Este é um post de Natal sem Papai Noel, renas ou a cor vermelha. Bem, talvez só com a cor vermelha. No extrato. Sua função é estimular em você a vontade de compartilhar. Ou não. De qualquer forma a mensagem do Wales é séria e bastante adequada ao que deveria ser o espírito da época. De todos os textos que me tocaram o coração, foi o único que também me tocou o bolso.
Por mais que seja assustador pensar que podemos enfrentar um mundo sem Wikipedia, não é preciso ser economista para perceber que sua conta simplesmente não fecha. E que o vão tende a crescer exponencialmente com o aumento de sua popularidade. Eis o verdadeiro exemplo de um serviço vítima de seu próprio sucesso. O Twitter e o Flickr correm mesmo riscos parecidos, mas têm soluções mais fáceis.
Um fato tão corriqueiro quanto freqüentemente ignorado é que usuário é despesa. Ele significa banda, espaço em disco, infra-estrutura, enfim. Se o tráfego for pequeno, esses custos serão quase irrelevantes. À medida que a popularidade aumenta, eles podem se tornar proibitivos. É um paradoxo: o usuário, considerado um dos maiores patrimônios de um serviço digital, é na realidade um passivo para os recursos da empresa. E quanto mais ativo for, pior. Nenhuma startup que pretenda sair deste estágio pode se esquecer disso.

Se você se importa com o aquecimento global, jogue os e-mails inúteis no lixo. Isso poupa equipamento e rede. A “nuvem” é feita de plástico e metal.
E consome barbaridades.
Tão conhecida quanto o desequilíbrio das contas da Wikipedia é a falta de opções sensatas e viáveis para mantê-la em operação. Fala-se em vendê-la para um Google ou Microsoft, fala-se em cobrar e remunerar a pesquisa, fala-se em patrocínios, “apoios culturais”, subvenções governamentais e até (cruzcredo) em Banners.
Todas as propostas são refutadas antes mesmo de serem enunciadas por um motivo muito simples: integridade. O sucesso da “enciclopédia gratuita que todos podem editar” deve-se, principalmente, à sua independência, abrangência e isenção, a ponto de servir como fonte de consulta neutra e introdutória para praticamente qualquer assunto. Em um mundo dominado pelas ideologias propagadas pelos canais de comunicação, a Wikipedia funciona como um ponto de referência para que assuntos complexos como a crise mundial, o Corinthians e os Mujahideens sejam apresentados da forma mais factual possível, e assim permitam ao usuário que tire suas próprias conclusões e forme sua opinião. Se a partir dali ele resolver aprofundar seus conhecimentos através da Fox News ou da Al Jazeera, a escolha é dele.

Fica difícil ter uma visão imparcial a partir de uma página assim, não?
Todos esses argumentos (pra lá de conhecidos, eu sei) são, como o número crescente de usuários, razões tanto para o sucesso como para o fracasso da Wikipedia. Graças a eles sabemos que não se pode cobrar pelo serviço, já que os colaboradores são voluntários. Se estes fossem remunerados, o seriam por que critério? Popularidade? Número de contribuições? Será que quem escreve sobre Michael Jackson deve receber mais do que quem escreve sobre Jesse Jackson? Ou sobre Jackson Pollock? Jackson do Pandeiro, talvez? Na minha opinião todos esses verbetes são de igual importância. Acredito que na dos editores da Wikipedia também. A ausência de curadoria é uma de suas características mais fascinantes.
Esse também é o motivo que a impede de ser comprada por um Google ou Microsoft, não importa a nobreza de suas intenções declaradas. As pessoas estão cada vez mais pragmáticas e nem mesmo o mais desapegado (e ingênuo) usuário acreditaria que essas empresas teriam investido tanto capital somente pelo “bem comum”, sem nenhuma intenção escusa. O mesmo argumento vale para qualquer governo ou instituição que se proponha a apoiar a Wikipedia somente por agradecimento pelos serviços prestados, sem segundas intenções.
