Qualquer ação que proporcione prazer físico ou intelectual deixa de proporcioná-lo assim que se torna compulsória. Sexo, sono, comida, viagens… todas são atividades maravilhosas, desde que seja sua opção fazê-las.
Quando obrigatória, até uma viagem às Maldivas pode se tornar um saco. Esse é um dos grandes perigos da época digital: se por um lado é ótimo mudar completamente de cara, corpo e atitude conforme a ocasião, por outro lado é muito chato ser obrigado a fazê-lo o tempo todo.
E no entanto é isso o que mais se faz nas redes sociais: estabelecer e reafirmar a própria identidade. Seu nome de usuário (nick), a forma com que você se apresenta (avatar), as fotos que escolhe, os textos que escreve, os temas que aborda… pode não parecer, mas essas atitudes têm muito pouco a ver com a informação que pretendem transmitir. Em um cotidiano que todos são estrangeiros e não há tempo nem paciência para se ouvir a história de ninguém, as personalidades são extremamente maleáveis.
Você é o que consome.
Já se foi o tempo em que era preciso ter um lado nerd para fazer parte de grupos de IRC e clãs de RPG. Agora que a presença em comunidades é praticamente obrigatória, o indivíduo é descrito pelo que o Google fala dele, pelo que se tuíta a seu respeito, pela forma como se comporta em mídias sociais, pelos avatares que porta e por toda a nuvem de tags que ele próprio cria a seu respeito, intencionalmente ou não, à medida que se transforma em seu próprio Big Brother. Não é de se admirar que tal cenário não tenha sido previsto por autores de ficção científica. Seria estranho demais para ser crível.
É estranho demais para ser crível.
À medida que a informação se popularizou, as identidades se pulverizaram. Sem aviso, o espírito de corpo se tornou uma relíquia dura de explicar nos termos da Teoria do Caos. Fica difícil imaginar um mundo em que só havia uma verdade, uma versão, uma realidade, uma certeza. E no entanto as coisas eram assim há pouco mais de um quarto de século. Sob certos aspectos, ainda o são em comunidades pequenas, grupos fechados, sociedades remotas. Como disse em uma série de posts sobre o Pós-Moderno, não há mais dúvida que Nova York esteja efetivamente mais perto do que o sertão.
Pouco importa o desconforto, ninguém leva a sério a idéia de voltar atrás. Mesmo que fosse possível, não seria desejável. Boa parte da situação que se vê hoje em dia nos grandes centros urbanos conectados é fruto de uma maior liberdade de expressão. De escolha. De ação, enfim.
A pulverização da identidade acompanha de perto a disseminação da informação. Em comunidades fechadas, de Amish a Trekkers, tanto como em cidades pequenas, de Turnu Măgurele a Bálsamo, não há espaço para múltiplas interpretações da realidade. Você é aquilo que o grupo determinou que seja, e não se fala mais no assunto. Se você está confortável, ótimo. Se não, na melhor das hipóteses a porta da rua é serventia da casa.
À medida que a economia da informação se descentralizou, a questão da identidade foi se tornando mais e mais complexa. E complicada. Quando o rei é descendente direto da divindade e tem poder inqüestionável, a idéia de uma sociedade de castas não é tão complicada assim. Você nasceu escravo, vai morrer escravo e se rebelar talvez só acelere o processo. Por mais que tente, a Índia não consegue se livrar dessa enorme mancha em sua reputação até hoje.
Sob esse aspecto, o Século XX foi muito louco, já que buscou argumentos racionais para reproduzir as mesmas estruturas. Intelectuais de diversos segmentos e áreas de interesse apoiaram as insanidades de Stalin a Mao, de Adolf a Mobutu, de Médici a Pinochet.
Todos muito parecidos, com uma divergenciazinha ou outra na questão dos recursos humanos. A idéia básica era mais ou menos a mesma do Império Romano: informação controlada, poder absoluto, manipulação da opinião pública e repressão feroz. Por mais bonito que seja falar da China hoje em dia, ela não é exatamente um exemplo nesse quesito. Cuba, então, muito menos. Mas ninguém mais fala de Cuba hoje em dia.
