Entre todas as ocupações que um designer pode ter, poucas fascinam mais que os cartazes de cinema. Existem coisas muito mais esquisitas, como projetar parafusos e bules de chá e outras que, de tão nerds, até chamam a atenção, como desenhar cenários para videogames ou ambientes de imersão. Mas Cinema é cinema, e o cartaz de cinema, por toda a liberdade temática que oferece, está entre as coisas mais criativas que um designer gráfico pode fazer.

Ou estava. Não é preciso um olho minimamente treinado para reconhecer que filmes tão diferentes quanto Uma mente brilhante, Freddy vs. Jason e Nancy Drew usam, em seus títulos, a mesma – mesmíssima – família tipográfica:



O que um drama, um thriller e um filme de adolescentes têm em comum?
Ora, o mesmo que este, este, este, este, este, este, este, este, este,
este, este, este, este, e principalmente este filme têm.
Títulos compostos com a família tipográfica Trajan em seus cartazes, ué.
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Criada por Carol Twombly (que pelo que sei não é parente do Cy Twombly) em 1989, Trajan é um exemplo claro de uma família tipográfica Glífica, ou seja, inspirada em um alfabeto esculpido na pedra. Por isso ele tem umas curvas tão suaves e, às vezes, uns terminais tão compridos.
É por isso também que esse alfabeto não tem minúsculas. Na Roma antiga, época em que o texto que inspirou essa família tipográfica foi escrito, elas simplesmente não tinham sido inventadas.
O alfabeto que ela escolheu como inspiração para o trabalho não poderia ser mais importante: ele é o inscrito em mármore no monumento que comemora a vitória do Imperador Trajano sobre os Dácios (mas que você pode chamar simplesmente de Coluna de Trajano se não quiser parecer pedante).
Construída no comecinho do século II, em Roma, a coluna – e a estátua de bronze de São Pedro colocada em seu topo quase 15 séculos depois – garante assunto para vários posts e, a princípio, não tem absolutamente nada a ver com cinema.
Ela é importante porque depois de vários séculos de Idade Média, a caligrafia esculpida no mármore foi substituída pela escrita uncial das Bíblias e, quando chegou o Renascimento, praticamente ninguém sabia mais que forma tinham as letras maiúsculas do alfabeto. Pode parecer bizarro, mas não era nada fácil derivar um G de um g. Ou um R de um r.
A Coluna de Trajano, para alegria da geral, tinha o alfabeto inteirinho, tão bem desenhado e preservado que só faltava estar escrito “The quick brown fox jumps over the lazy dog”.
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Uncial. Pode chamar de Celta, mas ela é mais do que isso. O Império Romano foi tão grande que esse tipo de caligrafia é encontrada em toda Europa ocidental, das ilhas britânicas à Turquia.
OK, mas o que isso tem a ver com cinema? Nada. Absolutamente nada. Taí um mistério contemporâneo mais impressionante do que as vendas de “O Segredo” ou a popularidade da Microsoft. Uma teoria que corre por aí é que um cara que “faz designer” (sic) e trabalhava com cinema resolveu usá-la em um filme épico romano. Depois a usaram em outros tipos de filmes épicos. Depois simplesmente em filmes. Agora tanto faz, virou um chavão mais ou menos como aquele narrador de traillers.
Para se fazer design é preciso ver. Observar o layout que é feito, seja de um ícone para o MSN ou para um cartaz de cinema, como quem realiza um processo ativo e interage com a imagem que é vista. De todos os desenhos usados em um cartaz, as letras são certamente os mais reconhecidos, por isso devem ser variados o bastante para que sejam capazes de transmitir a expressão, ironia ou paixão de um discurso, coisa que se faz tão facilmente com tons de voz e olhares, mas que perde sua força quando por escrito.

