
Confesso que sempre tive medo de aulas magnas, em sua verdadeira essência. A idéia de uma aula “grandiosa” para receber alunos não me parecia algo que tenha o clima caloroso e aconchegante de quem recebe um estudante novo, assustado e desorientado para um ambiente em que nunca esteve antes na vida. Pelo contrário, sempre acreditei que o excesso de pomposidade e formalidade característicos deste tipo de evento pareciam mais um fator de intimidação e de coerção que de recepção.
Mesmo assim, de vez em quando me chamam para falar em uma delas. Em minha apresentação gosto de mostrar que o mundo do conhecimento é grandioso e fascinante, e que isso não tem nada de assustador, muito pelo contrário. Ignorância, quando acompanhada de curiosidade, é um belo fator de aprendizado e costuma levar a situações fascinantes e inspiradoras. Muita gente é influenciada a acreditar que pode (ou pior, deve) saber de tudo sobre tudo, mas isso é, na minha opinião, completamente estúpido. O máximo de iluminação a que acredito ser possível chegar é a socrática, em que se só poderemos vir a saber o tamanho de nossa ignorância.
Veja que bela a conclusão do Dr. Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, sobre o fato de sermos tão “pequenos” no Universo (em que, de fato, ele defende o contrário):
ISSO é que é aula magna, e agora a responsabilidade estava começando a pesar sobre as minhas costas. Mesmo sem entender patavinas de Astrofísica (e de associar Cálculo mais a um problema de saúde que a uma divisão da matemática), acredito que a relação do ser humano com o conhecimento deveria ser a mesma da que ele defende que tenhamos com relação às partículas elementares: deveríamos nos sentir grandes de fazer parte de um aglomerado de conquistas, não pequenos por aquelas que não são exclusivamente nossas. Não há nada exclusivamente individual, se é que você ainda não sabe.
Para muitas pessoas, no entanto, essa percepção da imensidão do mundo é perigosa e assustadora. Assumir-se em um eterno aprender e, nesse processo, rejeitar certezas e maniqueísmos é tornar-se aberto à crítica e ser levado a admitir que suas idéias podem estar erradas. É uma pena. A História mostra que a construção de um raciocínio apoiado em estratégias que não visam se opor a formas de pensar, mas a admitir que existam paradoxos e até contradições entre elas – e que duas ou mais respostas diferentes podem ser igualmente satisfatórias – costuma levar a grandes progressos, por mais que muitos livros de “liderança” e “programação neurolingüística” insistam em afirmar o contrário.
Acima de tudo, grandes profissionais nas mais diversas áreas – principalmente nas criativas – não costumam ter o menor pudor em assumir que as fases mais produtivas e inovadoras de suas vidas foram exatamente as que os forçaram a se portar como aprendizes, sem medo de errar, de cruzar fronteiras de conhecimento, de perguntar o porquê das coisas, de trazer uma nova perspectiva para velhos conceitos e, nesse processo, encontrar atalhos, interligações e curto-circuitos pouco (ou nunca) imaginados.
A genial designer Paula Scher defende brilhantemente este conceito, ao defender que “seriedade” e “solenidade”, que muitos acreditam ser sinônimos, são quase o oposto um do outro:
Essa foi mais ou menos a inspiração que tive para elaborar a minha aula, que deveria recepcionar os calouros, contar para ele que o mundo é cada vez maior e que a comunicação e a interação são essenciais, na procura por remover qualquer comportamento dogmático ou bobagem do tipo “informação é poder”. Como os alunos já tinham um perfil mais conectado, rápido e visual, resolvi montá-la em uma estrutura à Pecha Kucha, mas com 25 minutos e sem se tornar cansativa ou monótona. Um baita desafio.
Maior ainda por ser em casa, na escola me ensinou e formou muito mais depois que eu virei professor do que na época em que eu era aluno. Em uma formatura uma vez eu disse que pagaria para ensinar ali, já que era estimulado – praticamente forçado – a repensar minhas idéias, reciclá-las, renovar o discurso e ser desafiado por mentes brilhantes, mais novas e muito mais conectadas que eu, semestre a semestre, semana a semana.
Encarei a jornada como um aprendiz. Até porque a atitude era extremamente adequada ao momento. O resultado final você pode ver logo abaixo. Acredito que ele que tem várias falhas, mas em linhas gerais eu gostei do resultado.
