Os três exemplos de integração entre tecnologias e mídias mostrados no post anterior mostram que isso não é mais uma tendência, mas uma realidade e condição obrigatória para quem quiser ser minimamente levado a sério daqui para a frente. Não se pode mais separar um produto digital de outro, da mesma forma que não faz mais sentido separar o que acontece “aqui fora” do que se passa “lá” na Internet.
Por mais que se fale da crise e seus efeitos em uma provável recessão, ela não deve frear o passo da inovação, muito pelo contrário. A multiplicidade de idéias deve aumentar em 2009, já que a falta de dinheiro e a concorrência selvagem tendem a balançar a pasmaceira das empresas e estimulá-las a ter idéias cada vez mais novas.
Para as firmas que ainda teimem em não entrar no século XXI, no entanto, o cenário é desanimador. A falta de recursos para investimentos e a retração do mercado são só o começo. Some a isso um consumidor melhor informado e resistente à propaganda, uma pulverização da mídia e do poder de influência, bens de produção baratos ou gratuitos, livre acesso à informação e trânsito de mercadorias e o resultado é uma concorrência pra lá de selvagem.
Para ajudá-lo a se orientar no mar revolto de informações, idéias e tendências que 2009 promete se tornar, fiz uma lista de tecnologias e serviços que merecem atenção. Minha lista não tem a intenção de ser qualquer tipo de aposta, previsão ou viagem à Nostradamus. Pelo contrário, ela nem tem a intenção de ser abrangente (não faço a mais pálida idéia, por exemplo, dos rumos do Agronegócio ou da Bolsa de Hidrocarbonetos) mas busca chamar a atenção para aquelas novidades que você pode ver acontecer por perto, saber vagamente do que se trata e depois esquecer. Natural, você está lotado de informação e obrigações. De qualquer maneira vale olhar um pouco mais essas coisinhas que estão acontecendo bem perto de nós, e que podem provocar grandes surpresas muito antes do surgimento de redes WiMax, geladeiras com acesso à Internet, eletricidade sem fio ou a Microsoft abrir mão do SilverLight de uma vez por todas.
1. Pulverização de interfaces
Muita gente ainda associa o termo “interface” a uma tela bidimensional com ícones, normalmente ligada a um computador, teclado e mouse. Até há pouco tempo essa era a única realidade, e essa realidade teve seu lado positivo (ao aproximar as pessoas dos equipamentos digitais de uma forma difícil de se acreditar com cartões perfurados) e negativo (ao fazer com que muitos acreditem que ela era a única possível). Os videogames mudaram um pouco esse cenário, mas durante muito tempo seus produtos eram para um mercado de nicho, cada vez mais hermético e fechado, quase um Cosplay.
O Nintendo Wii ganhou o mundo ao sair da panelinha e mostrar que qualquer parte do corpo pode ser usada como interface e que jogos não precisam ser complicados para serem divertidos. Ele tem muito potencial para se estabelecer como plataforma de integração, mas o caminho ainda é longo. Uma posssível inspiração está em jogos um pouco mais antigos, como o Guitar Hero ou o Rock Band e suas ações para o lançamento de novas bandas ou até para a reciclagem de algumas que já têm algum tempo de estrada.
É o caso do Metallica que deu um belo vexame digital há pouco tempo e parece ter aprendido uma coisinha ou outra.
Pode não ser a salvação, mas que é uma estratégia de marketing interessante para a indústria fonográfica, ora isso é.
Afinal de contas, música é muito mais divertida quando tocada do que quando ouvida, mas poucos têm talento ou paciência para aprender um instrumento.
Não se deixe impressionar pela guitarrinha ridícula, conheço algumas histórias de músicos de talento que tomaram uma sova de adolescentes que se dizem incapazes de tocar qualquer outro instrumento.
Por mais que essas interfaces – e muitas outras, como a do Nintendogs, por exemplo – pareçam ser apenas mais pirotecnias em uma brincadeira alienante e improdutiva, elas abrem caminho para conquistas sem precedentes no ramo da medicina.
Não é exagero, veja este vídeo:
2. Conteúdo separado da forma
RSS não é mais novidade para mais ninguém, muito menos as folhas de estilo em CSS, a tal ponto que chega a causar espanto constatar que ainda existam tantas páginas ainda estáticas, sejam em HTML, Flash, ou até mesmo em PDF. Isso não é apenas uma evolução técnica, mas uma mudança completa na forma com que nos comunicamos com as máquinas.
Da mesma forma que os websites são tantos a ponto de ser difícil lembrar em qual deles se teve acesso a uma determinada informação, os aparelhos que acessam a rede são cada vez mais baratos e populares, a tal ponto que em breve Internet e computadores pessoais não terão mais uma associação obrigatória. Nem óbvia. Em um palpite modesto, acredito que a quantidade de tamagotchis online em sua casa deverá dobrar neste ano.
