
Bem me lembro de um tempo em que as pessoas ainda não eram compostas pela matéria da qual os sonhos são feitos. “Ninguém é perfeito”, dizia-se. Mais do que isso: ninguém tentava ser. É claro que sempre existiram os malucos e as auto-intituladas “celebridades” que, mesmo sem ter feito nada de célebre, se comportavam como se não fossem de verdade. Mas esses poucos não contavam porque no mundo real, habitado por pessoas como eu, você, nossos amigos e família, ninguém os levava efetivamente a sério.
O fim dessa era, se não me engano, foi mais ou menos a última década do século passado. Foi nessa época que, de uma hora para outra, todo mundo começou a se plastificar. No começo eram algumas mulheres que passaram a portar seios, nádegas, lábios e bochechas cada vez maiores, enquanto afinavam e torneavam as cinturas a ponto de parecerem réplicas tridimensionais da Jessica Rabbit ou de personagens de desenho animado japonês, como bem o disse uma das últimas edições da Wired.
No começo dessa transformação muita gente achava todo aquele silicone um bocado esquisito. Até bonito em sua perfeição estética, mas estranho. O visual excessivo, “certo” demais, era muitas vezes incompatível com a idade, proporções ou o índice de massa corporal de seus portadores. Naquela remota época a pergunta principal ainda era: “mas será que é de verdade?”. Por mais que fosse desejável ter uma parte do corpo volumosa e arrumadinha, ela só teria valor se fosse genuína. Com o tempo isso foi considerado bobagem e a pergunta perdeu seu valor. Não importava ser verdadeiro contanto que fosse verossímil – ou seja, possível.
Não demorou para a questão da verossimilhança ser também deixada de lado.

Alguns anos mais tarde chegaria a pílula da felicidade. Não o antidepressivo que colocou o sexo em segundo plano nem a metanfetamina que dava uma baita sede e era consumida em festas na lama, mas o losango azul descrito por seu fabricante como responsável pela “saúde do homem”. No melhor estilo das Organizações Tabajara, o Sildenafil parecia exclamar que “seus problemas acabaram” e, como a cirurgia plástica, logo caiu no gosto popular e passou ser comercializado abertamente, em prestações e promoções.
A questão “será que é de verdade?” nem chegou a ser formulada: rapidamente todos deixaram essa bobagem de lado e trataram de se divertir porque o tempo era, – sempre foi – curto demais para ser desperdiçado com ineficiências.
Daí – e só daí – é que a Internet, uma rede de computadores pragmática, excessivamente técnica e que servia para aumentar a carga de trabalho das pessoas, se torna popular. Justo quando o componente virtual das pessoas, antigamente restrito às suas histórias, memórias, idéias e forma de falar já tinha tomado conta do corpo todo. Mas tatuagens, piercings, maquiagens, depilações, enchimentos e roupas custavam caro, causavam um certo desconforto e, mesmo assim, eram muito limitadas. Já as mídias sociais sempre foram gratuitas e permitiam a qualquer um se comportar como o Cyrano de Bergerac e tirar o corpo do caminho das vontades. Era tentador demais. No mundo em que qualquer um pode ter o físico e os fãs de uma celebridade, desejar o contrário parecia tão anacrônico quanto levar a sério uma máquina de escrever.
O tempo passou e a divisão entre o que é real e virtual se torna a cada dia mais difícil de explicar. Contas no Gmail e Skype são tão “reais” quanto o nome ou o número do celular. Ringtones, perfis no Orkut, Facebook, LinkedIn e tantas outras redes dizem mais a respeito do que o indivíduo gostaria de ser do que o que ele realmente é – e leva a considerações filosóficas e fenomenológicas que infelizmente não cabem neste post.
Citações no Google, artigos na Wikipédia, fotos no Flickr, comentários e “seguidores” no Twitter, páginas e feeds armazenados para jamais serem lidos, coleções de músicas, podcasts e vídeos que jamais serão consumidas definem hoje as cores, raças, castas e crenças que seriam riquezas se pelo menos fossem diferenças.
O mundo digital traz identidades em prateleiras, recicláveis e modulares feito templates de blogs. No começo achávamos tudo isso estranho. Com o tempo passamos a achar normal que nossos amigos sejam representados por frases de efeito e ícones de palmeiras, skates ou praias. O que faremos com isso ainda é cedo para dizer.
