um botão, e não é por isso que seus usuários deixam de gostar dele. O Orkut nunca pegou nos EUA, foi um sucesso enorme por aqui e hoje está em decadência. Nenhum desses efeitos foi causado por tecnologias ou design.
O sucesso de aplicações corporativas e videogames mostra que mesmo as perguntas que parecem ser mais evidentes – como usabilidade e tempo de resposta – dependem muito do contexto em que são aplicadas. Se a pergunta for subjetiva, ainda pior. Por que a interface deve ter essas cores e estrutura? Será que esse aparelho precisa ter tantas funcionalidades? E esse blog? Como devo trabalhar essa foto? E esse som?
Erros de foco são cada vez mais comuns, em empresas de todos os portes. Veja a Sony, por exemplo: mesmo com toda a sua experiência em música portátil e videogames, ela errou na mosca ao fazer o PSP. Provavelmente porque esqueceu de se perguntar se alguém estaria interessado em um videogame imersivo e móvel ao mesmo tempo.
Mesmo quando os objetivos são bastante claros, fica fácil perceber que as empresas não buscam necessariamente um mundo melhor. Faça uma pequena análise nas qualidades dos produtos que cercam você e provavelmente encontrará termos como performance, convergência, novidade, sofisticação, poder e distinção social. Por mais que soem bonitas, essas palavras na maioria das vezes são desculpas razoavelmente esfarrapadas para um gigantesco egoísmo e espírito de competição. Ou seja, muitos parecem buscar, através do design e da tecnologia, que as coisas permaneçam exatamente como são.
Isso explica porque alguns produtos são obsessivos com o design. Muitos deles chegam a extremos de “atitude” que são transformados em mitos. Eles não são os melhores, nem os mais baratos. Não basta ter o dinheiro para comprá-los ou mesmo o conhecimento e grau de informação para usá-los. Hoje é preciso “merecê-los”. Curiosamente, é a mesma relação de adoração cega a objetos que chamamos de fetiche quando vemos em alguns malucos.
Por isso, cuidado com os absolutos que ouve em design ou tecnologia. Todas as relações dependem do contexto e de sua dinâmica. Levar isso em conta pode ajudá-lo a descobrir excelentes idéias logo abaixo da superfície do senso comum. Ou, pelo menos, a evitar chavões.
Outubro de 2008 – Revista Webdesign nº 58
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