Terminada a apresentação, alguns alunos vieram falar comigo com os olhos brilhando. Isso não tem preço. Mesmo que eu não me lembre deles daqui a cinco anos – ou que eles se esqueçam de mim ou até mesmo da ECA, o simples fato de ter mostrado para eles uma perspectiva diferente do mundo já justifica o trabalho de um professor. Teve gente que não gostou, o que acho ótimo. Não acredito que toda a unanimidade seja burra, mas certamente é perigosa. Se você só convive com aqueles que pensam da mesma forma que você pensa, corre o risco a passar a acreditar que essa visão do mundo é a realidade, e isso tende a ser preconceituoso, fútil e limitado.
Luli,
Tava passando por um momento nostálgico e resolvi assistir sua aula magna.
Adorei. Saudades da ECA.
Duas frases que me marcaram:
- Você nunca será completo
- Não existem absolutos.
Uma frase da qual eu discordo veementemente:
- Noção é aquilo que vc vai aprender aqui na ECA (rs).
Bjs
Tarsila
Po Luli,
queria que essa tivesse sido a aula magna do meu ano, foram abordadas muitas questões relevantes e atuais que ninguem está muito a fim de falar, e concordo que a coisa que a gente vai aprender na ECA é noção, esse foi o único motivo para eu não ter pedido tranferencia para o design.
Agora se não quiser assustar os bixos ano que vem não use seu ppt mágico que obedece a força do seu pensamento. hahaha
Luli,
Eu venho acompanhando o seu trabalho já faz um tempo. Gostaria de parabeniza-lo pelo espírito inovador e por abrir os olhos de seus leitores para as mudanças do mundo.
Keep up the good work!
Abraço,
Prezado Luli,
Conheci seu trabalho lá na Biblioteca da UEL… Alguns anos depois, me deparo novamente com seu nome, porém seria algo muito mais interessante. Inscrevi um projeto numa arena da Campus Party onde você seria um dos avaliadores do meu projeto. Não sei porque cargas d´água isso não ocorreu. Mas tudo bem, desde então pude acompanhar seu trabalho mais de perto.
Quando estudei comunicação (só comecei, não terminei), ainda predominava o conceito “emissor/receptor” e a semiotica de Pierce e Saussure.
Poder ter a oportunidade de assistir à essa sua aula foi fantástico. Saiba que também meu olho brilhou. E fiquei com vontade de prestar vestibular de novo! :)
Muito boa a parte em que você explica o conceito de noção e como estamos rodeados de gente “sem-noção”. Minha parte preferida da aula. E que aula. Obrigado por disponibilizar mais essa pérola.
Aproveito e pergunto, você conhece o Zeitgeist, the movie?
Um forte abraço,
Ronald
Parabéns Luli, como sempre uma apresentação brilhante! Ainda bem que gravamos (apesar da demora em disponibilizar…)
Assisti e gostei muito!
Mas… Se “não existem absolutos”, o que eu faço com esse “absoluto”? Se não existem absolutos, me perdoe, mas sua aula magna foi um tremendo desperdício de tempo.
Apesar disso, eu gostaria de ter estado lá. Aprendi muito com os “absolutos” que você falou. (=
Você manda bem. Parabéns!
Boa tarde Luli.
Gostaria de parabenizá-lo pela aula magna.
Sou estudante de Sistemas Web, portanto estou um pouco mais distante da sua realidade. Mesmo assim admiro seu trabalho desde que eu o conheci, em um evento Web no ano passado em Curitiba onde vc palestrou.
Ficamos esperando por mais e mais conteúdo de altíssima qualidade. Bom final de semana.
Ehehehe. As sombras dessa apresentação assustaram quem estava dentro da caverna. É muito bacana essa empolgação que a apresentação dá a quem encara a onda de informação que vem vida afora. Se sabemos tão pouco, não há nada a perder com a experiência. Mais uma vez, obrigado.
Cara, vc falou a verdade para os calouros! Gostei! É isso aí mesmo. E quem não aprendeu a entender ironias é porque ainda precisa ler mais livros de literatura em vez de manifestos debilóides a esmo.
É avassaladora esta urgência da superação dos meios de comunicação em massa tradicionais, porém me surpreendo diariamente com a permanência dos velhos modelos, vivendo em paralelo. Vivemos um momento fascinante e é muito importante que alguém aponte o que está acontecendo. Adorei a sua fala, muito apropriada, como sempre.