O mesmo deverá acontecer com o tão esperado e-paper. Não, o livro não vai morrer tão cedo, continuaremos a matar árvores para imprimir O Segredo, O Código da Vinci e Second Life For Dummies. Mas acredito que certos documentos deixarão seus suportes habituais. Sou um leitor assíduo, e depois de acumular dores de cabeça tentando ler feeds em telefones e computadores, confesso que o Kindle, mesmo com todos os seus defeitos de usabilidade, quebra bem o galho.
Em resumo: daqui a pouco a pergunta “onde você leu isso” ficará ainda mais difícil de responder, pois pode ter sido em um site, em um feed, em um iPhone ou, quem sabe um dia, até na fachada de um prédio.
3. Inteligência artificial
Clip do Radiohead capturado sem câmeras, mas com Geometric Informatics e Velodyne LIDAR. Não esperava ver um vídeo de rock no Google Code.
É cada vez mais natural deixar o computador pensar por nós. Seja em recomendações da Amazon ou em cenários do Spore, o fato é que esses meninos de silício parecem estar finalmente desenvolvendo algum talento. O que eles fazem ainda não é bonito, mas quase. Não, não é uma “estética”, mas a falta dela. Como as capas de álbuns feitos nos anos oitenta com gráficos de Commodore Amiga, não ficarão para a história. Mas impressionarão muita gente à medida que se consolidam.
4. Mobilidade da mobilidade

Muita gente que olhou com desprezo para essa maquininha aí de cima, se perguntando para que ter dois notebooks provavelmente não se lembra de uma discussão parecida que aconteceu há uns 10 anos, quando os primeiros computadores portáteis se tornaram populares. Mobilidade, que já foi um luxo, agora não é mais do que obrigação. Muitos usam o notebook como CPU em casa, o que costuma destruir baterias mas faz um bem ao planeta, já que eles gastam muito menos energia do que as velhas CPUs torre e seus monitores de tubos de raios catódicos.
Não é só o fato de serem verdadeiramente portáteis que faz dos subnotebooks algo tão bacana, mas o fato dos sistemas operacionais dependerem cada vez menos de capacidade de processamento e armazenamento em disco. O software da era Wintel fica cada vez mais com cara de dinossauro, seja por seu porte paquidérmico, seja por sua lerdeza e fome por recursos. Em oposição a ele, web applications são econômicas (em seus clientes, entenda-se) e podem ser operadas de máquinas cada vez mais ágeis.
Ninguém duvide que um dia teremos maquinetas destas com terabytes de RAM ou memória Flash, mas acredito que mesmo assim não passará pela cabeça de alguém sensato ter programas pagos ou arquivos importantes armazenados nelas. Para mim, que penso muito melhor quando estou em movimento, essa evolução não poderia vir mais a calhar. Este post, por exemplo, começou em um computador e passou por outros três, dois blackberries, um PSP e um iPhone antes de ser finalizado.

5. Mídias sociais
Elas, sempre elas. O grande hype de 2007/8 (alguém ainda se lembra da briga dos blogueiros contra o Estadão?) ainda continuará muito vivo e ativo durante o ano que se avizinha. Fala-se em prostituição do meio, em vulgarização do Orkut e no fim dos Blogs, mas o fato é que as mídias sociais estão mais fortes do que nunca. Os meios de publicação, remunerados ou não (obrigado), se consolidaram e se tornaram fontes de informação. Como todas as outras mídias, algumas são mais confiáveis, outras mais fúteis, outras claramente utilitárias, seja lá qual for sua área de interesse. Elas enfrentam os mesmos problemas éticos de outras mídias, e seu público nunca esteve tão capacitado para avaliá-las.
Fala-se no fim do blog, mas isso é uma mera questão semântica. À medida que o conteúdo exposto nos blogs foi ganhando credibilidade, eles se tornaram mais “sérios”. Até o blogueiro mais desencanado dá uma revisada em seu texto, pesquisa direito suas fontes e trabalha as fotos e mídias que pretende expor. Não há dúvida que percam parte de sua naturalidade no processo, já que deixaram de ser “diários informais” para se tornarem publicações. Esta, aliás, sempre foi a intenção deste blog. Caso contrário não escreveria posts quilométricos como este. Se blogs estão mortos, o meu nasceu morto. No entanto, você está aqui…
Morto ou não, o Blog é a cada dia uma fonte mais confiável e influente de informação. Graças a ele o leitor aprendeu a se relacionar com os meios de comunicação de uma forma mais independente, ousada, colaborativa enfim. Em outras palavras, aprendeu a abandonar o conforto anônimo da multidão bovina e mostrar a sua cara em público. Ao manifestar sua opinião, consegue descobrir que há outros como ele e consegue ter acesso a um conteúdo melhor e mais abrangente. Algumas empresas expandiram esse conceito (com termos hype tipo “crowdsourcing”, de que não sou muito fã) e conseguem criar produtos melhores em uma verdadeira simbiose: os usuários dão consultoria gratuita ao dizerem o que querem e a empresa os mima produzindo suas idéias. Inimaginável há poucos anos, esse processo tende a se tornar cada vez mais obrigatório.