Hummm… a primeira página de resultados da busca pelo verbete “Wikipedia” no Knol é, no mínimo, estranha…
Sobraram os Banners. Eu não gosto deles, você já sabe (se não sabe, leia este post ou este post). Na verdade, sei que eles são irrisórios. Tão insignificantes que se tornaram invisíveis. Mas eles custam caro para as empresas e remuneram os veículos razoavelmente bem. Considerando as características únicas da Wikipedia, ela teria um valor de mercado comparável a um Superbowl ou até mais. Sob esse ponto de vista, será que não valeria a pena cobrar uma nota preta para colocar no ar um retangulozinho que praticamente ninguém vê e muito menos clicam e, nesse processo, salvar um patrimônio incalculável da bancarrota?
Você sabe que não. A idéia de banners, links patrocinados ou qualquer prática de publicidade, promoção ou SEO na Wikipédia traz consigo um ar sujo, uma sensação de decadência mercantilista, de fim dos tempos, de invasões bárbaras. Mas… Por que, se as razões são tão nobres? Será que, no médio prazo, os fins não acabariam por justificar os meios?
A resposta não é tão simples assim. Vou tentar aumentar a abrangência deste raciocínio sem sair do tema natalino.
No lançamento de seu livro “Deus, um delírio“, Richard Dawkins (o mesmo cara do Gene Egoísta) chamou a atenção para o fato de tantos candidatos americanos fazerem lobbies e campanhas em busca do voto Judeu ou Muçulmano enquanto nenhum candidato se diz ateu ou agnóstico, apesar de mais de 20% do país afirmar não ter religião.
Não que para nós, em especial para os paulistanos, isso seja uma novidade. Quem tem um fio de cabelo branco na cabeça lembra da cena em que o apresentador de telejornal Bóris Casoy pergunta ao então candidato à prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, se ele acreditava em Deus. Embaraçado, o sr. Cardoso ainda tenta se defender, mas não teve jeito: foi obrigado a admitir sua (falta de) crença e, neste processo, perdeu a prefeitura para o moderníssimo candidato Jânio Quadros.
Mas qual é o problema de se votar em ateus – e o que isso tem a ver com banners na Wikipedia?
O problema não está no voto nem no candidato, muito menos no fato de ser ateu. Ou talvez esteja. Qualquer religião traz embutido em seu conjunto de dogmas um código de ética razoavelmente rígido e abrangente (manja “não matarás”?). Aqueles que têm dificuldade em dissociar a religião da ética – muito mais gente que você imagina, e gente bem mais esclarecida do que você poderia supor – acaba por acreditar que aqueles que não creiam em um Deus devam ter um comportamento social e pessoal mais egoísta e anárquico.
Essa associação de idéias é mais comum do que se imagina, e quebrá-la não é nada fácil. É por isso que fica tão difícil financiar a Wikipedia com outra coisa além de doações anônimas. Foram tantos os pecados cometidos nos últimos anos pelo Jornalismo corrompido pela publicidade que não se pode mais imaginar hoje em dia um veículo patrocinado e isento como um Repórter Esso. Muito menos se ele atacar a indústria do petróleo e falar das emissões de Carbono como grandes vilãs no aquecimento global.
A Wikipedia vive hoje o fantasma dos Natais passados na promiscuidade da mídia, o fantasma dos Natais presentes na crise econômica e o fantasma dos natais futuros ao contemplar sua possível extinção como a conhecemos. Não é nada animador.
De qualquer forma, Feliz Natal. Não deixe que o baixo-astral das notícias da crise o contamine. Se você puder ajudar a Wikipedia com uma doação que lhe dê fôlego enquanto ela não encontra uma saída para esse cul-de-sac em que se meteu voluntariamente, eu me sinto presenteado e agraodeço em nome de todos nós.
Pode ser qualquer quantia, talvez até a que seria gasta em produtos de consumo de utilidade duvidosa e procedência escusa em um site chinês. Não sei quanto a você, mas para mim dois dólares gastos com a Fundação Wikimedia são coisa de gente mais descolada que uma lanterna de porquinho.




Muito bem, fiz minha doação.
Realmente a Wikipedia é de valor inestimável.