Uma boa prova de que as idéias de liberdade de imprensa, de associação, de escolha e de expressão são forças irresistíveis está no fato de que, pela primeira vez na História, o povo do Século XX reagiu às forças de opressão e colocou no poder uma estrutura com alguma transparência.
Melhor do que nada.
Winston Churchill já dizia que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que são tentadas de tempos em tempos. Ele também disse que o povo dos Estados Unidos sempre teve a capacidade de fazer a coisa certa depois que todas as outras opções foram testadas. Sob esse aspecto, os experimentos americanos para a ascensão e queda do capitalismo corporativo como o conhecemos foram dignos de nota.

Para combater as restrições impostas pelos governos centralizadores, as grandes empresas propuseram maior liberdade e prosperidade. Assim que assumiram o poder, reproduziram os mesmos velhos hábitos. Na década de 1980, só era “alguém” um indivíduo que tivesse um emprego em uma delas. A própria definição de “sucesso” passava, obrigatoriamente, por uma submissão incondicional aos seus valores.
O fim da guerra de 1945 marca o início da idade mídia (o termo é meu), em que os veículos de comunicação crescem, abrem seu capital, se tornam propriedade de empresários e passam a reproduzir seus ideais. Para se opor a eles, jornais “de esquerda” defendem e são custeados por ditaduras militares. Não consigo imaginar melhor exemplo de uma idade das trevas, ainda mais se levarmos em consideração as variadas ameaças nucleares.
A alta idade mídia era bastante maniqueísta: você era uma coisa ou outra, sem meio-termo. Combinar pedaços? Impensável. Para reforçar cada lado de uma questão, várias “personalidades”, de executivos a atores, serviam de modelo de comportamento. Os “astros” e “profissionais de sucesso” eram os novos Faraós.
Só que a liberdade promove inquietações. Por mais variados que fossem os modelos de comportamento, eles não eram muito mais abrangentes ou sofisticados do que os propostos pelos vilarejos culturais de antigamente. Expostos à possibilidade de conviver com a diversidade, as pessoas passaram a querer cada vez mais. O Punk, como retratei no post anterior, foi só uma das formas de contestação. Se eu posso determinar meu próprio estilo, por que me negam acesso aos meios de comunicação?
Mmmm… perguntinha difícil. Ela deu origem à baixa idade mídia, em que o glamour da indústria do espetáculo dá lugar à decadência dos espetáculos de realidade. Neles, são chamados de “celebridades” uns sujeitinhos desestruturados e inseguros, que não fizeram nada de célebre para celebrar.

A economia do prestígio transfere o poder das tais celebridades para pessoas comuns que tenham adquirido credibilidade pelo conjunto da obra. É um trabalho de formiguinha, inglório, em que fórmulas mágicas simplesmente não acontecem. Seu roteiro é tão previsível que chega a ser piegas, com valores que lembram um filme do Tom Hanks. Ou a campanha do Obama.
Existe, no entanto, uma enorme diferença entre a economia do prestígio e o ideal clássico de ascensão social. No novo ambiente, todos os temas são importantes, desde que elaborados com afinco. O valor da obra só depende de sua coerência, consistência e profundidade. Um tutorial de legislação é tão importante quanto uma coletânea de textos humorísticos. Cada leitor preza o que achar mais adequado conforme a ocasião. Não tem nada de errado nisso, muito pelo contrário.
Como já disse antes, o errado está na busca pelo absoluto.
Se a sociedade contemporânea parece para você muito mais bagunçada e confusa do que este texto tenha sugerido, é porque ainda estamos a caminho. Por mais que pareça corriqueira, a economia da atenção não é fácil de controlar. A descentralização da informação gera um número tão grande de variáveis que administrá-las é quase uma arte. É um processo que toma tempo, demanda estrutura e dá um baita trabalho.
Por isso, se você acha o conteúdo gerado pelas mídias sociais ainda ruim demais, amador demais ou imaturo demais para ser levado a sério, você tem razão. Em parte e por enquanto. De certa forma, isso não é ruim. Significa que ainda há espaço para entrar e fazer a diferença. Seria muito pior se você quisesse ser trompetista de Jazz, pois teria que competir com Chet Baker ou Miles Davis.