mas ainda não há lugar melhor para desfilar essa nova persona cheia de idéias e opiniões do que as novas praças públicas: as redes sociais.
A editora Penguin, no Reino Unido, entendeu bem esse movimento e resolveu investir parte de sua estrutura em uma constatação que tinham há mais de um século: que a segunda melhor coisa que se pode fazer a respeito de um livro é compartilhá-lo (a primeira é lê-lo, mente suja). Esse é o segredo dos clubes de leitura, de muitas cadeiras acadêmicas, bibliotecas e, bem ou mal, é parcialmente responsável pelo sucesso (sobrevivência?) do mercado editorial, principalmente no segmento de literatura. Criar uma rede social soa naturalmente como o próximo passo lógico.
Mas já existem redes sociais DEMAIS, e não faria sentido criar mais uma a não ser… que ela tivesse um fim específico, um pouco pragmático e talvez descarado demais para os tempos de Oscar Wilde, mas que vem sendo usado desde muito antes do nosso país ser descoberto: encontrar pessoas com pensamentos e desejos afins e, a partir de uma conversa descompromissada sobre Charles Dickens, partir para umas taças de vinho ainda mais descompromissadas citando Jane Austen e terminar debaixo de um cobertor sob os versos quentes de John Donne. Um acordo com o site de encontros match.com é, sob esses aspectos, divino.

Com intenções muito mais inocentes, mas não menos frutíferas, a empresa de blocos de plástico colorido LEGO percebeu que seu negócio não estava nos paralelepípedos de poliuretano (ou polipropileno, não entendo nada de plásticos, só fiz a frase porque adoro aliterações) mas no ato de criar estruturas e brincar com elas. Pois é, você está mais familiarizado com Metaversos do que pensava.
Para se aprofundar no assunto, dê uma olhada também no LittleBigPlanet. Estou certo que você ainda vai ouvir falar muito dele neste ano.
Independente do crescimento e da popularidade de Facebooks e seus amigos (como o Bebo, que é um sucesso naqueles países que têm castelos no interior), ou mesmo de um Twitter, que cresceu 422% no ano passado, só nos Estados Unidos. O que se deve observar em 2009 não são novas iniciativas no estilo do Joost ou Ning. Elas continuarão a surgir, mas o foco não deve ser nas empresas e sim na sua influência no comportamento das pessoas, que se tornam mais ativas e sociáveis, mesmo que seja por intermédio do digital. É o que você faz online que faz a diferença, não aonde você está.
Cyrano de Bergerac faria a festa.
Por mais que todas essas idéias de participação me empolguem, minha misantropia me leva a perguntar se precisamos tanto assim de interação ou se essas iniciativas de convivência digital acabarão por chegar a um ponto de saturação. Infelizmente não tenho resposta para isso: faz mais de 15 anos que as mídias digitais vêm se tornando a cada dia mais amigáveis e colaborativas, contrariando todas as expectativas. A natureza humana, no entanto, é preguiçosa. Um dia a leseira deve bater.
Caetano já se perguntava “quem lê tanta notícia”? e, no melhor espírito Dorival Caymmi, me dou conta que este post, pra variar, ficou enorme e terá que ser continuado outro dia.

ler rss no kindle é algo que espero fazer em breve. torço para que esse formato de leitura pegue tem anos. espero que seja em 2009 =]
Além de aprender sobre serifas com vc, especificamente em seu livro, e saber então o pq de o Reed College ter sido tão aclamado… aprendi o nome do que tenho sofrido nos ultimos tempos, misantropia… qlq dia alguem abre uma rede social antisocial…
Olha você realmente manda bem, sempreeeeeee…. O seu panorama da atualidade ficou 100%.
Pedem para interagir ao mesmo tempo que interagem pra pedir. Ações conjunta humano-humano e humano-máquina sempre desencadeará uma reação sobre uma ação. Isso é pura bidirecionalidade.
O barato dos textos do Luli é que como todo grande mestre ele nos faz pensar. Obrigado Luli!