Caro professor Luli,
como já disse privadamente, a história de repete num outro instituto/escola da USP. Você não tem idéia como esse tipo de padrão é comum em toda universidade (talvez tenho, não sei bem sua relação com outros institutos). Uns poucos competentes, que fazem a USP deixar de cair nas mãos duma grande maioria medíocre, maioria essa com um grande poder político, em geral prejudicados por essa estrutura hierárquica tosca, contruída através da troca de favores.
Da mesma forma que num outro local dessa mesma universidade, alguns dos professores competentes e entusiasmados (não aqueles professores urubus que atraem urubuzinhos), talvez por serem jovens, talvez por não terem saco de se envolverem com a política suja daí, acabam sendo prejudicados por aqueles que vivem às custas do dinheiro público e não fazem nada para que essa grande Escola se torne uma verdadeira escola de excelência e atinja níveis que sabemos existir lá fora (ou até fazem algo, mas sempre pensando nos seus próprios umbigos…).
Fica uma sugestão: formar um grupo de docentes da universidade que realmente contribuem para que ela não vá para o limbo. Acredito que se os professores competentes se unirem, será muito mais fácil eliminar os maus. Aos poucos. Muitas vezes na nossa ansiedade de criticar alguém ou saber que poderia ser melhor, acabamos atropelando até mesmo quem está do nosso lado.
Que você dê muitas aulas para os estudantes ingressantes na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo!!!
Abraços!!!
Há um texto do Gaston Bachelard em que ele fala que é preciso “colocar a cultura científica em estado de mobilização permanente” e “substituir o saber estático e fechado por um conhecimento aberto e dinâmico”. As coisas mudam e é preciso estar atendo a essas mudanças, sem se apegar a pseudo-lastros de conhecimento. O absolouto de ontem é relativo hoje e pode virar piada amanhã.
Quanto aos comentários feitos, acho que reduzir isso a um discurso de “não podemos deixar esses malditos alienados de esquerda acabar com nosso modo descolado de vida” é de uma simplificação quase infantil. Mas me parece que às vezes as pessoas confudem análise com manifestações pessoais de uma suposta “acidez inteligente e mordaz”. Para mim, parece uma tentativa de substituir capacidade crítica por retórica vazia.
Parabéns pelo texto, Luli :)
Parabéns Luli.
Luli, em primeiro lugar, parabéns pela aula. Excelente!
Preferi, desta vez, não me extender em elogios e etc.. pois já vi o reconhecimento do seu conteúdo em comentários acima.
O que me levou a sentar em frente ao computador em um baita sábado de sol neste feriado (e olha que estou de frente para a praia de São Conrado, no Rio!) foi a necessidade que senti em me posicionar, ao comentário do Cadhu Forte:
Cadhu, bom dia. Não nos conhecemos (e também não conheço o Luli – só tenho acompanhado suas palestras e comentários diversos pela internet), mas eu me senti “incomodado” com seu comentário e gostaria de, como em um regime de liberdade de expressão, deixar registrado aqui o que penso, com todo o devido respeito (e nem vou entrar no conteúdo “técnico” da aula):
Você tem todo o direito de discordar (contestar?) do Luli ou de qualquer outra pessoa que te leve alguma informação. Isso é normal e isso é o que nos faz evoluir.
Como EU vejo, o Luli pode até parecer (acho que foi o seu caso) metido, dono da verdade, louco(?), etc… Mas o que você não percebeu é que ele é SIM, o dono da verdade DELE. Ele ACREDITA no que ele diz porque, através de incontáveis momentos da vida dele (penso eu) ele questionou, brigou, discordou (etc.. etc..) dos mestres que ele teve. E ISSO É FANTÁSTICO! Isso fez dele a pessoa posicionada e com o histórico profissional que ele tem. Ele já deixou claro que esse é o caminho (a inquietude, o PERGUNTAR) para um crescimento do aluno (e porque não, do ser humano), SEMPRE. E eu me identifico completamente com isso. Fiz disso, também minha verdade, entende?
Você não precisa aceitar tudo o que ele diz, nem é isso que acredito que ele queira. Mas ele te instiga a sair dali e PENSAR, QUESTIONAR, OLHAR PARA AS COISAS COM OUTROS OLHOS. E isso É DO C…!!!