Na verdade, as mídias sociais não são ruins. Elas são, em sua maioria, amadoras, em seu melhor sentido. Como este blog, amam o que fazem e buscam, através de seu trabalho, contribuir para mudar o mundo. São diletantes não por fazerem pouco, mas por acharem delicioso o que fazem.
Não consigo pensar em nada mais meritório do que isso.
Esta série acaba aqui. Agora você segue por conta própria. Ou não.


Acompanho o blog por RSS e ao ler todos os textos da série não pude deixar de comentar o quão ricos são. Gostaria de agradecer-lhe por compartilhar conosco estas idéias.
Eu concordo 100% com o Luli! Até escrevi um post no meu blog sobre como eu achava músicas diferentes nos anos 90 e acomo eu acho hoje. É um absurdo a quantidade de músicas ,filmes e imagens que eu deixei de ver nos anos 90 por que não haviam mídias sociais tão fortes quando as de hoje. Eu acho um artista agora e quando vou ver já passei por 10 sites diferentes e escutei uns 5 músicos no mínimo. E é algo que não dá trabalho e é extremamente agradável.Artistas regionais, experimentais e com conceitos fantásticos que talvez eu nunca fosse escutar pela distância cultural que com os recursos atuais eu posso encontrar em 2 segundos. Não escuto mais só a música da moda… na verdade a música da moda só toma 5% do meu tempo de apreciação musical. E mesmo não sendo dessa área, isso me dá vontade de gastar meia hora do meu dia em um fórum, em videos e em comunidades co mas quais eu me identifico artisticamente.
Agora você segue por conta própria. Ou não.
Pô agora que você levantou todas as bolas, voce sai do jogo…? Muito bons textos para provocar.
Gostei do termo criado “idade midia”. Como voce chamaria o periodo seguinte?
Posso sugerir um topico:criacao de ícones na internet. Lembrei que voce comentou fenomenos, como malu m, irao se repetir como frequencia? Abs Ramiro
Cara, parabéns pelos textos dessa série, estão muito bons.
“Se eu posso determinar meu próprio estilo, por que me negam acesso aos meios de comunicação?”
Me perguntei isso certa vez, claro que em outras palavras.
Sempre que leio seus escritos, nasce um medo do presente. Como se mesmo com tais dicas suas, toda a confusão do agora fosse me consumir.
E falando a verdade, me sinto consumido por tudo isso.
Sempre é bom conhecer as mandíbulas que nos abocanha.
Obrigado de verdade por tudo, ainda irei ser seu aluno, penso muito nisto.
Já hoje é bem possível perceber a busca do crescimento nos blogs mais antigos, basta ler os primeiros e últimos posts que vamos notar alguns passos de amadurecimento deste processo.
Parabéns pelos textos desta série, simplesmente fenomenais.
parabéns pelo “Idade Mídia” - idéia fantástica e define maravilhosamente a época atual,
1 abraço,
Olá Luli
Lendo tudo o que você escreveu nessa série de posts sobre a mídia convencional X a nova midia, me ocorreu que talvez esses grandes conglomerados que lucram com a desinformação da população, pudessem se apossar da internet e sufocar a liberdade na rede. Isso ficou claro na declaração do Nizan! Esses loucos egoistas querem tudo para eles e nada para nos!
Você que entende bastante de internet, acha que isso é possivel? Digamos que por exemplo companhias telefonicas comprem a infraestutura de internet e passem a nos monitorar além de tentar trazer o velho modelo de negocio do mundo real para o mundo virtual?
Piraloco,
É possível e impossível ao mesmo tempo, na verdade toda a rede de internet já está sob o domínio de algumas empresas assim como as antenas de tv e transmissores, isso que você disse é possível, mas veja só, se os impérios estão perdendo o controle é sinal de que as pessoas não aceitam mais os modelos antigos e a nova geração não permitirá um retorno ao modelo autoritário vigente tão facilmente. Mas é possível embarreirar o crescimento da internet na sua popularização no que diz respeito a conteúdo de valor, por exemplo infestando a rede de blogs que falam de big brother fazendo o povo levar mais tempo para esquecer do conteúdo tradicional por estar sempre de alguma forma em contato com ele mesmo no mundo digital.