Muita gente “entra” no mundo digital como quem cai de um barco: de uma vez, estabanadamente, sem planejamento algum. Como quem cai de um barco, muita gente “entra” na Internet de cabeça ou de costas, mergulha fundo e se engasga com o que vê. Na tentativa de administrar a situação, muitos se debatem e se desesperam, se esquecendo de verificar o tamanho das ondas, a força das correntes, a distância da costa ou até mesmo a profundidade do mergulho. Voltar para o barco, como “sair” da Internet, costuma ser trabalhoso e pouco viável, nas raras ocasiões em que é possível. De qualquer forma o corpo não se livra facilmente do ambiente em que foi embebido. E sua sobrevivência depende exatamente desse reconhecimento de terreno.
A interpretação das novas tecnologias nunca é fácil. A mudança de hábito que elas trazem costuma levar a uma crise de referências proporcional a seu impacto. Os novos acontecimentos precisam de novas palavras para descrevê-los, os rótulos antigos só servem como metáforas temporárias. Hoje é fácil explicar que o e-mail tem tanto de correio quanto a web tem de páginas ou o celular de telefone, mas no começo da década de 1990 esses paralelos eram fundamentais para que os novos processos fossem compreendidos.
Assimilados os novos conceitos, eles passam a servir de base para a construção de novas idéias. Só depois que alguém sabe o que é um automóvel é que consegue compreender o câmbio automático, o trânsito, um capotamento. Para entender o sucesso que novidades como o iPhone e o twitter provocam é, portanto, fundamental ter consciência do processo em que elas se encaixam.
Não é preciso uma análise profunda para perceber que os novos produtos e serviços digitais vêm mostrando uma transformação na natureza da Internet. A rede mundial que já foi de computadores e de informação agora abrange uma quantidade cada vez maior de aparelhos individuais e conteúdos opinativos – é, mais do que nunca, a “rede de pessoas” de que tanto se falava – e prova na prática a velha máxima do Jornalismo que defende não ser possível informação neutra. Qualquer estudante de primeiro ano de estudos de comunicação sabe bem que imparcialidade é mito e que toda mensagem é tendenciosa, por mais que a mídia de massa tenha tentado, por muito tempo e até com algum sucesso, provar o contrário.
Mas antes que este post despenque para uma discussão chata e comunista sobre agenda setting e seus desdobramentos, voltemos ao foco da discussão: os meios digitais, que já foram vistos como próteses e anabolizantes da comunicação, passaram a catalisar aquilo que há de mais pessoal e intransferível no homem: sua personalidade.
Em um ambiente de abundância, o simples ato de portar um aparelho caro não quer dizer mais nada (ou, como um Rolex, um SUV com insulFilm ou um dente de ouro, só quer dizer que seu dono é rico o bastante para torrar dinheiro com bobagens). A partir do ponto em que o produto industrial, massificado e genérico deixa de ser novidade, o uso que é feito dele passa a fazer a diferença. Agora que todos têm iPods, a playlist volta a ser mais importante que o fone de ouvido branco.
A popularização dos serviços gratuitos na Internet cria outro tipo de abundância: a da conveniência. Seus exemplos maiores são o Google e a Wikipédia, fontes instâneas e gratuitas de informação, tradução e resolução de problemas. À medida que não há mais informações nem fontes privilegiadas, a leitura que se faz delas passa a ser o grande valor, talvez o único valor.
Desde o início da vida em sociedade, o homem se divide entre a vontade de pertencer a um grupo e a necessidade de se destacar dos demais. Até mesmo entre aqueles submetidos aos regimes e códigos de conduta mais restritos é possível reconhecer e identificar não apenas os líderes, mas cada pessoa comum, em suas particularidades cotidianas. Não somos robôs, por mais que queiram alguns ditadores, editores e diretores. Somos indivíduos. Desde crianças inventamos apelidos uns para os outros e gastamos uma parcela considerável de nossas vidas empenhados no esforço de deixarmos alguma espécie de legado.
Nas cidades pequenas – e nas comunidades fechadas, como as de alguns grupos sociais, familiares ou religiosos – a identidade é imposta pelo grupo, sem muito questionamento. Não há punks em Jericoacoara, o filho do Dr. Floriano só pode ser honesto. Confortável? Sem dúvida.
Se você se encaixa no perfil “adequado”, quero dizer.
As cidades grandes não são menos restritas. Invenções modernas como a Globalização (o mundo integrado em um só mercado) e a Massificação (a mesma mensagem para todos), inspiradas pelos valores tortos do consumo excessivo e do acúmulo desenfreado e egoísta de bens cria uma devoção de fazer inveja a muitas seitas. Acredito que um visitante de uma cultura alienígena teria dificuldade em separar a idéia de riqueza da de paraíso, dinheiro de oração ou Amidah, dietas e academias de Sabbaths, Ramadãs ou até de Novenas com flagelos, revistas como a Caras de catecismos, Shopping Centers de mesquitas e suas liquidações de Hajj ou Umrah. Até mesmo os comportamentos mais excessivos dos genocidas das três grandes religiões ao longo da história são banais em uma sociedade que mata por um tênis ou um relógio, que atropela motoboys ou que sacrifica a merenda de crianças para comprar uma casa nova.
