
Foto: Marcos Nagelstein, ZH
A convite do pessoal da AGADi fui falar sobre mobilidade em um ciclo de eventos chamados de F5, na FNAC de lá. Já estava com boa parte do material preparado quando meu amigo César Paz tuíta:
OK, de volta para o bloco de rascunho. A workshop, que estava focada no cenário atual, teve de ganhar uns toques de projeção e acabou ficando bem mais completa. Agora o problema seria manter a exposição no tempo previsto para tirar o máximo das perguntas posteriores.
O lugar era pequeno, mas a platéia era bem qualificada. Parabéns à AGADi. A presença de rostos conhecidos e extremamente respeitáveis na platéia – como o sr. Abduzeedo e o Marcos Nähr, cujos blogs estão entre minhas referências – me confirmou a importância de não se repetir apresentações. Me choca ver quanto cobram determinadas “celebridades” que fazem de si um triste espetáculo teatral-egocêntrico, repetitivo, desatualizado e, principalmente, desconectado das platéias que a eles devotam sua atenção. Para mim palestras são como aulas: quanto mais alto for o nível da platéia, maior a necessidade de preparação prévia.
Pra aproveitar melhor o subtema “mundo pós-iPhone”, resolvi começar pelo contexto. Dados são sempre variáveis, por isso preferi mostrar atitudes. Nada melhor que os dois filmes feitos pelos fanboys da Apple e da RIM pra mostrar o nível de paixão dessas pessoas por seus… telefones?!?
acima a veneração, abaixo, a competição. Tsk.
Essa devoção exagerada, cega a qualquer espécie de senso crítico, é perigosa e alienante. Não chega a ser tão intensa quanto as guerras religiosas, mas é inegável nela um componente de torcidas de futebol. A disputa Mac vs. PC até passou pela minha cabeça como um paralelo, mas logo percebi que a briga dos celulares era mais intensa. Computadores são sistemas insulares que, mesmo quando conectados em rede, ainda são razoavelmente independentes.

O senhor aí do lado é um bom exemplo da diferença entre os desktops e notebooks e os computadorezinhos que passamos a carregar no bolso: nas raras fotos em que ele aparece só, quase sempre está se comunicando com alguém via seu Blackberry.
Ué, mas isso não é legal? Depende. O problema é que a Research In Motion é canadense, e isso torna as coisas um bocado mais complicadas do que usar um computador chinês ou um videogame japonês: protocolos, servidores, senhas, registros e backups têm que ser armazenados em algum lugar, e não há país que possa se dar ao luxo de perder sua nuvem de vista ou de vê-la cruzar desapegadamente as fronteiras nacionais. A presidência dos EUA pode demandar privilégios e exceções, mas por quanto tempo? Quem mais pode fazer o mesmo?
Esse é o problema das novas tecnologias: ninguém as entende por inteiro, ou mesmo as leva a sério até que chegue a hora em que não seja mais possível ignorá-las. Produtos vão e vêm, as mudanças de comportamento que eles proporcionam permanecem. Outro dia me lembrei da histeria coletiva que aconteceu por causa do Bug do Milênio. Li o que a Wikipedia fala dele e comparei com o que o The New York Times falou na época.
Ri da minha própria paranóia.
A apresentação de cada nova tecnologia costuma ser acompanhada de uma empolgação técnica desproporcional a seu verdadeiro poder. Com ela brotam dúzias de novas siglas e nomes que só aumentam a confusão. Quanto tempo levou para você entender a diferença entre TVs de plasma e LCD? Pois. Raros são aqueles que, pelo menos em sua comunicação, deixam a técnica de lado e se concentram no benefício.
Acredito que parte do sucesso da Apple venha dessa prática:
Já a RIM parece insistir na velha técnica de atordoar as pessoas com tecnologia (ou, como melhor define Thomas Dolby, cegá-las com ciência). Conte a quantidade de termos técnicos que são citados nesse comercial, em que mal se consegue entender o benefício:
Confesso que sou um grande fã do Blackberry, mas não posso negar que o comercial acima parece um trecho daqueles filmes de ficção científica de terceira com a Sandra Bullock, cheios de diálogos improváveis e termos técnicos que, depois de assimilados, se tornam ridículos.
