Cultura Digital, Inovação, Tendências

Coisas para pensar em 2009 (iii)

O videodiagrama daí de cima mostra um bom exemplo de como pequenas descobertas isoladas se fortalecem quando combinadas, até chegarem ao ponto de serem vistas como uma massa uniforme. A Internet nossa de cada dia seria inconcebível sem as invenções dos meninos Robert Metcalfe, Tim Berners-Lee e Vint Cerf. Mas acredito que nem mesmo eles seriam capazes de imaginar o alcance que suas idéias teriam.

Não adianta analisar o impacto isolado de cada invenção. Isso é uma abstração que faz cada vez menos sentido. A Internet levou menos tempo que o rádio e a TV para atingir uma multidão porque ela surgiu depois dessas tecnologias e capitalizou sobre seu impacto e influência. O mesmo pode ser dito do iPod e dos filmes em Torrent. Até mesmo idéias aparentemente sem sentido, como Tetris, têm um efeito importante ao aproximar as pessoas do meio. SMS em teclado telefônico, por exemplo, é de um masoquismo ímpar, mas serviu para mostrar pra muita gente que os celulares serviam para algo além de falar.

O mesmo pode ser dito de vários outros produtos e serviços de que já não nos lembramos mais: eles agem como a estaca que apóia a muda da planta: fundamental em seu princípio, esquecida mais tarde. Essa é uma das características mais fascinantes do processo de inovação: cada nova idéia é combinada, intencionalmente ou não, com outras descobertas anteriores a ela, de forma quase casual. Às vezes invenções geniais ficam armazenadas em depósitos, à espera de uma pequena circunstância as libere.

O carro a álcool que o diga.

Hype cycle

Por argumentos como esse que questiono a validade do gráfico acima: não acredito que adiante rotular ou classificar cada novo serviço ou tecnologia com metáforas de má qualidade (“o pico das expectativas infladas”? Tenha dó). É preciso compreendê-las. Só assim seremos capazes de entender a abrangência de seu impacto.

A Internet age como uma sopa primordial em que todas essas novidades interagem e são retro-alimentadas. Quem ainda acredita estar sozinho ou ser capaz de agir às escuras está com os dias contados. Em um mundo cada vez mais acelerado e interconectado, transparência não é mais um diferencial: é um pré-requisito.

Mas transparência pode ser um problema para quem, como eu, não está habituado a consumir tanta informação. Os computadores tornaram a mensuração dos processos algo simples, automático até. Não é mais preciso ser estatístico para saber taxas de visitação, percentuais de crescimento ou índices de popularidade. Existem programinhas aos montes para calculá-los e gerar belas tabelas e gráficos. Interpretá-los é outra história.

É por isso que, de repente, infográficos se tornaram tão onipresentes e importantes. O cérebro interpreta a informação visual de uma forma completamente diferente da escrita. Como já disse em meu post sobre Gestalt, a percepção visual se dá de uma só vez, assimilando todo o contexto por comparação e contraste, de forma quase instantânea. Já a interpretação de palavras e números é feita de forma seqüencial, linear e contínua – muito mais lenta e trabalhosa, portanto.

Medalhas olímpicas NYT

NYT2

Infográficos reúnem o melhor dos dois hemisférios cerebrais: apresentam a informação instantaneamente e permitem a seus leitores que se aprofundem no detalhe que considerem mais relevante. Adoro os publicados pelo The New York Times, que conseguem ser ao mesmo tempo lindos e muito elucidativos e a cada dia me deparo com novos diagramas em sites inesperados. Alguns de meus prediletos são os da National Geographic, o Map of the market e o do Baby name wizard, que já têm um tempo de estrada. Outros bons exemplos merecem destaque, como os do World Mapper:

WorldMapper

Ou mesmo essa bela animação que mostra o volume crescente de contribuições ao Open Street Map, uma mistura de Google Maps com Wikipédia:

O acesso à informação é cada vez mais visual, a ponto de até a Amazon considerar mudanças na sua interface, como na Windowshop, que usa a linguagem do CoolIris para criar uma experiência imersiva de compras:

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Os exemplos são muitos, e chegam até aos tradicionais anúncios de cerveja. O fluxograma abaixo, por exemplo, vai muito além do estereótipo de mulher pneumática em trajes sumários, como que reconhecendo que o público se tornou mais sofisticado e merecedor de mensagens mais elaboradas:

Goldstar Beer.

