Cultura Digital, Inovação

Privacidade é mito:
somos todos celebridades

Stage diving

Não é mais novidade pra ninguém que as mídias sociais esmigalharam a idéia que se tinha de privacidade e, conforme o ponto de vista, até de pudor. No entanto a diferença entre um indivíduo popular na web – ou do seu primo com 999 amigos no Orkut e seguido por outros tantos no Twitter – e o Tom Hanks ainda é enorme. Ela tem muito pouco a ver com os zilhões de dólares que o eterno Forrest Gump tem em conta. E no entanto eles são tão semelhantes…

Entre as diferenças óbvias de uma celebridade das antigas e seu correspondente no século 2.0 está, obviamente, o tamanho do impacto. Cada pontinho sem vergonha no IBOPE é equivalente à audiência de uma vida no cibermundo. Outra distinção digna de nota é, obviamente, a capacidade e o potencial de interação que as personas públicas digitais têm, o que naturalmente as torna mais próximas e – por que não dizer – mais reais que as cabeças falantes da Vênus platinada. Até aí, nada de novo. Mas talvez a maior diferença entre essas gerações de celebridades esteja em um aspecto que poucos tendam a levar em conta: sua espontaneidade.

uckAo contrário das figurinhas insossas, estereotipadas, classificáveis e vazias que estamos cansados de ver nas telinhas e telonas, as figuras da web são menos engavetáveis. Quem tentar rotulá-las terá que usar uma nuvem de tags, e, mesmo assim, sem muito sucesso. Afinal de contas, uma das maiores conquistas da inteligência humana é a complexidade da personalidade. Nada é completamente bom ou ruim, e a capacidade de perceber essas nuances é a arma mais poderosa que existe contra a lavagem cerebral proporcionada pelo fundamentalismo e por outras formas de preconceito.

A mídia de massa não pode se dar ao luxo de reconhecer que riquezas são diferenças. O tempo sempre foi muito curto e a audiência, generalizada demais. O resultado acabou sendo um processo constante e progressivo de criação de estereótipos. Acredito que qualquer pessoa que se julgue acima do nível bovino de existência deveria responder aos insultos da indústria que o classifica como homem-mulher / classe A-B / 20-35 anos usando as palavras do Fernando Pessoa: Queriam-me fútil, cotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outro, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que haveremos de ir juntos?”

Na época de Jeannie é um Gênio – ou na faixa intelectual da Escolinha do professor Raimundo – não há espaço para personagens sutis ou complexos. O mundo é dividido entre bandidos e mocinhos e ai de quem tente borrar a fronteira. O resultado é empobrecedor: a padronização de papéis e atitudes faz com que você já saiba o que esperar das personagens mais recentes de atores como Julianne Moore, George Clooney ou Ralph Fiennes. E esses são os bons. Vin Diesel, os irmãos Wilson ou Tom Cruise, então, pior ainda.

Tsk, tsk, tsk… me lembra uma música dos Mulheres Negras que dizia
“nosso objetivo é fazer música pop pra quem sabe algum dia ficar rico e xarope”.

Independente de seu talento, personas públicas (não gosto do termo “celebridades” porque acredito ser necessário fazer algo célebre para merecer o título – nascer rico, engravidar do Mick Jagger ou apresentar um programa de jogos xexelentos na TV não qualifica) precisam tomar um grande cuidado com sua exposição em ambientes sociais. Não é dado a um Sacha Cohen ou a um Robin Williams, por exemplo, o direito de estar de mau humor. Chuck Norris não pode sorrir, Steve Jobs não pode ficar doente e ai da Madonna se tentar ser gentil ou simpática.

A vida desses indivíduos é, enfim, patrimônio público. Como todo patrimônio, precisa ser estável para se tornar uma referência, e, nesse processo perde a mais humana de suas características: a capacidade de mudar, se adaptar às ocasiões, aprender e evoluir. Esses ricos ciborgues estão presos às estátuas que tiveram tanto trabalho para construir. Mudá-las demanda um grande investimento em tempo e dinheiro, sem contar o risco da mudança não ser aceita. O papel sofredor da ex-musa Angelina Jolie ou a versão devota da ex-Louraça Belzebu/Satanás/Lúcifer ainda estão sob escrutínio popular, que costuma ter um rigor e intolerância muito maiores daquele que se reserva para si ou para os amigos.

É nesse ponto que o cotidiano deles começa a se parecer com o das pessoas comuns no século 2.0.

