O ano começa acelerado e antes mesmo que você consiga tirar o Papai Noel da sala, a lista de coisas para fazer já passa das duas páginas. Por mais que a correria insana pressione você a mergulhar de cabeça no serviço para voltar ao que era antes, proponho uma curta pausa para refletir sobre o que vem por aí. Você pode não ter percebido, mas 2008 mudou muita coisa, e quanto mais inteirado você estiver, menos se surpreenderá.
Google Trends. Repare que o Grande Colisor de Hádrons,
maior conquista tecnológica da humanidade, não atingiu um sétimo da popularidade da efêmera Sarah Palin.
Agora que o hype Obama acabou, podemos finalmente pensar em outras coisas. A catarse coletiva da eleição levou a algumas ceninhas ridículas, mas até o austero The New York Times soltou a franga e usou um título composto em ousadíssimos 96 pontos, tamanho antes só usado para o homem andando na lua, a renúncia do presidente Nixon, a virada do milênio e o 11 de setembro. Não é pouca coisa.
Do ponto de vista do digital, a campanha está pra lá de parabéns. O uso consistente e coerente de mídias não-convencionais mostra que políticos e governos podem estar na transvanguarda da comunicação, desde que bem assessorados. A contratação de Chris Hughes para tocar o my.barackobama.com, por exemplo, foi genial. A presença serena e consistente do candidato em seus discursos e debates foi replicada para o Twitter, Facebook, iPhone, YouTube… bem, já deu pra entender. Soma-se a isso um filme para TV cujo roteirista escreve uma narração emocionante no estilo “Era cantada pelos imigrantes ao chegarem de praias distantes e por pioneiros que forçaram o caminho para o Oeste, enfrentando um ambiente selvagem sem perdão… sim, nós podemos”.
O mais legal é que a média de idade desses profissionais de ponta é… 25 anos! Mais um mérito dos organizadores da campanha pos selecionar talentos de forma bastante coerente com o que foi pregado na campanha. Quem sabe as empresas que se metem a fazer “propagandas” ao redor do mundo se inspirem com esses resultados e procurem ser minimamente coerentes em 2009 (não peço para que sejam honestas porque seria contrariar sua natureza). Resta agora ver se a presença continua agora que os votos foram dados.

Outra das notícias que dominou o mundo em 2008 foi o iPhone 3G e sua app store. No começo muitos relutaram, mas com o tempo até os críticos mais ferozes daquela maquininha que não copia nem cola e que é considerada meia-boca para os padrões japoneses e coreanos se tornou o celular mais vendido no mundo. Se levarmos em conta que muitos desses telefones – acredito que ainda sejam a maioria – ainda precisam ser desbloqueados e passar por uma série de gambiarras, o fenômeno é ainda mais assombroso. Você correria o risco de inutilizar um Samsung, LG ou até mesmo um Nokia em uma atualização de firmware? Pagaria mais de 300 reais para desbloqueá-lo depois de ter gasto mais de cinco vezes isso só para comprar o aparelho? Duvido.
O sucesso do iPhone vem, como o sucesso da campanha Barack Obama, de uma integração sensata e harmoniosa de forças. Muito antes do iPhone, a harmonia entre iPod, iTunes e Apple Store promovia algo que nenhum outro vendedor poderia oferecer: um tocador de MP3 integrado a um software que poderia digitalizar as músicas dos CDs e a uma loja onde essas mesmas músicas poderiam ser compradas. Parece óbvio, mas ninguém tinha pensado nisso até então. Falo mais da integração neste post, mas a conclusão é bastante simples: já não adianta mais estar online, é preciso estar integrado. Graças a essa integração a Apple se tornou uma empresa popular. Não é mais a elite que os MacManíacos arrotavam nem mais a frescura que os pecezeiros desdenhavam. É massa. De manobra.
O ano também foi do Google e de suas invenções. Acredito que se eles tivessem uma figura pública com mais presença talvez tivessem aparecido até mais. A popularização do Maps, do Earth e, principalmente, do Street View, ainda mais quando integrados ao iPhone, mostra como nossas vidas se misturaram com os produtos e as informações da rede e – talvez o mais importante – como achamos tudo isso muito natural. Como diz o Kevin Kelly, é impressionante pela novidade e pelo fato de não nos impressionarmos. Faz cada vez menos sentido pensar em uma Vida de Segunda quando se pode misturar a nuvem à vida de verdade.
Apesar de bastante visíveis, essas inovações são fogos de artifício quando comparadas ao lançamento do Chrome, o browser deles, que, ao usar a ferramenta de código aberto Gears, também criada por eles, permite que os aplicativos desktop e online troquem informações. A integração Chrome – Gears – GMail – Google Apps – Android (sistema operacional para telefones móveis também criado por eles) mostra que a empresa não tem nada de boazinha e que corremos o risco de entregarmos voluntariamente boa parte da informação do mundo ocidental nas mãos de uma só empresa. Sob esse aspecto, as ações da Microsoft são até ingênuas.

Tudo isso me lembra a Skynet.
Alguém se voluntaria para o cargo de John Connor?

Brilhante, Luli. Aproveito o convite que você faz à reflexão para lembrar de quantas oportunidades perdemos corrgindo problemas ao invés de parar, raciocinar e inovar. Abraço!
Gostei do post! Feliz 2009 pra você. Lendo o mesmo, fiquei intrigado até, o que podemos fazer para não acontecer isto? Fica a pergunta. Criarmos nossos próprios softwares? etc.
Genial, queria ser seu aluno e sou (ou me considero). Mesmo sem pisar na USP estou no radar!
Olá Luli,
Parabéns pelo texto. Eles(Google) ainda são referência em nossa área. Quero ver um post sobre o OS(Cloud)!
Achei o seu blog ótimo, e entrei através do blog do fatorw.
Estou sofrendo(não baixa o vídeo todo) para ver a sua palestra da Deslocagem.
Já adicionei o seu blog em favoritos e também o RSS
Apesar de estar no grupo que acha o iPhone um telefone com recursos limitados, dobro-me para reconhecer que a Apple consegue ter esta visão diferenciada de mercado e usar as oportunidades. Felizmente, uma vez com os olhos abertos, o mercado se movimenta e todos ganham com a oferta de produtos. Veja aí o novo equipamento da Palm, o Palm Pre, que parece dar um passo na interface do iPhone. É claro que a integração com o desktop terá que ser boa também para o sucesso completo. Ah, dizem que roda Linux (linuxdevices.com), um outro (grande) passo em relações às interfaces gráficas sobre Linux para celular. No mínimo, devem entrar na nossa listinha de “equipamentos\tendências para observar”.
Olá!
Estas tendências que a própria tecnologia nos permite acompanhar são processos que precisam uma outra ciência para serem analisados.
As previsões tipo causa e efeito se esfarelam diante da complexidade destas possibilidades gerar, distribuir, filtrar, classificar, guardar, fazer desaparecer informações.
São coisas para pensar muito, mesmo :)
abraço
Suzana
Alguém falou “deslocagem”?
Claro que a Palin teve mais popularidade que o LHC. Se ela tivesse sido eleita, ia ser mais fácil ELA explodir o mundo do que o gerador de buracos negros artificiais suíço.