Mas, afinal, o que a mobilidade tem de tão especial se um celular nada mais é que um radinho metido a besta? Se boa parte da Internet móvel é rádio? Se Bluetooth, Wi-Fi, CDMA, UMTS, EVDO e um monte de outras siglas dizem respeito a freqüências de rádio?
Não é tão simples assim. Rádio é um suporte, e muito pode ser feito sobre ele. A TV analógica, por exemplo, usa rádio. Sob o ponto de vista das descobertas tecnológicas, o PC também não é muito mais que uma calculadora com memória anabolizada e automática.
O abismo de compreensão que separa o portador de uma dessas maquinetas de quem usa o celular apenas para ouvir música, mandar SMS e falar está na compreensão que um smartphone não é o equivalente de um computador “socado” dentro de um telefone, mas algo completamente diferente. O que não significa que seja perfeito. Longe disso.
A revista Wired mostra que, mesmo sendo popular no mundo inteiro, o iPhone poderia se dar melhor no Japão. É a reação do consumidor que, cada vez mais mimado, se acostuma rapidamente com a novidade a ponto de considerá-la obrigatória. Para o Homo Dissatisfactens, a Internet sem modem já foi uma maravilha. Hoje não há banda larga o bastante.
Mobilidade, no entanto, quer dizer muito mais do que todas aquelas coisas que nossos telefones fazem que tanto impressionam, como ler e-mails e acessar o YouTube via telefone. Esqueça o raio do telefone e pense no mundo de possibilidades que surgem partir do instante que qualquer aparelho, de qualquer tamanho, possa coletar informações do seu contexto, interligá-las, calculá-las e compará-las com vários bancos de dados, instantaneamente e praticamente sem custo.
Tal situação está longe de ser ficção científica. Independente de qualquer crise, o preço dos componentes eletrônicos continua a cair. Por mais que eu não faça idéia de qual seja o preço de custo de um smartphone touchscreen, imagino que não seja alto. Nele, quanto custa o WiFi? O GPS? O Bluetooth? O telefone, enfim? Se um chip localizador pode custar meia dúzia de doletas, o que me impede de implantá-lo não na minha pele, mas em meu jeans?
As plataformas brigam – sempre brigaram – entre si. Já houve o tempo que a “computação gráfica” era disputada entre quem espremia os 8 bits de cor de um Commodore Amiga e quem perdia a noite esperando a placa TARGA funcionar sem incendiar o PC. Usuários de StarTac e de Nokia 8110 disputavam quem era mais descolado (eu adorava esse Nokia, um dos últimos celulares com a capacidade de bater instantaneamente o telefone na cara de alguém). Já houve até quem acreditasse em Windows Vista, veja você. O iPhone é popular até onde não poderia, mas por quanto tempo?
Ainda é muito cedo para definir quem tem mais chances de ganhar a briga de cachorro grande entre Apple e RIM (e Google, nunca se esqueça). Como se não bastasse, empresas como a Palm mostram um poder de recuperação impressionante, marcas como a Nokia (ou a Motorola, lembra dela?) não podem deixar barato e quem acredita que SonyEricsson ou Microsoft vão jogar a toalha sem tentar convencer muita gente que seus produtos são inovadores pelo caminho só pode ser ingênuo.

Nessa corrida a Apple sai na frente por ter tido uma idéia genial ao inverter o lema da comunidade Open Source, transformando-o em um baita modelo de negócios. Enquanto o pessoal do Unix, altruísta, dizia:
“não trabalhe para grandes empresas, desenvolva módulos pequenos em sua casa, faça parte de uma cooperativa grande e descentralizada que, se você for bom, poderá até se livrar de seu emprego com o tempo”
A turma do Jobs foi mais pragmática e apelou para o instinto Slumdog Millionaire que existe dentro de cada um, dizendo:
“trabalhe de graça para nossa grande empresa, desenvolva módulos pequenos em sua casa, faça parte de uma estrutura grande e centralizada que, se você for bom, poderá se livrar de seu emprego no fim do mês”
Faltou dizer que não tem muito espaço no topo da pirâmide, mas isso seria exigir muito da Apple, que não é uma ONG e nem mesmo original: o Facebook veio com a mesma promessa há pouco tempo, mas quem se lembra disso? O que importa é que a apropriação da filosofia descentralizada criou um modelo de negócios que gerou 5 12 18 25 mil aplicativos e perto de um bilhão de dólares em menos de um ano.