Só resta considerar que vivemos em tempos muito, muito interessantes.

Luli,
Fiquei pensando com o seu artigo e cheguei a seguinte conclusão.
A maioria das pessoas coloca nas prateleiras aquilo que elas gostariam de ser e não a sua essência.
Portanto quem for coerente e colocar no seu blog, facebook, orkut e demais a sua essência permanecerá e será visitado.
O demais é pose e falsa imagem. Tudo que é falso se desmancha com o tempo. Virá cemitério.
Ninguém pode lutar contra o tempo. Ele revela o falso do verdadeiro.
Talvez ainda seja cedo demais para dizer. Mas espero sinceramente que, ao contrário do silicone, o mundo digital sirva para deixar as pessoas mais diferentes, não mais iguais.
Ao ler o post pensei praticamente o mesmo que a Alessandra. Então não tenho muito o que acrescentar.
Acho que a essência do ser humano nunca mudará. Sempre existiram e existirão os que “são” e os que “querem ser” (e os perdidos rs)… a evolução ou as mudanças apenas tornam os meios para a expressão mais práticos ou acessíveis.
o que é “essência”? acho excessivamente simplificador analisar as interfaces digitais segundo perspectiva meramente dual (“essência” x “aparência”).
Na web, a gente pode ir pendurando coisas em nós, como uma árvore de natal.
Algumas pessoas estão de tal maneira enfeitadas que mal se pode ver os ramos.
Em tempos de controles inúmeros e pessoas sendo rastreadas e “linkadas” sem ter dado permissão explícita para isso, talvez as máscaras voltem à moda assim como já estiveram presentes em outros movimentos sociais da história.
Ou melhor, como descrito pelo Luli, as máscaras já voltaram à moda.
Em meio a tanto artificialismo, eis que a liberdade ganha o mesmo status da aparência, liberdade passa a ser possível apenas com máscaras. O real é sinônimo de prisão.
Já estamos a fugir do Big Brother sem termos nos dado conta da chegada deste. E fazemos isso ainda apontando o dedo para chamar “exageradas” as pessoas preocupadas com privacidade.
Tudo ficou tão normal e virtual que quando algo real acontece todo mundo se desespera, mas pera-aí!!! é só uma gripe?! ou é o fim do mundo?! e se fosse um virus no seu iphone?! será que seria pior? e o mais interessante é que de tanta super-exposição acabamos achando tudo natural e entramos na onda.
O que é real? Em tempos de tamanha permeabilidade, acho que fica bastante complicado construir delimitações precisas sem estar equivocado. Vemos o mundo apenas a partir de nossos olhos, comprometendo de certa forma nossas ratificações. Creio que tudo que tem o poder de causar efeito é real, dessa forma vejo que a realidade já começa a ser construída a partir da soma do mundo virtual com o físico. No entanto, como nem todos temos apreço pela matemática os resultados que esta soma poderá produzir só o tempo dirá…
acredito que estes anos 2000 serão objeto de estudo quando o mundo que conhecermos der uma desacelerada e parar para pensar sobre tudo que aconteceu.
e acho que aquele clichê é super válido – estamos no olho do ciclone e temos uma fração de idéia do mundo lá fora. e estamos livres, na medida que a percepção de mundo real não ainda foi confundida com tantas fonts de informação, câmeras e o caralho a quatro. ou não.
e, puxa, muito mais fácil achar alguém pelo email do que o número do celular hoje. duvido alguém aqui comentar que sabe os números de telefone físico dos parentes/amigos mais próximos.. ao menos 10. :P
Abs Luli, adoro seu blog!
Quase tudo já foi dito. Não quero dizer mais nada brilhante. Pra ser bem sincera, minha esperança é que o simples e o natural entrem na moda.
Sem dúvida são tempos interessantes. O que acho mais “perigoso” é que existe uma certa urgência arrogante, uma ansiedade danada no sentido de definir estes tempos como um marco ímpar na humanidade, em termos de evolução de tecnologia e comportamento.
Pode vir daí a necessidade de negar a velhice, de tentar turvar o fluxo inevitável das coisas, que em 20 anos fará nossos PCs e Macs parecidos com as máquinas de escrever de ontem, aposentará nossas celebridades e nos fará pitorescos e caricatos aos olhos dos habitantes do futuro que acharam graça dessa nossa confusão entre tecnologia e mágica.