Felizmente tais comportamentos não são naturais do ser humano, apenas vícios sociais. Os políticos de antigamente eram mais honestos porque o ambiente os estimulava a sê-lo. O mesmo se pode dizer dos jornais e escolas. Não acredito que o mundo esteja perdido, apenas que a sociedade esteja prestes a vivenciar uma grande mudança. Ao contrário da queda de Roma, do fim da Idade Média ou das grandes revoluções, uma nova estrutura de poder não vai substituir a antiga, nos moldes da “Revolução dos Bichos”. Esta transformação é silenciosa.
Ela, aliás, já vem acontecendo há algum tempo. Não é preciso ser sociólogo ou pesquisador para perceber que o trio Mídia-Política-Religião passou a ter uma importância (e uma influência) cada vez menor entre os melhor informados. Em uma espécie de anarquia informal, as pessoas começam a descobrir que o simples acúmulo de bens não resulta em nada a não ser uma casa repleta de quinquilharias e um mercado de usados superaquecido. Não há nada de humano no acúmulo, cachorros colecionam ossos. O uso que se dá às coisas e ao poder que se tem através delas que define as características pessoais de cada um, essas sim, pessoais e intransferíveis. Nada mais anárquico.
As estruturas de poder tentaram, por muito tempo, transformar os grupos que controlavam em rebanhos, públicos-alvo, audiências, telespectadores, ouvintes, eleitorado. Apoiados no controle da informação e fundamentados em estatísticas vagas, prometeram paraísos futuros enquanto arrancavam o couro dos crédulos à espera de suas virgens, da bênção do Padre Cícero, de “estar na moda” ou de qualquer outra promessa política. Enquanto isso, subversivas, caladas e inevitáveis, cresciam e se estruturavam as duas características mais humanas que temos: a comunicação e a capacidade de criar, manipular e usar ferramentas, também conhecida por “tecnologia”.
A Internet começou como mais uma dessas ferramentas. A idéia de comércio eletrônico e de Home Banking não vai muito além do conceito de prótese. Com o tempo ela se tornou uma tecnologia de comunicação, aproximando pessoas nas redes de relacionamento que, da blogosfera à Wikipédia, das redes sociais ao YouTube, vêm aos poucos mudando a concepção de mundo e a relação com a informação de uma forma sem precedentes.
Os bens de grande valor, hoje que muitas coisas são gratuitas ou industrializadas, são aqueles autênticos, pessoais, cheios de personalidade individual. Serão ainda mais valiosos se não puderem ser copiados, clonados, falsificados, reproduzidos ou distribuídos em série. Em um mundo de cópias idênticas, elas são os novos originais. São manifestações de tudo aquilo que um indivíduo comum tem naturalmente, antes que lhe tirem a espontaneidade e o forcem a um discurso corporativo. Seu componente humano, enfim. Tio Shakespeare, quando dizia “que obra de arte é o homem“, se referia a qualquer pessoa. Qualquer, qualquer pessoa comum é uma obra de arte. Não os que um auto-definido grupelho acredita que devam ser, mas qualquer um.
Os novos telefones são bacanas porque são os primeiros computadores verdadeiramente pessoais. Sua customização ainda é limitada, as próximas gerações serão tão maleáveis que será difícil operar um telefone emprestado. Como os blogs e o Flickr o são hoje. A plataforma é igual para todos, o uso que se faz dela é o que diferencia seus usuários.
Mas blogs e Flickr e YouTube e LinkedIn ainda são muito “arrumadinhos”. Por mais informais que sejam, ainda são discursos públicos com uma certa cara de portfólio ou mídia. O mesmo vale para a desktop no ambiente de trabalho ou em qualquer computador compartilhado. Dá uma vergonhazinha de ser verdadeiro nelas, há quem tema perder o emprego ou sofrer qualquer tipo de sanção iraniana simplesmente por exercer sua liberdade de expressão.
Talvez seja isso que serviços como o Twitter tenham de tão apaixonante: ao fazer uma pergunta inocente e despretensiosa sobre o cotidiano de seus usuários, eles funcionam como conversas “quebra-gelo” em ambientes sociais. Mesmo que seu modelo de negócios não vingue, sua forma de usar a rede parece ter vindo para ficar, para desespero de alguns.
A Internet é anárquica porque sua estrutura é emergente. Seu conteúdo parece caótico porque as conexões são espontâneas e variáveis, tanto em abrangência quanto em profundidade. Ela se comporta, portanto, como a maioria das estruturas sociais livres de quem se tem notícia.