É para isso que existem tantas famílias tipográficas. É por isso também que as palavras texto, textura e tecido têm a mesma origem e se usa tantas metáforas têxteis quando se fala em pensamento ou discurso. Mas isso fica para outro post, para não quebrar a linha de raciocínio =D
Pra encerrar, mais dois filmes que não têm absolutamente nada a ver com a Coluna de Trajano:


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Um exercício bacana é recriar posters:
http://strongstuff.deviantart.com/art/empire-strikes-back-poster-84759464
http://strongstuff.deviantart.com/art/new-hope-poster-84576867
A imagem do “Conquista da Honra” não tá aparecendo!
Muito bom post! Realmente a Trajan, apesar de muito bela, se tornou um clichê.
Beautiful Mind e Conquista da Honra não estão aparecendo.
Hahahaha, muito bom o post!
E olha que eu assumo que adoro essa fonte e já usei em alguns layouts que criei (Não, não foram cartazes de filmes)
A minha explicação para haver tantos cartazes de filmes com essa fonte, é que é uma fonte clássica, neutra (por isso é usada em estilos compeltamente opostos de filmes) pois, apesar de ter sido criada no antigo império romano, não carrega com ela muita identidade daquela época. Grosseiramente falando, ela é quase uma Times, com um um pouco mais de estilo.
Levando em conta essas informações, minha conclusão é que o designer estava sem tempo (aposto que ele gastou todo o tempo que tinha no tratamento das imagens e ilustrações, e o texto ficou pros 45 do segundo tempo) Dá até pra imaginar o sujeito reclamando “ahhh vai a Trajan mesmo que fica bom…”
Meus dois centavos.
Hello, Luli! Ótimo post. Eu vi um vídeo sobre esse assunto há um certo tempo, muito bom por sinal:
http://www.youtube.com/watch?v=t87QKdOJNv8
“Coming Soon…
One Font
Will Rule Them All…
TRAJAN
The Movie Font”
Obrigado a todos pelos generosos comentários. Recomendo a todos que façam o exercício / vejam a referência citada pelo Saulo. Arthur e Filipe, muito obrigado por me chamarem a atenção para os erros nas imagens, já consertados.
ElisaK, não acredito que Trajan seja clássica (como Garamond ou Caslon) nem neutra (como Optima ou Helvetica), mas concordo 200% com o segundo parágrafo de seu comentário.
saudades do kubrick (costumava usar só futura, mas usava direito)
pelo menos passou a época em que fontes como didot e bodoni eram clichés obrigatórios para coisas “elegantes”
Veja o trabalho desse designer:
http://www.flickr.com/photos/spacesick/sets/72157614482499746/detail/?page=2
Uma releitura dos filmes atraves de cartazes! Acho que você vai gostar.
Suas palestras e opiniões me motivaram a ser um professor cada vez melhor!
Como você mesmo disse: “Alguns alunos nos fazem perguntar por que me tornei professor, e outros respondem essa pergunta”
Até
otimo post! mas este tipo de repetição ou “modinha” de design não fez sempre parte? outro dia fui ver uma exposicao de cartazes espanhois de 1930 e pouco, ok, a tipografia nao era identica (talvez porque antes nao haviam as fontes de computador) mas que eram muuuito parecidas e eram usada para produtos ou pecas ou filmes sem nada a ver , como estes casos aqui. e o design japones de uma época tambem é muito parecido, de novo digo que há diferencas entre elas mas nao haviam fontes feitas.
Talvez nao seja proposital mas esta fonte nestes cartazes me diz ” ESTE É MAIS UM ESPETÁCULO DE QUALIDADE DE HOLLYWOOD, MADE IN USA, COM TUDO AQUILO QUE VOCE QUER VER”, do mesmo modo como a voz do locutor… será que nao acabou se criou uma ideintidade?
Abrs!
alias , neste caso, o uso de uma tipografia do imperio romano fez bastante sentido! :-)
Na fase boa (1970/1980), Woody Allen só usou uma única fonte nos títulos de seus filmes, dica do Ed Benguiat.
Aqui na empresa o povo só quer saber da família Trajan.
A realidade virtual aqui: Não existem outros tipos de fontes!
Viva a Trajan e sua prole!
Bom,não sei se foi por isso, mas a coluna de trajano tem um importancia histórica para o cinema, não me recordo agora porque exatamente. Faz um tempo que vi um documentário da BBC que conta a história da arte e em uma edição que falava sobre a evolução das histórias contadas, passando das figuras rupestres até o cinema. Em determinado ponto foi mensionada a coluna de Trajano e sua importancia, mas não me recordo bem o fator de sua importância, a questão é que tem uma importância para o cinema.
Bom, como disse não sei se tem alguma coisa encomum mas de qualquer forma fica ai mais uma informação.
Grande abraço!