À medida que as empresas e veículos de comunicação descobrem que gráficos e infográficos são formas bonitas, interessantes e bastante persuasivas para se transmitir informação, eles se tornam cada vez mais populares. À medida que seus leitores se acostumam com sua linguagem eles se tornam cada vez mais sofisticados e complexos. A revista Smashing, em um preciosismo dispensável, chegou a classificá-los em várias categorias. Por mais que essa organização pareça ter a validade de um catálogo de espécimes de Pokémon, ela merece atenção por mostrar que esse tipo de linguagem gráfica ainda tem um terreno muito fértil pela frente. Quatro categorias, Mindmaps, Mapas de notícias, Mapas de dados e Mapas de conexões demandam observação.

Mindmaps – existem vários programas para ilustrar a conexão entre diversas idéias e conceitos. Usei um deles, o MindManager, na minha apresentação sobre inovação para o MeioBit Expo. Mas acredito que ninguém bata os Arquitetos de Informação Japoneses, que eu já havia blogado a respeito.

Mapas de Notícias – O Newsmap é o melhor agregador de notícias que eu conheço. Pena que não seja customizável.

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We Feel FineMapas de Dados – Esses são razoavelmente óbvios, até porque constituem a base do que nós leigos entendemos por estatísticas. Há aplicações de todos os tipos para isso. O WeFeelFine.org é meio inútil, mas altamente adictivo. Acho esse tipo de aplicação interessante para mostrar o poder hipnótico das visualizações de dados – e seu perigo também, pois podem levar a conclusões erradas ou manipuladas. Como é muita informação, e mostrada de forma contínua e assertiva, essa linguagem gráfica tende a ser muito convincente, já que faltam argumentos além do instinto e bom senso para contestá-las.

WikivizMapas de Conexões – Outro exemplo ao mesmo tempo interessante e perigoso. As diversas conexões entre os artigos da Wikipedia não querem dizer nada. As conclusões que se tira a partir dessas ligacões podem levar às mais variadas interpretações.

Outra forma de informação gráfica que ganha mais destaque a cada dia é a do tipo “painel de controle” (ou dashboard, como dizem na gringa). Popularizada pelo Mac OS X e usada em todo lugar, do Vista ao Android, essa interface tem a vantagem de poder ser manipulável – apesar da maioria ainda servir para simples visualização.

A indústria automobilística, veja só, está na vanguarda. O Eco:drive da Fiat é impressionante, e mesmo o painel desse carro conceito da Ford chamaria a atenção até de um George Jetson:

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Em resumo, é preciso aprender a interpretar a nova linguagem datagráfica. Como todas as outras formas de linguagem, ela é sujeita a maneirismos e manipulações retóricas que podem confundir quem não for muito fluente. O gráfico a seguir é um bom exemplo:

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Em um ambiente de acesso fácil à informação, os novos vilões não são mais aqueles que tentam manter segredos. Esses, pobres coitados, são só ingênuos. Perigosos são os que usam o excesso de dados e métricas para desorientar e confundir, e que serão cada vez mais comuns de agora em diante. A única forma que existe para se defender de sua verborragia nociva é compreender os cenários, não se impressionar com o volume de dados e, acima de tudo, fazer as perguntas certas. A verdade está lá fora.

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Na indústria da mídia, isso significa uma troca de siglas que parece sutil, mas é bem significativa: sai DPZ, entra DPC. Não há mais lugar no mercado para as ditas “agências de propaganda”, sejam elas tradicionais, grandes e caretas ou pequenas e metidas a modernas.

À medida que as mídias sociais propiciam e proporcionam uma abordagem e envolvimento cada vez mais focados e transparentes, as mensagens genéricas perdem seu poder de persuasão e, junto com os veículos de mídia de massa estruturados para divulgá-las, perdem seu valor a cada dia. Esse cenário, cada vez mais freqüente, faz com que empresas especializadas em “agenciar” a “aparição pública” de seus clientes se tornem anacrônicas – e o fato de terem o nome de seus fundadores, muitos deles já mortos, não melhora sua situação.

Em um artigo para a Revista Propaganda de Janeiro de 2002, eu mostrava como a bolha das empresas pontocom era parecida com o mundinho das agências de publicidade. Como toda bolha, essa um dia teria de estourar.

As novas empresas de comunicação não devem mais ter pinta de artista e promessas obscuras. Seu diferencial deve ser claro, mensurável e, na medida do possível, científico. Há dados suficientes para isso. Resta saber quanto tempo os clientes da indústria da comunicação ainda levarão para perceber que a frase “metade do dinheiro gasto em propaganda é desperdício, o problema é que eu não sei qual metade”, citada pelo finado papa da propaganda David Ogilvy, não evidencia seu talento, mas uma incompetência que o cliente do século XXI não pode mais tolerar.

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