Criatividade, Cultura Digital, Inovação

Agenda setting 2.0

Este é um post para quem não é exatamente fã do bundalelê do Carnaval, não se  empolga muito com o Oscar, não é gamemaníaco nem pratica algum esporte, por isso vai ficar de bobeira no feriado e pensa em tuitar sobre suas atividades nos dias livres que terá pela frente:
Twitter: coisa de doido

Das várias invenções recentes que nos acostumamos a chamar de Web 2.0, poucas são mais versáteis e controversas que o Twitter. Há quem ame o serviço e quem não consiga ver utilidade nele, quem o considere a nova onda em comunicação e, como nada pode ser perfeito, quem insista em usá-lo para mandar SPAM.Twitter Spam

Uma vez que não há uma descrição oficial para o que é esse tipo de serviço, sugiro chamar a categoria de ambientes de troca assíncrona de mensagens curtas e normalmente públicas.

Ãhn? Peraí que eu explico melhor.

À medida que os blogs ganharam importância e se transformaram em uma espécie de veículo, seus posts passaram a demandar uma “arrumação”, uma reflexão maior e, nesse processo, perderam um pouco de sua instantaneidade, espontaneidade e frescor. Mix de um post de blog com mensagem de SMS para um grupo de amigos em um MSN, o Twitter é mesmo difícil de entender para quem não tem familiaridade com seus predecessores.

twitter

Pobres baleias, que desserviço o Twitter fez à sua causa.

Mas isso não significa que seja inútil, nem refratário às iniciativas comerciais. Elas só precisam, como todas as ações de sucesso nos meios digitais, compreender bem seu público e promover um serviço relevante. Há espaço para empresas tuitadoras com notas curtas sobre o tempo, trânsito, dieta, saúde, condicionamento físico, baladas, restaurantes, arte, livros, moda, música, manutenção do carro, cosmética, tecnologia, economia doméstica, relacionamento, carreira, investimentos… a lista é enorme e, o que é melhor, tem tudo para ser extremamente bem-vinda pelos consumidores. Basta para isso que os departamentos de Marketing abram mão da miopia egoísta tão banal na propaganda.

picture-2Enquanto isso não acontece, o Twitter é uma festa sem tema, uma grande reunião casual em que cada um faz o que quer. Há voyeurs que adoram xeretar a vida dos outros, exibicionistas patológicos, replicadores compulsivos de links, analfabetos funcionais, otimistas incorrigíveis, resmungões notórios, bons-vivants, odiadores do Internet Explorer, vítimas do trânsito…e, naturalmente, o Vitor Fasano.

Como toda reunião social, o ambiente promovido ali é rico, diverso e maleável. Às vezes até bem útil. Mesmo sem a pretensão de ser um centro de suporte, muita gente recorre a ele para sanar as dúvidas mais bizarras. Eu mesmo recorri ao Twitter no final do ano passado para montar uma bibliografia, com resultados excelentes, que acabaram sendo publicados neste post.

Independente do uso que se faça dele, considero o tipo de rede gerada ali diferente – em muitos casos, mais importante – que a proporcionada por outras mídias sociais. Ela é um canal muito importante para Agenda Setting.

Twitter t-shirt

Quem me chamou a atenção para esse fato foi meu bolsista @gprado. No começo o comentário parecia ser apenas uma tirada espirituosa. Com o tempo ele se mostrou muito mais profundo do que eu poderia imaginar.

Mas antes de desenvolver o argumento, deixe-me explicar melhor o termo: chama-se de Agenda Setting o poder de influência ideológica que um meio – que até agora há pouco só poderia ser de comunicação de massa – tem sobre seu público. É aquela velha história que qualquer indivíduo minimamente alfabetizado na indústria da Comunicação já sabe: que não se pode acreditar integralmente no que diz a mídia, que veículos, mais do que contratos, precisam ser lidos em suas entrelinhas para que não transmitam seus interesses privados como públicos e que a conscientização se dá através da comparação entre as diferentes fontes.

Apesar de ter recebido uma atenção recente da mídia, como se pode ver no vídeo que apresenta o worldmapper.org, o conceito já tem quase 40 anos de idade. As ferramentas podem ser mais interativas, acessíveis e coloridas, mas a idéia levemente paranóica que a mídia usa 100% de seu poder noticioso para defender seus próprios interesses não parece novidade para ninguém.

Network

O filmaço Rede de Intrigas
(para mim bem melhor do que “Cidadão Kane”)
explora o tema com maestria.

O crescimento da importância dos blogs, apesar de significar uma pulverização da mídia, ainda se baseia em influenciadores e em sua velha opinião formada sobre tudo. Como toda mídia, há blogs isentos e tendenciosos, uma discussão longa demais sobre monetização e posts pagos… e a discussão continua. Mais distribuída e em outro suporte, mas essencialmente a mesma.

Até agora. Mídias coletivas não-autorais, como as comunidades nas redes sociais, o Twitter e, até certo ponto, a Wikipedia, expressam uma voz pública e espontânea, com uma agenda de demandas e níveis de importância que não podem ser controlados ou reprimidos.

Isso não significa o fim da Agenda Setting, mas sua evolução. Os “formadores de opinião” continuam a ter seu valor, mas sua influência é cada vez menor e mais pulverizada. Disputam a lista digital do que é importante pessoas comuns de diversas áreas, que se sustentam pela relevância do que dizem, pouco importa o tema. Pode-se acusar que esse tipo de liberdade temática abra espaço para a reafirmação de preconceitos e vícios, mas isso acontece na sociedade como um todo.