Por mais que seja confortável a ilusão de proteção de uma figura paternalista, ela está em seus últimos dias. Na ausência de outro chefe para substituir as relações de poder, não sobra ao indivíduo do século XXI em diante outra opção a não ser assumir a responsabilidade total sobre seus atos e sua identidade e largar de vez a barra da saia da mamãe, mesmo que a mamãe seja tão poderosa quanto o Governo ou a Unilever. As mudanças sociais são tantas, tamanhas e tão influentes que chegam a ser redundantes. O mundo em volta parece berrar o tempo todo que:
Você está, sim, por conta própria. Cabe só a você a escolha de sua rede de contatos, de sua apresentação pública, de sua postura social.
A Happy hour e a casual friday tomaram conta da semana inteira, e não há forma de convencer as pessoas a voltar à comodidade dos casamentos de conveniência, dos empregos públicos, das bolsas e aposentadorias por tempo de serviço e de todas as comodidades bovinas com que foram subornadas por tanto tempo. As novas tecnologias de relacionamento e expressão – os novos ambientes sociais e seu comportamento neles, enfim – hoje dizem muito mais a respeito de um indivíduo do que qualquer roupa ou acessório que ele use.
Acima de tudo, como acontece com tatuagens, elas também dizem mais a respeito de quem as segue, repete, elege como favorita, comenta ou critica do que sobre quem as fez ou porta.
Quer algo mais humano do que isso?








Belo artigo Luli.
Um abraço,
Carlos
Excelente tópico. Na verdade já li todos os seus artigos na revista Webdesign e li seu livro Design/ Web/ Design.
Gosto muito do modo como você “linka” temas como: comportamento, tecnologia, ética e profissionalismo, sem contar é claro, com o toque humorado e descontraído.
Sucesso.
Anarquistas, graças a Deus!
Entre ontem e hoje, acompanhei no Twitter, ainda que só espiando, a polêmica do “to follow or not to follow” e quantos seguir ou não, e o uso “politicamente incorreto” de uma foto que valeria mais que 1.000 followers…
Enfim, desfecho da polêmica: pura constatação de que “não sobra ao indivíduo do século XXI em diante outra opção a não ser assumir a responsabilidade total sobre seus atos e sua identidade”.
E se errar é humano, que possamos retomar o que talvez haja de mais humano em nós: a capacidade de aprender (ainda que errando).
Luli, meus parabéns e meu agradecimento.
Teu texto é uma das coisas mais empolgantes, abrangentes, inpiradoras e otimistas que li nos últimos tempos. E o melhor: não estava procurando por isso.
Impressionante como tudo está ligado, desde que se tenha boas intenções. Medicina, informática, construção civil, direito, futebol ou metalurgia; onde há um ser humano há um elo para todos os outros. Não há um salvador a ser eleito, mas salvadores. Destas ligações sinceras, cooperativas e ausentes do dinheiro como Norte entre as pessoas talvez surja nossa nova fonte de ar puro e felicidade.
Ola Luli,
Aqui é o Rei, seu colega dos tempos do Mackenzie. Excelente texto!!!!
Abçs
Deve ser efeito do horário ou do leite com adoçante:
lendo seu texto, especulei sobre os possíveis significados e sentidos para o termo “produtividade” e imaginei que “a capacidade de tornar(-se) produto” não é algo assim tão nobre quanto hoje se imagina sobre “competitividade”.
Vislumbro que em breve (depende de nós) será comum entenderemos que o governo deve ser exatamente um defensor da experiência do usuário, que mercados são conversações e que viver bem é estarmos posicionados para pegar (de novo? finalmente?) a onda da “humanidade” (humanização?): o bem que se faz para sermos humanos, o bem que fazemos para a “humanabilidade” do planeta.
Estar com você sexta-feira foi um tempero especial para “surfar o caos” e eu acho (há indícios de) que vou botar em prática uma idéia que tive, relacionada a você ser alguém na infovia brasileira.
Um abração!
Artigo muito bom!
O artigo mantém uma dúvida que tenho em relação ao Twitter: qual a diferença de eu indagar a uma amiga, amigo como você está por e-mail ou MSN? Divulgar meu trabalho e/ou empresa posso fazer no Linkedin ou num blog ‘corporativo’… E se for acadêmico por uma plataforma Lattes… Tirando a tarifa telefônica, que Twitter supera o prazer de eu telefonar e falar com um amigo que não vejo pessoalmente há um certo tempo? Por último, há um termo que estranhamente está ausente desse texto (e não quero ser injusto, pode estar em outro): privacidade. Quanto de nós gostamos de nossa rede de amigos, de clientes, simultaneamente ao desejo bem antigo de privacidade… aquela situação jurássica de hoje não vou atender o celular… Grato e além da crítica o imenso elogio pelo excelente trabalho aqui e em seus livros.