;)
Luli, eis o ponto mais questionável de toda a tal nova revolução que se apresentou ao mundo nos últimos tempos. É bonito e in falar de colaborativismo, de sociedade livre, de conteúdo plural, do escape ao padrão convencional de notícias e editoriais corporativos do tal antigo quarto poder. Não são poucos os artigos que pregam as mil maravilhas do mundo feito por todos, da ampliação dos conhecimentos e da derrubada de fronteiras.
Porém, de fato, em algumas questões, o mundo continua o mesmo, a lógica de mercado, em certos aspectos, também, o lucro pode ser até dispensável (em projetos como a wikipedia), porém, o custo (que não deve ser dos menores, para suportar tantos e tantos acessos e pesquisas, continuamente), precisa ser coberto. Sim, por mais nobre que uma ação possa ser, por mais justo e necessários que seja o trabalho oferecido, as contas devem ser pagas.
Eu acredito (talvez igenuamente) que a wikipedia possa se manter através de doações. Sendo ainda mais igênuo, acho que os orgãos governamentais possam ajudar, assim como, talvez, possamos criar ONGs que tenham como objetivo principal ajudar projetos grandes e pioneiros como esse.
De qualquer forma, estou indo, agora, fazer minha doação.
E espero que muitos façam o mesmo.
Bem que o PagSeguro podia parar de fazer desfile de gordo pelado e fazer uma campanha de doação para Wikipedia…
É, realmente um deslize pode custar caro e não queremos que custe tão caro quanto um mundo sem wikipedia. Estou fazendo minha doação agora mesmo. Compensa muito.
A lanterna de porquinho foi forte hein? huahuaha
Bem lembrado!
Doações para projetos bacanas como a wikipedia, a creativecommons, a EFF e o archive.org são excelentes presentes neste Natal da crise :)
Apesar de estarmos falando da economia digital, não há nada de tão novo nisso. Auto-sustentabilidade de uma instituição sem fins lucrativos exige criatividade, e muitas vezes risco. Risco de perder a essência ao receber patrocínio, risco de ter que contar com apoio voluntário (quem já trabalhou em ONG sabe, é o tipo de coisa que nenhum gestor deseja). Além disso precisamos lembrar que a economia digital traz vantagens. Por mais que o custo operacional seja alto, é muito menor caso a Wikipédia fosse uma instituição física, não há dúvida. A redução dos custos com armazenamento e acesso é mais significativa a cada ano. A solução pode vir de outras evoluções tecnológicas como P2P, enfim. Acho a contribuição um meio autêntico de se manter, o mesmo esforço coletivo poderia ser utilizado para propor soluções.
Luli, muito bom voce lembrar a penúria da Wikipedia. Foi incrível ter solicitado ajuda a Wikipedia no meu livro e alguns jornalistas (importantes) não entenderam…
Fala-se tanto em educaçao no Brasil mas quando precisamos ajudar a fortalecer um meio democrático de difusão de conhecimento, há pouco interesse. Também fiz minha contribuiçao. Seu post é totalmente natalino, afinal nao é nesta época que as pessoas se preocupam com a comunidade?
FELIZ NATAL RAMIRO
Mais do que ajudar a Wikipedia a se manter no mundo, precisamos ajudar o mundo a continuar tendo a Wikipedia. Depois de ler o post, já fiz a minha doação de natal e foi tudo super simples, rápido e seguro. Também twittei recomendando aos amigos que façam o mesmo (http://twitter.com/gustnogueira/status/1075544045). Obrigado pelo post, Luli, e feliz natal.
Tem um texto muito bom que trata da situação da Wikipedia:
http://www.netmag.co.uk/zine/discover-culture/what-s-the-deal-with-wikipedia
O interessante é que desde 2007 o tráfego não aumenta (junto com os cutos) — pela primeira vez na história do site a participação da comunidade (edição, deletes, etc) vem caindo, aliás.