Estudos mostram que a necessidade de orientação e critério varia de acordo com o interesse e a incerteza do indivíduo. Uma vez que vivemos em ambientes de atenção parcial constante e excesso de escolha, fica fácil de entender que a liberdade de opção e de expressão dos meios digitais implica na busca por modelos de comportamento e curadores de estilo. Influenciadores, em resumo, são uma demanda pública, mais do que uma imposição. Especialmente em tempos de mudança.

Influenciadores Twitter

Pé na lama? Imagina…
Pelo menos não suja parede de banheiro.

Como fica, então, a Agenda Setting em um ambiente que transforma redes aleatórias de contatos em “comunidades” e em que os sites deixam de ser veículos de comunicação para se transformarem em pequenos vilarejos fechados, em que se sabe da vida de todo mundo e em que estrangeiros não são exatamente bem-vindos? Não é curioso pensar que as mesmas pessoas que fogem da realidade fofoqueira e restrita das pequenas comunidades volte a reproduzi-la no metaverso das metrópoles digitais? Que os mesmos que tanto prezam por sua privacidade não se acanhem em escancarar sua intimidade em um strip-tease de texto, de 140 em 140 caracteres?

Há, no entanto, uma diferença importante: os detalhes confessados são escolhidos a dedo, como também o são os amigos e as redes. Muitos dos leitores deste blog saíram do Orkut, do MSN, do Napster, do SecondLife e de outras redes na hora que quiseram, sem prejuízo social ou síndrome de abstinência. Além disso, não se pode esquecer que cada membro dessas redes expõe o aspecto que quiser da sua personalidade.

E não há nada mais livre do que isso.

picture-3

SchopenhauerToda essa discussão tem um só objetivo: alertar para a necessidade de uma consciência crítica com relação a qualquer mensagem recebida (coisa que os tios Aristóteles e Schopenhauer já alertavam desde bem antes da web ser um brilho nos olhos do Tim Berners-Lee). Chame o termo de Agenda Setting ou de Merchãn vagaba, o que importa é perceber que, agora que a informação é abundante, confundir o leitor se tornou a nova forma de ocultar os fatos.

Essa confusão é mais daninha do que parece. É considerada prática regular de SEO, por exemplo, promover páginas que defendam uma empresa em situações de crise, a tal ponto que a real notícia caia para a quarta ou quinta página de um buscador – lugar que, todos sabemos, ninguém visita. A verdade continua ali, o problema é que a mentira é bem mais visível.

A ignorância digital é construída cuidadosamente, e se apóia no fato que a argumentação ainda é uma raridade. Grupos de interesse publicam e patrocinam veículos com argumentos que, embora controversos, são muito bem construídos, e o resultado final é que o indivíduo comum passa a ter dúvidas a respeito de coisas óbvias, como a evolução, o aquecimento global, os males do fumo e a AIDS.

Triste.

Chega a ser uma ironia pensar que boa parte do conhecimento do mundo está a um clique, mas que não conseguimos acessá-lo por não saber perguntar.

Na sociedade da busca, todo mundo está ocupado demais para pensar a respeito do que lê. Quando precisa ter uma opinião formada, busca por ela também no Google. Uma tia responde a meu post em um artigo no Meio&Mensagem e, para parecer original, nem chega a me citar. Homenagem? Não creio. Transparência é uma realidade, para desespero da old media.

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Copy&Paste or dieO resultado desse processo perverso de exclusão por confusão é um pacote de informação sem reflexão ou critério, empilhado a esmo. Quando um leitor tem a coragem de confrontar o vazio desse conteúdo copiado e colado, recebe como resposta um monte de insultos, argumentos espúrios e mais informação contraditória buscada no mesmo Google. Recomendo a vocês que cliquem na imagem à direta deste texto e leiam os comentários que foram deixados sobre o post no blog Dois Espressos. Eu não conseguiria imaginar melhor exemplo.

Vivemos em uma época em que os fatos não importam mais, já que são acessíveis a todos. A argumentação, que deveria fazer a diferença, é uma arte praticamente extinta. Quando discutimos o significado de um fato, o resultado é um debate construtivo. Se passarmos a discutir se os fatos são reais ou não, ignoraremos todas as conquistas desde o Iluminismo e assim poderemos passar a pensar em quantos anjos são capazes de dançar sobre a cabeça de um alfinete, no melhor estilo medieval.

Minha sugestão é simples:

Pare de buscar informação e procure questioná-la.

As facilidades proporcionadas pelos mecanismos de busca contribuem para alimentar o mito do conhecimento universal (tão bem explorado por Goethe em Fausto, que vende sua alma ao demônio em troca de saber). Sua opulência obscurece a reflexão e crítica, raízes da ciência e tecnologia e principais responsáveis por nosso desenvolvimento. Não somos consumidores e mercados, somos indivíduos pensantes. Como tal, merecemos respeito.

Não há disciplina mais importante hoje em dia do que ceticismo. É preciso desenvolver o espírito crítico para que se busquem respostas melhores, não apenas mais respostas. O pensamento crítico desafia a intolerância e ajuda a propor novas formas de se interagir com a informação e obrigá-la a fazer sentido. Só assim será possível inventar novas formas de se apropriar de um mundo cada vez mais rico em informação tão contextual quanto sem sentido.

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