Cultura Digital, Textos

A matéria dos sonhos

Jessica Rabbit

Bem me lembro de um tempo em que as pessoas ainda não eram compostas pela matéria da qual os sonhos são feitos. “Ninguém é perfeito”, dizia-se. Mais do que isso: ninguém tentava ser. É claro que sempre existiram os malucos e as auto-intituladas “celebridades” que, mesmo sem ter feito nada de célebre, se comportavam como se não fossem de verdade. Mas esses poucos não contavam porque no mundo real, habitado por pessoas como eu, você, nossos amigos e família, ninguém os levava efetivamente a sério.

O fim dessa era, se não me engano, foi mais ou menos a última década do século passado. Foi nessa época que, de uma hora para outra, todo mundo começou a se plastificar. No começo eram algumas mulheres que passaram a portar seios, nádegas, lábios e bochechas cada vez maiores, enquanto afinavam e torneavam as cinturas a ponto de parecerem réplicas tridimensionais da Jessica Rabbit ou de personagens de desenho animado japonês, como bem o disse uma das últimas edições da Wired.

Dados WiredNo começo dessa transformação muita gente achava todo aquele silicone um bocado esquisito. Até bonito em sua perfeição estética, mas estranho. O visual excessivo, “certo” demais, era muitas vezes incompatível com a idade, proporções ou o índice de massa corporal de seus portadores. Naquela remota época a pergunta principal ainda era: “mas será que é de verdade?”. Por mais que fosse desejável ter uma parte do corpo volumosa e arrumadinha, ela só teria valor se fosse genuína. Com o tempo isso foi considerado bobagem e a pergunta perdeu seu valor. Não importava ser verdadeiro contanto que fosse verossímil – ou seja, possível.

Não demorou para a questão da verossimilhança ser também deixada de lado.

Cher

Alguns anos mais tarde chegaria a pílula da felicidade. Não o antidepressivo que colocou o sexo em segundo plano nem a metanfetamina que dava uma baita sede e era consumida em festas na lama, mas o losango azul descrito por seu fabricante como responsável pela “saúde do homem”. No melhor estilo das Organizações Tabajara, o Sildenafil parecia exclamar que “seus problemas acabaram” e, como a cirurgia plástica, logo caiu no gosto popular e passou ser comercializado abertamente, em prestações e promoções.

A questão “será que é de verdade?” nem chegou a ser formulada: rapidamente todos deixaram essa bobagem de lado e trataram de se divertir porque o tempo era, – sempre foi – curto demais para ser desperdiçado com ineficiências.

Saúde?

tatuagemDaí – e só daí – é que a Internet, uma rede de computadores pragmática, excessivamente técnica e que servia para aumentar a carga de trabalho das pessoas, se torna popular. Justo quando o componente virtual das pessoas, antigamente restrito às suas histórias, memórias, idéias e forma de falar já tinha tomado conta do corpo todo. Mas tatuagens, piercings, maquiagens, depilações, enchimentos e roupas custavam caro, causavam um certo desconforto e, mesmo assim, eram muito limitadas. Já as mídias sociais sempre foram gratuitas e permitiam a qualquer um se comportar como o Cyrano de Bergerac e tirar o corpo do caminho das vontades. Era tentador demais. No mundo em que qualquer um pode ter o físico e os fãs de uma celebridade, desejar o contrário parecia tão anacrônico quanto levar a sério uma máquina de escrever.

O tempo passou e a divisão entre o que é real e virtual se torna a cada dia mais difícil de explicar. Contas no Gmail e Skype são tão “reais” quanto o nome ou o número do celular. Ringtones, perfis no Orkut, Facebook, LinkedIn e tantas outras redes dizem mais a respeito do que o indivíduo gostaria de ser do que o que ele realmente é – e leva a considerações filosóficas e fenomenológicas que infelizmente não cabem neste post.

Citações no Google, artigos na Wikipédia, fotos no Flickr, comentários e “seguidores” no Twitter, páginas e feeds armazenados para jamais serem lidos, coleções de músicas, podcasts e vídeos que jamais serão consumidas definem hoje as cores, raças, castas e crenças que seriam riquezas se pelo menos fossem diferenças.

O mundo digital traz identidades em prateleiras, recicláveis e modulares feito templates de blogs. No começo achávamos tudo isso estranho. Com o tempo passamos a achar normal que nossos amigos sejam representados por frases de efeito e ícones de palmeiras, skates ou praias. O que faremos com isso ainda é cedo para dizer.

Só resta considerar que vivemos em tempos muito, muito interessantes.

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