E cá entre nós, ninguém gosta de banners, mas só com AdSense a Mozilla fatura U$ 50 milhões anuais. Não é de se jogar fora…
vejo pouco problema em a wikipedia vender banners ou qualquer outro tipo de publicidade (talvez patrocínios ou apoios culturais sejam melhor vistos).
mantendo-se o mesmo processo editorial difuso e auto-regulado, fica até menor o risco de promiscuidade ou “interferência” que em redações – onde é muito claro quem é o chefe, quem é o dono e de quem é o bolso.
e bem lembrado sobre as doações. tomara que elas sustentem o projeto o mais possível :-)
Bem que o PagSeguro podia parar de fazer desfile de gordo pelado e fazer uma campanha de doação para Wikipedia… [2]
Luli,
Durante o século 19 e metade do século 20 os avancos em medicina, arqueologia, geologia, física, química eram registrados no museu Britânico. Um cientista só poderia ser reconhecido como tal, se após fazer uma descoberta, registrá-la e deixá-la disponível ao público no museu Britânico. Que era e é gratuito. Este procedimento deu enorme velocidade a construção de conhecimento para a humanidade. Ganhava o cientista que se tornava reconhecido e também a sociedade que podia usufruir destas inovações. Seria a Wikipedia o Museu Britânico do século 21? Abraços RAMIRO
Lembrando que a wikipedia tem muito conteúdo descaradamente copiado de outros sites, e possivelmente aparecendo na frente nos resultados do google.
Quem sabe um futuro sem wikipedia, poderia abrir mais espaço para blogs com “conteúdo”.
[]´s
Acredito que se a wikipedia acabar ninguém vai sentir muita falta por um único motivo: nesse negócio coda vez que um player desaparece sugem outros 2 melhores. Quanto ao fundador da wikipedia uma conhecida revista de negócio brasileira mostrou uma foto dle ao lado de figurões que com um espirro podem resolver a situação. Acredito na internet, na livre iniciativa na liberdade mas principalmente não acredito em bixo papão, portanto não acho que o fim de nenhum serviço ou site seja perigoso para a internet.
Luli, você merece todo o status de celebridade depois da sua palestra no Oi futuro. Foi um show! Claro, objetivo, coerente, correto, corajoso. Eu sou biólogo, cientista, professor da UFRJ e trabalho com EAD coordenando cursos de capacitação de professores para a Universidade Aberta do Brasil e a Escola técnica aberta do Brasil. Minha experiência nessa área mostra que a cultura digital do brasileiro é muito, muito baixa. Como diz a escritora Sonia Rodrigues (do Projeto Rio Biografias, também do Oi Futuro), são os “excluídos com orkut” porque tem acesso a rede mas não tem critério. Qualquer professor hoje não pode se permitir apenas ensinar o seu conteúdo, não pode se furtar a ensinar critério para essa legião, sob pena, simplesmente, não ter mais a quem ensinar. É um trabalho difícil para o professor que foi criado no modelo não digital e que nunca tinha percebido isso. É isso que tentamos fazer nos cursos de EAD para a UAB. Além disso, a ciência tem um potencial enorme para despertar no público essa curiosidade pelas coisas, que pode estimular o uso de critério para discernir entre o que é válido e o que não é. É isso que tento fazer no blog Você que é Biólogo… Seu site está linkado lá. Um abraço, Mauro
Sempre nesse tipo de texto sobre ateísmo há uma confusão entre Deus e a Religião. Religião serve pra manipular a massa(ingênuos) e Deus para atribuir algo que não conhecemos(ainda).
Você escreve bem.
Luli, você acompanhou quando criei o site http://www.2communication.com , que tem a intenção de ser um repositório de textos, artigos, poesias, reflexões, etc…, onde qualquer pessoa pode colocar seu texto pasa ser compartilhado, sem censura. Por isso enfrento um problema semelhante à Wikipédia, porém em muito menor escala. O site tem um custo de aprox. R$150 ao ano, que tenho bancado sózinho. Ele tem tido uns 100 acessos por dia, e tem ótimos textos sobre vários assuntos, desde história e literatura até fotografia e música. Se o site não decolar, vou acabar desistindo, e se decolar, vou ter que fechar também, pois não vou poder bancar uma hospedagem para tento. Esse dilema da wiki é, portanto, uma questão muito abrangente, e temos que pensar em como bancar uma sociedade que compartilhe o conhecimento. Abraço!