Pois é, nada em tecnologia é definitivo. Ainda mais quando a força que está em jogo é muito maior que qualquer empresa.
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Acredito que um dos principais indicadores da overdose de inovação que vem por aí se chama Arduino. Apesar de ter um nome tão desconhecido do público geral quanto praticamente qualquer outra tecnologia emergente, a idéia por trás dessa empresa é tão simples quanto poderosa: hardware open source.
Isso mesmo. Permitir a qualquer pessoa que tenha algum conhecimento em eletrônica que faça sua própria máquina e a popularize, contanto que mantenha seus padrões igualmente abertos. Pense no tamanho da Tsunami de inovação que poderá surgir assim que as barreiras – de entrada, de porte, de patentes, de sigilo, de restrição do acesso livre ao conhecimento, enfim – forem, pelo menos em parte, removidas?
Não conheço a Arduino nem tenho formação técnica sólida o suficiente para saber se seu modelo de negócio dará certo, mas tenho certeza que a idéia de open hardware vingará. A indústria de software já provou que produtos abertos são mais versáteis e evoluem mais rápido do que os dinossauros que insistem em permanecer fechados, pouco importa seu tamanho ou poder.
Mobilidade e hardware aberto permitem que as mesmas velhas coisas que você usa desde sempre se transformem em novos Tamagotchis que conversam entre si e formam uma rede de conteúdo contextual e ambiental, cujos efeitos ainda somos primitivos demais para imaginar.
O futuro próximo nunca esteve tão distante dos nossos modelos mentais. Por mais que tudo isso dê medo, é um medo bom.
Semana que vem tem mais. Por enquanto ainda dá para prevê-la.



sem palavras. Obrigado pela aula! A melhor coisa que fiz foi comprar um livro há 4 anos de um tal Luli.
vale lembrar que o openmoko já está a venda no Brasil, um smartphone/gsm open-source, você compra o kit e instala o que quiser no seu celular.
Luli, o Hardware Aberto ainda não tem um modelo de negócios sustentável. A Arduino surgiu para uma demanda acadêmica dentro do Instituto Ivrea: designers precisavam de um dispositivo fácil de programar para seus projetos experimentais de interfaces.
O grande problema é que para brincar com Hardware é preciso muito mais do que um computador. É preciso ter uma oficina e componentes eletrônicos, que podem ser caros.
Há que acredite que um banco público seja a solução, mas acho que o caminho é mais parecido com o modelo da App Store. Imagine se a Apple abre o hardware do iPhone para criação de extensões e acessórios? Ia ter gente usando como central de processamento de aviões!
http://antipastohw.blogspot.com/2009/03/introducing-open-source-hardware.html
Para acompanhar o assunto minha melhor referência é o blog da companhia de um dos criadores da Arduino: http://tinker.it/now/
Luli,
Eu concordo com o Frederick… para mim o Arduino não tem nada de inovador, na verdade essas plaquinhas programáveis são muito comuns nos laboratórios de engenharia elétrica/computação. A diferença do Arduino é que eles abriram o leiaute (projeto físico da placa). Mas e daí? O que uma pessoa vai fazer com um microcontrolador e alguns sensores de tão inovador? Ou melhor, como isso pode se tornar um objeto de desejo como um Iphone ou Blackberry?
O que eu considero inovador na área de open hardware são iniciativas como o opencores.com. Aí tu tem o projeto do chip que integra a placa, abre possibilidades infinitas para criar um hardware específico que melhore o desempenho do software que tu utilizas diariamente – como uma placa de vídeo off-board melhora o desempenho de um jogo. A placa com um dispositivo programável onde tu descarregas o teu projeto é vendida pronta, está caminhando para se tornar uma commodity. Assim, ao meu ver, a inovação em open hardware não está no projeto de uma placa mas sim na possibilidade de criar teu próprio chip!
Oi Fred e Rafael. Eu concordo com o que vocês dois disseram. O mérito da Arduino e mais ainda, da Opencores, é trazer a público a idéia de open source hardware e, com isso, levar a fabricação de equipamentos um degrau acima das velhas plaquinhas programáveis. A idéia que eu acho extremamente válida é promover, como no open source software, uma evolução em escala.