Eu tive POUCOS professores na minha vida que foram assim, quem me dera tivessem sido TODOS. E só desses poucos é que eu me lembro os nomes e as grandes frases que me abriram os olhos e minha cabeça.
Na MINHA opinião, o que você poderia ter feito, era talvez esperado o final da aula e ido questionar o Luli pessoalmente. Ele, em parte, CONSEGUIU O QUE QUERIA MOSTRAR AOS ALUNOS contigo, percebeu? Gerou a inquietude! Mas só que nem todo mundo assimila da mesma maneira e, para mim, você interpretou de maneira equivocada. Mas é a SUA opinião. Te respeito.
Quanto ao Luli, se você tiver a chance, escute mais. Chegue perto, questione, discorde dele. Com certeza você já vai estar aprendendo MUITO.
Abraço e um bom feriado a você e a todos,
Edd
É claro que a aula merece elogios, foi ótima. Mas, ficam os elogios, tb, ao vídeo. Sempre q filmam suas palestras, perdem a chance de registar o q vc selecionou. Ficou ótimo poder ver o q você preparou no computador tb.
Eu sou do interior do RGS, estudante de uma pequena universidade particular (morro de inveja dos ECAnos, hhehe) e sou embasbacado com o Luli. Conheci as palestras dele no SET Universitário da PUC de Porto Alegre, e foi incrível, porque é tanta informação que às vezes não conseguimos acompanhar e perdemos o fôlego. O Luli é a personificação da comunicação moderna: metamorfoseante e na velocidade da luz. Mas é bom saber que existem pessoas assim que colocam-nos na posição na qual o comunicador deve ficar: sempre buscando, sempre aprendendo e saber sintetizar, informar, vender.
Mais uma vez saúdo o Luli e invejo os ECAnos. Espero ter a oportunidade de conversar pessoalmente, trocar uma ideia e ver qual a minha noção e testar as minhas absolutices.
Saludos do Rio Grande.
Luli,
Acho que critérios para escolha de informação são realmente importantes, mas o mais importante em minha opinião é a forma como você cruza essas informações para soluçionar problemas.
Parabéns pela aula!
Mais uma incontestável super-palestra by Luli Radfahrer. Muito bom mesmo, me lembrou aquela do último Descolagem, que vi ao vivo pela internet. Adorei as referências visuais e reconheci algumas de muito bom gosto. Não adianta ficar elogiando demais, porque os bixos já devem ter inflado o ego suficiente hehehe
Gostei muito da palestra sobre astrofísica, que foi no mínimo inspiradora também. Quem dera tivesse tido uma aula magna assim no meu primeiro dia de aula. Teria criado vários novos critérios e noções do que é faculdade, professores, ensino, tecnologia e mundo.
Parabéns
LULI, Hoje quando encerro um curso indico seu blog (sempre), especialmente pelo carater de vanguarda. Ser pioneiro é duro… no velho oeste você sabia quem era pioneira pelas flechas fincadas no corpo… Tenho feito pesquisa em blogs e as evidências confirmam sua hipótese ” USA MAIS E DÁ MAIS VALOR QUEM ESTÁ DISTANTE”. Acrescento: na razão direta da distância. As vezes quem pode ter acesso pessoal toda semana na sala de aula, dá pouco valor. Já aquele que está no interior do Amazonas, lê tudo! E aparecem os Ferreiras Gullar, Guimarães Rosa cibernéticos. Estamos aguardando sua aula magna em Curitiba no 2o semestre.
( Onde está seu ciber book sobre seu blog, com os melhores comentários?). Abs Ramiro
Olá Luli!
Citei uma frase sua vinda da entrevista com o Serginho Groisman, num texto que escrevi no meu blog (coloquei o link dele em website). O título do post/texto é Sociedade dos Big Brothers voluntários. Quando puder, dê uma lida =)
Parabéns pelo seu trabalho, idéias e práticas no campo do design, tecnologia, educação! A sacada do arduino e do hardware livre é só o início de muita inovação e liberdades na próxima década =)
Parabéns pela aula, direto, e real, é uma pena que uma grande maioria ao se formar se esqueça destes príncipios.
Mais uma vez parabéns.
Não consegui abrir o segundo vídeo, alguém poderia me passar o link ou o arquivo zipado?
Thanks