Os freqüentadores de mídias sociais (nós) vivem a sociedade das opiniões públicas, muito mais rica e complexa do que se chamava antigamente de “opinião pública”, uma ficção de sociólogos que acreditavam ser possível tirar a média do que as pessoas pensam e descartar o que desviasse do padrão. Graças à popularidade e facilidade de uso dos meios de publicação, o indivíduo urbano, globalizado e massificado usa a Internet como válvula de escape para manifestar sua identidade e, nesse processo, se expõe de forma inimaginável.

Hoje todos nos tornamos personalidades transparentes, habitantes do Latitude, com histórico pessoal no Google, vida profissional no LinkedIn, idéias e visão de mundo em um blog, aniversário e rede de amigos no Plaxo, desabafos, surpresas e comentários entredentes no Twitter, preferências pessoais (e sexuais) nas redes sociais e comunidades freqüentadas e assim por diante. Nunca foi tão fácil checar referências, e não há nada de errado ou perverso nisso. Uma das primeiras regras de sobrevivência social é perguntar aos amigos ou conhecidos se se pode confiar em estranhos. É essa a regra que sustenta sistemas tão diversos quanto a Maçonaria ou o branding.

Big Brother (o outro)

Para desespero dos paranóicos, essa quebra de sigilo e invasão de privacidade é voluntária. Não há uma CIA ou Big Brother (no sentido 1984 do termo) que monte uma base de dados de dar água na boca do KGB. Nós colocamos tanta informação no ar que, para se ter uma inteligência completa de qualquer cidadão, tudo que a máquina precisa é montar um sisteminha que relacione esses dados. Histórias de uso do Facebook pela CIA são bastante comuns no país das teorias de conspiração. São tantos os veículos que as citamalguns até com reputação – que pode haver uma ponta de verdade, sei lá. De qualquer forma é importante tomar cuidado com a face pública que é apresentada. Pessoas comuns não têm RPs, advogados, assessores ou qualquer treinamento de mídia, por isso ainda vão demorar um tempo para perceber que um vexame cometido é hoje em dia quase tão difícil de apagar quanto um nu indesejado.

Cyrano

O lado bom de tudo isso é que a exposição voluntária pode ser controlada, confundida ou mascarada. Cyrano de Bergerac é vivido na prática, a ponto de me perguntar se alguém nascido em 2010 seria capaz de entender ou ver algum valor na história. Os múltiplos avatares representam diversos estados de espírito, todos públicos.Todos passíveis de avaliação. Todos demandando cuidado. Há quatro séculos, o genial poeta inglês John Donne, em suas meditações, disse que “toda humanidade é um só volume. Quando alguém morre, seu capítulo não é rasgado, mas traduzido para uma linguagem melhor…nenhum homem é uma ilha, inteiro em si“. Não poderia ser mais atual.

Por mais que tentem convencê-lo do contrário, a figura do “formador de opinião” está desaparecendo. Hoje somos todos formadores de opinião. E vivemos em um mercado saturado de oferta e escolha, de que somos as figuras mais desejadas. Kotlers e Ogilvys jamais imaginariam isso em seus livros dos anos sessenta. A prova disso é que, apesar de atingir menos pessoas, o preço do patrocínio nos intervalos comerciais do futebol da Rede Globo subiu. Por quê? Porque é cada vez mais difícil achar as pessoas que se pretende atingir.

O excesso de alternativas valida a pergunta tão usada em ambientes de assédio: “o que você fez ou faz que mereça a minha atenção?“. A pergunta, arrogante e malcriada, até há pouco tempo só poderia ser usada por popstars, pelos incrivelmente belos, ricos ou famosos que tinham a seus pés legiões de fãs dispostos a qualquer sacrifício por um breve instante da sua atenção, hoje está ao alcance de praticamente qualquer um em suas relações comerciais.

Empresas que não perceberem que os tempos mudaram e que precisam ouvir de verdade cada um de seus consumidores vão acabar por se comportar como o indivíduo que, depois de longo tempo em um casamento pouco romântico, vê-se divorciado e não sabe mais como se vestir, se portar, se apresentar. A comodidade da relação que parecia eterna fez com que sua barriga e suas manias aumentassem e que ele perdesse a capacidade de seduzir.

Chamar a atenção na sociedade do eu-spetáculo é quase tão difícil quanto abordar alguém interessante em uma festa ou tentar conversar com quem usa fones de ouvido: o tempo é curto, a concorrência é feroz e a relevância… bem, nunca foi tão importante. O resto é perfumaria.

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