Acredito que se um punhado de empresas resolvam pular a parte de desenvolvimento da Arduino mas que, ao fazer isso, sejam obrigadas a tornar seus produtos igualmente abertos e que algumas delas percebam que dá para fazer kits mais simples, ou que ao comprar eletrônicos em escala poderá barateá-los, estaremos a caminho de desenhar nossos próprios chips a médio prazo, coisa impensável há 10 anos. Isso sem entender nada de eletrônica, pensando apenas nos inputs e outputs da máquina, combinando módulos.
Vale lembrar que ainda somos dependentes de computadores razoavelmente fechados e que praticamente ninguém programa em linguagem de máquina. Os intermediários tornam a revolução mais palpável, e dessa forma, mais poderosa.
De qualquer forma, muito obrigado pelo feedback. Deixei claro que não conhecia tecnicamente o suficiente para saber se o modelo era bom ou não, e vocês colaboraram para que este post ficasse mais completo.
Em resumo, concordo com vocês que é preciso muito mais do que um Arduino. Mas é inegável que ele seja um primeiro passo, como o foram o Altair 8800 ou o Apple ][. Evolução não quer dizer perfeição. E como dizem os Alcoólicos Anônimos, “um passo a cada dia, nenhum dia sem um passo”.
Lulli veja o futuro… agora. É conceitual? Não, já está a mão.
http://www.ted.com/talks/david_merrill_demos_siftables_the_smart_blocks.html
Sobre a Apple, realmente aqui no Japão o iPhone não é uma febre como em outros países. A tecnologia introduzida não era nenhuma novidade para o mercado japonês, que já possuia touchscreen, tecnologia 3G, e uma infinidade de gadgets que até mesmo a Apple ainda não conseguiu colocar no iPhone. Mas mais que uma ferramente, celular no Japão é visto tanto como um elemento de moda como um integrador social. Blogs, fóruns, chats, grupos e redes sociais são muito mais acessados em um celular no metro do que no seu computador pessoal. Além disso, elementos externos como design, portabilidade e variedade de cores e modelos influencia muito: japoneses sempre estão com seu celulares na mão, seja pagando contas no mercado, seja mandando uma mensagem pra um amigo ou assistindo TV. E assim como pessoas gostam de ter diferentes modelos de roupas, assim são com seus celulares.
Acho muito difícil que a Apple consiga conquistar o mercado japonês, ainda mais sem criar uma linha de produtos específico as necessidades nipônicas.
Apenas para ilustrar o item Arduino:
Olha o controlador de áudio que foi desenvolvido:
http://www.youtube.com/watch?v=zejyFKa8jXs
Um abraco!
muito bom o texto !!
nao conhecia o arduino, mas achei foda a ideia !
sou adepto de codigo aberto em softwares, mas nunca tinha pensado aplicar o conceito fora disso, como em hardware (rs).
quanto a apple e rim, posso dar um pitaco como observador, pois nunca tive um smartphone na vida. Alias, tive apenas 2 cels, sendo que o atual, uso apenas como agenda, telefone, sms e mp3, o que é pouco, visto que até meu pai de 65 anos faz mais com o dele hehe.
acredito que é inevitavel que um dia, terei a necessidade de ter um smartphone para continuar trabalhando (aka e-mail) do metro ou do carro (rs)
mas enquanto der, prefiro levar um bom livro pocketbook para ler no trajeto entre agencia e casa.
mais que isso, tenho rejeição a todo esse exagero em volta do iphone. Como bom publicitario, mantenho uma boa dose de leitura de sites e blogs sobre publicidade, e digo que durante o lançamento do iphone, me desliguei um pouco desses sites. Nao aguentava tanta notícia sobre o aparelho! O pessoal mandava video até do cachorro latindo pra merda do iphone! beirava o fanatismo.
o lançamento do iphone, foi na mídia especializada em publicidade, um dos maiores acontecimentos da historia! acho que só fica atras da invenção da televisão ehehe
[]´s
PS: a comparação com o chuchu ficou sensacional ! rs
Há uns dez anos, numa Design Gráfico, li num artigo teu algo como…: “Quem definirá o design de interface no futuro deve estar agora jogando vídeo-game.”. Por essas e por outras que te citei no meu humilde blog.
Me diz se entendi teu raciocínio. Forte abraço!